Mesopotâmia: as primeiras cidades
Um rio que não inunda sozinho, cidades que disputavam a mesma água e uma pedra de quase dois metros e meio onde estava escrito quanto valia o olho de cada pessoa. A Mesopotâmia lida pelos próprios documentos: leis, contratos, uma lenda de rei e uma epopeia sobre a morte.

Estela do Código de Hamurabi, face frontal, Museu do Louvre · 2011 · Wikimedia Commons · CC BY 3.0
Numa lei de quase quatro mil anos está escrito que quem arranca o olho de outro homem perde o próprio olho. Dois parágrafos adiante, a mesma lei manda pagar em prata quando o olho é de outra pessoa. O que essa diferença revela sobre a sociedade que a escreveu?
A resposta passa por uma pergunta mais ampla, que organiza este artigo: o que os habitantes da Mesopotâmia precisaram pôr por escrito, e por quê? Água, terra, dívida, gente de condições desiguais, a autoridade do rei e, por fim, a morte. Cada um desses assuntos deixou documentos, e são eles que contam a história aqui.
Este texto não resume um livro de síntese. Ele foi montado diretamente sobre documentos de época — leis, contratos, uma lenda real, o relato de Heródoto, a epopeia de Gilgamesh — e sobre as notas do editor do Internet Ancient History Sourcebook, da Universidade Fordham. Isso dá proximidade com a fonte, mas cobra um preço: o artigo é mais provisório que um apoiado em obra de síntese, e deixa de fora o que os documentos lidos não sustentam.
Um rio que não transborda sozinho
O historiador grego Heródoto, que escreveu por volta de 430 a.C., fez a comparação que todo estudante deveria guardar. Na Babilônia, anotou ele, chove pouco — o bastante para o grão brotar, não para amadurecer. E o rio, “ao contrário do Egito”, não cobre as lavouras por conta própria: a água é levada até elas “à mão ou com a ajuda de máquinas”, e o país inteiro é recortado por canais.6
A consequência é social antes de ser técnica. Onde a água depende de obra, alguém precisa cavar, manter e repartir. As leis de Hamurabi mostram o peso disso: quem deixasse o próprio dique malcuidado e provocasse a inundação dos campos vizinhos podia ser vendido para pagar o grão perdido; se nem assim bastasse, seus bens eram divididos entre os prejudicados(§ 53-54).1 Conservar o canal não era favor ao vizinho — era dever com punição prevista.
Heródoto se entusiasma com a fartura que esse sistema produzia: o grão renderia duzentas vezes a semente, às vezes trezentas, e a tamareira forneceria pão, vinho e mel. Ele mesmo admite que o leitor que nunca viu a região vai achar aquilo incrível. Vale ler o número como o que é: impressão de um viajante, não medição.6

Tabuleta suméria de contabilidade, c. 3100-2900 a.C. · 0 · Wikimedia Commons · CC0
Cidades rivais, e o rei que se dizia filho de ninguém
A Mesopotâmia não foi um país. Foi um conjunto de cidades, cada uma com seu deus, seu templo e suas terras. Em 1910, o assiriólogo C. H. W. Johns resumiu a história política mais antiga da região como uma disputa entre cidades pela supremacia: a vencedora cobrava tributo e soldados das outras, mas deixava intactos seus cultos e costumes.3
Quem primeiro transformou essa disputa em domínio duradouro sobre povos conquistados foi Sargão, da cidade de Acádia, no período que o editor do Sourcebook situa entre c. 2350 e 2200 a.C. O mesmo editor do Sourcebook observa que ele costuma ser tratado como o primeiro “imperador”, e não apenas mais um rei.8 A lenda gravada em seu nome ajuda a entender o tipo de poder que ele reivindicava. Nela, Sargão fala na primeira pessoa: “minha mãe era humilde; meu pai, eu não conheci”. Recém-nascido, foi posto num cesto de junco vedado com betume e lançado ao rio, até ser recolhido por Akki, o irrigador, que o criou e o fez jardineiro. Dali, com o favor da deusa Ishtar, chegou a governar.4
Origem obscura, adoção por um trabalhador da água, escolha divina: a lenda não prova nada sobre o nascimento real de Sargão, mas mostra como um conquistador queria ser lembrado — sem dever o trono a nenhuma família. Uma filha dele, Enheduana, tem outro título: segundo o editor, os primeiros escritos atribuídos a um autor com nome são os hinos atribuídos a ela.8

Estandarte de Ur, painel da guerra, séc. 26 a.C. · 0 · Wikimedia Commons · Public domain
Um aviso do mesmo editor corrige o modo como o assunto costuma ser ensinado. A sequência sumérios, acádios, babilônios, assírios dá a impressão de que um império sucedia o outro sem intervalo. As leituras modernas — ele cita James C. Scott — insistem no contrário: esses Estados eram frágeis, e por longos períodos ninguém dominou a região. Entre c. 1200 a.C. e o século VII a.C. há o que se costuma chamar de “longo interlúdio”; quinhentos anos, comenta o editor, é bem mais que um intervalo. Durante esse tempo, governantes locais, famílias e templos seguiram existindo.8
LembrePor que a água explica tanto da organização mesopotâmica?
Porque ali o rio não fertiliza as terras sozinho, como Heródoto contrasta com o Egito. A lavoura depende de canais e diques construídos e mantidos por gente — e por isso a manutenção vira obrigação legal, com punição para quem a descumpre. Repartir água é repartir poder.
Escrever para provar: contratos, selos e recibos
O que chegou até nós da Mesopotâmia é, em grande parte, papelada. Johns registrava que escrituras, recibos, contas e sentenças judiciais existiam “aos milhares”, e descrevia um hábito generalizado de recorrer ao contrato escrito: o acordo era redigido no templo, jurado “por deus e pelo rei”, selado e assinado por testemunhas.3
A coleção de contratos do Sourcebook mostra como isso funcionava na prática. Num deles, do reinado de Rim-Sin, um homem chamado Sini-Ishtar compra um escravo, Ea-tappi, por dez siclos de prata; os vendedores se comprometem a não reclamá-lo depois, três testemunhas são nomeadas e o escriba sela o documento. Os temas da coleção dizem o resto: venda, aluguel, sociedade, empréstimo, falência, procuração, casamento, divórcio, adoção, herança.5 Heródoto, séculos depois, ainda notava que todo babilônio andava com seu selo.6
Essa escrita em cunhas sobre argila — o cuneiforme — precisou ser decifrada para voltar a ser lida nos tempos modernos. Segundo o editor, foi a decifração da inscrição gravada no rochedo de Behistun que abriu caminho para a leitura moderna das várias línguas escritas nesse sistema.8
Uma lei para ser lida em público
É nesse mundo de papel que se entende a pedra. Hamurabi, rei da Babilônia por volta de 1792 a 1750 a.C., mandou gravar suas leis numa estela de pedra negra de cerca de 2,4 metros. Para Charles Horne, que escrevia em 1915, a novidade estava na forma: era o primeiro exemplo conhecido de um governante que proclama publicamente um conjunto inteiro de leis, ordenado por assunto, para que todos soubessem o que se exigia deles.2
O próprio Horne faz a ressalva que o vestibular costuma cobrar ao contrário: o código não foi o primeiro. Coleções anteriores se perderam, mas deixaram rastros, e o texto de Hamurabi supõe a existência delas — ele reorganiza um sistema jurídico já antigo.2 Os fragmentos de leis do período acádio reunidos no Sourcebook confirmam que havia lei escrita antes dele.5
O texto abre e fecha falando de deuses e de justiça. No prólogo, Hamurabi diz ter sido chamado pelos deuses Anu e Bel “para que o forte não oprima o fraco”. No epílogo, explica onde a pedra ficaria e para quê: “que o oprimido que tiver uma causa venha diante desta minha imagem de rei da justiça, leia a inscrição e compreenda as minhas palavras preciosas”.1 A lei é apresentada como proteção — e, na mesma frase, como propaganda de um rei que se mostra justo.
Olho por olho — mas olho de quem?
A regra que ficou famosa está nos parágrafos 196 e 200: quem arranca o olho de outro homem perde o seu; quem quebra o dente de um igual perde o dente.1 É o princípio de talião, a pena que reproduz o dano. Só que a frase seguinte muda tudo.
Se o olho arrancado for de um muskinu, o agressor paga uma mina de ouro (§ 198). Se for de um escravo, paga metade do valor dele — ao dono (§ 199). E se alguém agredir um homem de posição superior à sua, recebe sessenta chicotadas em público (§ 202).1 O talião existia, mas só entre iguais. Abaixo disso, o corpo virava preço.
Johns lia no código três condições de pessoa. No alto, o amelu, de direitos plenos: podia exigir a retaliação física e, em contrapartida, pagava multas maiores. Depois, o muskinu, livre, mas obrigado a aceitar compensação em dinheiro — categoria que o próprio Johns admite ser difícil de definir. Por fim, o ardu, o escravo, propriedade do senhor, embora pudesse ter bens, casar com mulher livre e até comprar a liberdade.3
A tabela de honorários médicos repete a escala com precisão de contador. Pela mesma cirurgia bem-sucedida, o médico recebe dez siclos do paciente de pleno direito, cinco do muskinu e dois pelo escravo, pagos pelo dono (§ 215-217). E o erro também tem preço desigual: se o paciente de pleno direito morre, o médico perde as mãos; se morre o escravo de um muskinu, basta repor outro escravo (§ 218-219).1
Duas outras fontes de escravidão aparecem no próprio texto. A guerra, que trazia cativos, e a dívida: o homem que não conseguia pagar podia vender a mulher e os filhos, que trabalhariam três anos para o credor e seriam libertados no quarto (§ 117).13
As mulheres no código: duas leituras
Em 1910, Johns escreveu que a posição da mulher na Babilônia era “livre e digna”.3 Há base para isso no texto. A esposa negligenciada pelo marido podia, se fosse inocente, levar o dote e voltar à casa do pai (§ 142); outras leis mesopotâmicas devolviam o dote à viúva sem filhos e multavam o marido que repudiasse a esposa.15
O mesmo código, porém, manda a mulher apontada como adúltera, sem flagrante, atirar-se ao rio pelo marido (§ 132), e a que abandonasse a casa sendo culpada, ser lançada à água (§ 143). O ordálio do rio — o acusado mergulhava, e sair vivo provava a inocência — aparece já no segundo parágrafo da lei.1 “Livre e digna” é, portanto, a opinião de um estudioso de 1910, comparando a Babilônia com o que ele imaginava da Antiguidade; o texto da lei permite ler proteção e subordinação ao mesmo tempo.
A morte que nem o rei escapa
Nem tudo o que se escreveu era conta ou lei. A Epopeia de Gilgamesh narra as aventuras de um rei de Uruk. Na forma final, ocupava doze tabuletas, cerca de 3.600 linhas, das quais pouco mais da metade foi achada entre os restos da coleção reunida pelo rei assírio Assurbanipal em Nínive. A tabuleta XI conta um dilúvio. E fragmentos do tempo de Hamurabi provam que a história já circulava muito antes daquela cópia.7

Tabuleta XI da Epopeia de Gilgamesh, a do dilúvio, Museu Britânico · 2010 · Wikimedia Commons · CC0
Depois de perder o amigo Enkidu, Gilgamesh sai em busca de um modo de não morrer. Num dos trechos mais antigos, a jovem Sabitum, que vivia à beira-mar, responde a ele: “A vida que procuras, não a encontrarás. Quando os deuses criaram a humanidade, deram-lhe a morte; a vida, guardaram para si”. E aconselha: comer, alegrar-se, cuidar da criança que segura sua mão.7 O rei que construía muralhas e governava cidades descobre o limite que nenhuma lei resolve.
- Base em documentos, não em síntese — o artigo foi construído sobre traduções de fontes primárias e notas de editor. É mais provisório que um artigo apoiado em obra de síntese, e várias das traduções têm mais de um século.
- Hamurabi não inventou a lei escrita — havia coleções anteriores, das quais restam fragmentos. A novidade apontada por Horne é a proclamação pública de um corpo inteiro e ordenado de leis.
- Talião não é igualdade — o “olho por olho” valia entre pessoas da mesma condição. Contra um muskinu ou um escravo, a pena virava pagamento; contra um superior, chicotadas.
- Tradução de categorias sociais — “muskinu” não tem equivalente seguro. A tradução de King usa “liberto”; Johns diz que o termo é difícil de definir. Melhor manter a palavra original.
- Comentários de época — Horne (1915) e Johns (1910) são intérpretes de seu tempo. Afirmações como a de que a mulher babilônica era “livre e digna” são opinião deles, e o texto da lei as complica.
- Impérios não foram contínuos — o editor do Sourcebook alerta que a sequência de impérios esconde longos períodos sem poder dominante, como o “longo interlúdio” de c. 1200 a.C. ao século VII a.C.
Os documentos lidos não sustentam, e por isso não se afirma aqui: quando e como a escrita foi inventada, o que eram e para que serviam os zigurates, quantas pessoas viviam nas cidades sumérias, nem a história interna da Assíria e do império de Nabucodonosor. A data de 3500 a.C. que às vezes abre o assunto também não aparece nas fontes consultadas — o artigo começa em c. 3100 a.C., data do editor. Os fenícios e o Egito, vizinhos na cronologia, têm páginas próprias.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Do sumério ao persa, com os vazios
O preço da mesma cirurgia
A mulher casada no código
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Recorte | c. 3100 a 539 a.C., da Suméria à tomada de Babilônia pelos persas |
| Água | chuva escassa; rio não inunda sozinho; canais e diques mantidos por obrigação legal |
| Política | cidades rivais com deus e templo próprios; supremacia de uma sobre as outras por tributo |
| Sargão | c. 2350 a.C.; governa povos conquistados — o “primeiro imperador” |
| Enheduana | filha de Sargão; primeiros escritos atribuídos a um autor com nome |
| Hamurabi | rei da Babilônia c. 1792-1750 a.C.; código de c. 1780 a.C. |
| O que o código inovou | proclamação pública de um corpo inteiro e ordenado de leis — não a lei escrita em si |
| Condições de pessoa | amelu (pleno direito), muskinu (livre, compensado em dinheiro), ardu, o escravo |
| Talião | só entre iguais (§ 196, 200); contra inferior, pagamento (§ 198-199) |
| Escravidão | por guerra, compra e dívida; escravo podia ter bens e comprar a liberdade |
| Mulher casada | dote protegido e saída do casamento (§ 142), mas ordálio do rio e punição maior (§ 132, 143) |
| Escrita do cotidiano | contratos, recibos e sentenças aos milhares; selo pessoal |
| Gilgamesh | rei de Uruk; 12 tabuletas; dilúvio na XI; tema central: a morte |
| Cuneiforme | lido de novo a partir da decifração da inscrição de Behistun |
| Cautela do editor | Estados frágeis; “longo interlúdio” de c. 1200 a.C. ao séc. VII a.C. |
Fontes
- HAMURABI. Código de Hamurabi, c. 1780 a.C. Tradução inglesa de L. W. King. In: HALSALL, Paul (ed.). Internet Ancient History Sourcebook. Fordham University. sourcebooks.fordham.edu/halsall/ancient/hamcode.asp. Fonte principal deste artigo.
- HORNE, Charles F. Introdução ao Código de Hamurabi (1915), reproduzida no mesmo documento do Sourcebook. Interpretação de época, atribuída no texto.
- JOHNS, Claude H. W. “Babylonian Law — The Code of Hammurabi” (1910), reproduzido no mesmo documento do Sourcebook. Interpretação de época, atribuída no texto.
- The Legend of Sargon of Akkadê, c. 2300 a.C. Tradução de George A. Barton (Archaeology and the Bible, 1920). In: Internet Ancient History Sourcebook, 2300sargon1.asp.
- A Collection of Contracts from Mesopotamia, c. 2300-428 a.C. Tradução de George A. Barton (1904). In: Internet Ancient History Sourcebook, mesopotamia-contracts.asp; e A Collection of Mesopotamian Laws, trad. William Muss-Arnolt (1904), 2550mesolaws.asp.
- HERÓDOTO. História, livro I, 178-195, c. 430 a.C. Tradução de George Rawlinson (1862). In: Internet Ancient History Sourcebook, greek-babylon.asp.
- CLAY, Albert T.; JASTROW, Morris. An Old Babylonian Version of the Gilgamesh Epic. New Haven: Yale University Press, 1920. Project Gutenberg, e-book nº 11000.
- HALSALL, Paul (ed.). Internet Ancient History Sourcebook: Mesopotamia and Syria. Notas do editor sobre periodização, Sargão, Enheduana, o “longo interlúdio” e a decifração do cuneiforme. sourcebooks.fordham.edu/halsall/ancient/asbook03.asp.