História Verso
História Geral · Idade Antiga

Reino de Kush e a Núbia

Ao sul do Egito, um reino que enfrentou os faraós, governou o próprio Egito por meio século, escolhia seus reis entre irmãos, foi comandado por rainhas que negociaram com Roma e escrevia numa língua que ninguém ainda consegue traduzir.

séc. XVIII a.C.-séc. IV d.C.15 min de leitura6 fontes
Pirâmides da necrópole real de Méroe, no atual Sudão · Laurent de Walick · 2019-01-31 07:52:31
Pirâmides da necrópole real de Méroe, no atual Sudão. São mais estreitas e íngremes que as de Gisé, e foram erguidas mais de dois mil anos depois delas, quando reis e rainhas de Kush passaram a ser enterrados perto da nova capital.
Pirâmides da necrópole real de Méroe, no atual Sudão · 2019 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0
Pergunta orientadora

Existem mais pirâmides no Sudão do que muita gente imagina, e elas não foram feitas por egípcios. Durante muito tempo, porém, quem estudava o reino que as construiu o tratou como cópia do Egito, ou como sua periferia. Por que essa leitura foi abandonada, e o que aparece quando Kush é estudado por ele mesmo?

Um corredor, não um fim de mundo

O nome Núbia designa o trecho do vale do Nilo ao sul do Egito, hoje dividido entre o sul egípcio e o norte do Sudão. O mapa explica sua importância. Espremido entre o Saara, a oeste, e o deserto arábico, a leste, o rio forma ali um corredor que liga a África central ao Mediterrâneo.4 Não é um caminho fácil: as cataratas — trechos de corredeira com rochas — interrompem a navegação, e duas grandes curvas obrigam o rio a correr por um tempo para o sudoeste. Ainda assim, a partir dele se chegava às terras altas da atual Etiópia e ao mar Vermelho, a leste, e ao Kordofan, ao Darfur e ao lago Chade, a oeste.4

Os egípcios chamavam essa terra de Ta-Seti, a “Terra do Arco”, em referência ao arco que seus guerreiros carregavam.5 E a chamavam também de Kush, nome que o reino do sul acabaria adotando para si mesmo.1

Por que não se diz “etíope”
Autores gregos chamavam os habitantes da região de “etíopes”, e a historiografia francesa ainda fala em “dinastia etíope” para os reis cuxitas que governaram o Egito. Leclant, autor do capítulo central sobre o tema, evita o termo de propósito: ele nada tem a ver com a Etiópia atual, e o uso só confunde.1 Este artigo segue a mesma escolha.

Primeira releitura: Kerma não era um forte egípcio

Entre 1913 e 1916, o arqueólogo americano G. A. Reisner escavou em Kerma, pouco acima da Terceira Catarata, um sítio com duas grandes construções de tijolo cru, as dufufas, e um vasto cemitério. Como encontrou ali estátuas egípcias, concluiu que se tratava de uma fortaleza do Egito e que os grandes túmulos eram de governadores egípcios.3

A interpretação foi desmontada por etapas, e o capítulo de Sherif, diretor do Museu Nacional de Cartum, reconstitui o debate. O argumento mais forte vem dos próprios túmulos. Neles não havia mumificação; o morto era deitado num leito e enterrado com esposas, filhos e servidores — um rito inteiramente núbio. Um alto funcionário egípcio dificilmente aceitaria ser sepultado longe de casa, num ritual estranho à sua religião. As estátuas egípcias, propuseram Säve-Söderbergh e Arkell, teriam chegado por comércio, trocadas com os príncipes locais.3 Para Hintze, Kerma era o centro de uma cultura núbia nativa e sede de uma dinastia local.

Sherif considera essa leitura a mais próxima da verdade, mas não fecha a questão: a existência de um posto comercial egípcio no local não pode ser excluída, e a região de Dongola, rica em sítios da mesma época, segue quase sem escavação.3

A Dufufa do Oeste, grande construção de tijolo cru em Kerma · walter callens · 2009-03-26
A Dufufa do Oeste, em Kerma: massa compacta de tijolos de barro. Reisner a tomou por fortaleza egípcia; a leitura que hoje prevalece no volume da UNESCO a associa ao poder dos soberanos de Kush.
A Dufufa do Oeste, grande construção de tijolo cru em Kerma · 2009 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0

O reino que tinha Kerma como capital foi uma potência regional entre c. 1730 e 1580 a.C., quando o Egito estava dividido. Uma estela do rei tebano Kamés descreve o vale repartido em três poderes: os hicsos no norte, os egípcios de Tebas no meio e um Kush independente, com fronteira em Elefantina.3 Outra estela conta que Kamés interceptou uma carta do rei hicso ao soberano de Kush, pedindo-lhe aliança contra os egípcios. E duas estelas achadas em Buhen registram funcionários a serviço do rei de Kush.

A cultura de Kerma tinha marca própria. Sua louça mais conhecida é uma cerâmica vermelha, fina e polida, com a borda preta. Seu rito funerário tinha um traço extremo: num dos grandes túmulos, de 90 metros de diâmetro, o soberano foi enterrado com 200 a 300 pessoas, a maioria mulheres e crianças, sepultadas vivas no corredor central.3

Copo de cerâmica da cultura de Kerma, período clássico, Metropolitan Museum · autoria não identificada · circa 1802
Copo de cerâmica da fase clássica de Kerma, no Metropolitan Museum: vermelho, polido, com a borda preta. É um dos marcadores de uma cultura núbia própria, anterior ao domínio egípcio.
Copo de cerâmica da cultura de Kerma, período clássico, Metropolitan Museum · 1802 · Wikimedia Commons · CC0

A independência acabou com o Novo Império. Depois de expulsar os hicsos, os egípcios voltaram-se para o sul, e Tutmósis I (c. 1530-1520 a.C.) levou a conquista além da Quarta Catarata.3 Durante o Novo Império, a Núbia foi governada pelo Egito por meio de um vice-rei, pagou tributo e recebeu templos egípcios, como o de Amenófis III em Soleb.

LembreQue evidência levou os especialistas a rejeitar a ideia de Kerma como base de governadores egípcios?

Principalmente o modo de sepultamento. Os grandes túmulos não têm mumificação, colocam o morto num leito e incluem acompanhantes enterrados com ele — um rito núbio, estranho à religião egípcia. Além disso, os objetos dos túmulos são de uma época posterior aos supostos governadores, e as estátuas egípcias encontradas podem ter chegado por comércio.

Segunda releitura: os faraós que vieram do sul

Depois do Novo Império, a Núbia entra em quase três séculos de silêncio documental. O despertar aparece no cemitério de el-Kurru, perto de Napata, abaixo da Quarta Catarata: uma série de túmulos de príncipes que começam como montes de terra e terminam como construções de alvenaria.1

Desses príncipes descende a linhagem que, por volta de 750 a.C., já ocupava parte do Alto Egito. Por muito tempo se supôs que fosse egípcia — descendentes de sacerdotes de Tebas refugiados no sul, por causa do culto a Âmon — ou então líbia. Leclant e Hakem recusam as duas hipóteses: trata-se de uma dinastia nativa, talvez herdeira dos antigos soberanos de Kerma.1 O nome de um dos primeiros reis, Kashta, parece derivar do próprio nome Kush.

Quem cruzou o Egito foi o sucessor de Kashta, conhecido nos manuais como Piankhy e hoje lido Peye. Sua Estela da Vitória, com 159 linhas de hieróglifos, narra a campanha contra os príncipes líbios que dividiam o Médio Egito e o Delta.1 O texto mostra um rei que se irrita ao achar cavalos mortos nos estábulos de uma cidade vencida, que se recusa a receber os chefes do Delta por serem “impuros” — comiam peixe — e que, vencida a campanha, volta para o sul. Numa outra estela, ele resume a origem do próprio poder: “os deuses fazem um rei, o povo faz um rei, mas foi Âmon quem me fez”.1

O irmão de Peye, Shabaka, estendeu o domínio até o Delta, e as listas de reis do Egito o contam como fundador da XXV dinastia. O mais célebre dos reis cuxitas, Taharqa (c. 690-664 a.C.), deixou o nome em monumentos de Napata a Tebas, onde ergueu colunatas no templo de Carnac.1 Foi ele quem enfrentou a Assíria: seu nome aparece na Bíblia associado ao temor causado pelos guerreiros de Kush. Assaradão não conseguiu invadir o Egito; seu sucessor, Assurbanipal, saqueou Tebas em 663 a.C., e o sobrinho de Taharqa, Tanutamon, acabou recuando para o sul.1

Esfinge com o rosto do rei Taharqa, XXV dinastia, Museu Britânico · Prioryman · 2012-02-19
Esfinge com o rosto de Taharqa, no Museu Britânico. A forma é a da tradição faraônica; o rosto é o do rei de Kush que governou o Egito entre c. 690 e 664 a.C.
Esfinge com o rosto do rei Taharqa, XXV dinastia, Museu Britânico · 2012 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Leclant faz questão de dimensionar o episódio: durante cerca de cinquenta anos, Egito e Sudão unidos formaram uma grande potência africana.1 O símbolo dessa monarquia dupla eram as duas serpentes erguidas na testa do rei. Os soberanos cuxitas adotaram trajes, títulos e estilo dos faraós, de quem se diziam sucessores. Mas usavam também um gorro justo próprio do Sudão, brincos com cabeças de carneiro — animal de Âmon — e levavam mães, esposas e irmãs nos séquitos, o que não se fazia no Egito.

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Por volta de 720 a.C., reis vindos de Napata, no atual Sudão, passaram a governar o Egito, formando a chamada XXV dinastia. Sobre esses soberanos, os autores do volume II da História Geral da África, da UNESCO, sustentam que:
  1. Incorreta. Essa foi a hipótese dominante durante muito tempo, apoiada justamente no culto a Âmon e na semelhança de alguns nomes. Leclant e Hakem a consideram sem base sólida.

  2. Incorreta. A origem líbia também foi proposta, a partir de pontas de flecha de tipo saariano, e também é recusada. Os líbios que dominavam o Delta foram, ao contrário, os adversários de Peye.

  3. Correta. É a leitura dos autores. Os reis cuxitas usavam títulos e estilo dos faraós, mas mantinham o gorro justo sudanês, os séquitos com mulheres da família e uma forma própria de escolha do rei.

  4. Incorreta. Entre o fim do domínio egípcio na Núbia e o surgimento da linhagem de Napata há quase três séculos de silêncio documental. Nada liga esses reis aos vice-reis egípcios.

  5. Incorreta. O domínio cuxita no Egito durou cerca de cinquenta anos e terminou com a ofensiva assíria, que saqueou Tebas em 663 a.C.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Terceira releitura: Méroe não foi decadência

Expulsos do Egito, os reis de Kush continuaram reinando no sul por quase mil anos. Primeiro em Napata, junto ao Djebel Barkal, montanha tida como sagrada; depois em Méroe, bem mais ao sul. A egiptologia tradicional, lembra Leclant, viu nesse milênio um longo período de degeneração das influências faraônicas. Ele propõe outra leitura: uma cultura africana que “ora se firma em sua especificidade ora procura alinhar-se à civilização egípcia – ela mesma, aliás, africana”.1

A mudança de capital tem data discutida, e os dois capítulos do volume não coincidem. Para Leclant, ela se explica sobretudo por um ataque: em 591 a.C., um exército do faraó Psamético II, reforçado por mercenários gregos, tomou Napata, e os cuxitas teriam buscado distância dos vizinhos do norte ainda no século VI a.C.1 Hakem, seguindo a leitura dos cemitérios feita por Reisner, situa a transferência por volta de 300 a.C., quando os reis deixam de ser enterrados perto de Napata.2 Os dois concordam que Napata seguiu como centro religioso. E Leclant acrescenta razões econômicas para a ida ao sul.

Méroe ficava numa região de chuvas de verão, com estepes amplas para o gado e terra para lavoura; os moradores cavaram grandes bacias para reter água, os hafirs. Por ela passavam as caravanas que ligavam o Chade e o alto Nilo ao mar Vermelho, e o rio fazia dela também um porto.1 Hakem a descreve como uma cidade de enormes proporções, com palácios, termas reais e o templo de Âmon, e a coloca na primeira linha dos sítios que documentam o começo da civilização na África.2

Como Kush escolhia o rei

Hakem destaca, antes de tudo, a estabilidade: do século VIII a.C. ao século IV d.C., essencialmente a mesma linhagem governou, sem as rupturas violentas que marcaram outros reinos antigos.2 E o mecanismo de sucessão era próprio.

Autores gregos, de Heródoto a Diodoro, se espantavam com a “eleição” dos reis cuxitas, que descreviam como escolha feita pelo deus durante uma procissão. As inscrições reais mostram o que havia por trás do rito. O novo rei saía de um grupo de “Irmãos Reais”, e quem decidia eram os chefes militares, os altos funcionários e os chefes de clã; o oráculo de Âmon vinha depois, como ratificação.2 Aspelta conta que foi escolhido por 24 altos funcionários e comandantes; Amannateieriko, que foi eleito pelos chefes do exército aos 41 anos.

A coroa passava preferencialmente de irmão para irmão antes de chegar à geração seguinte: dos 27 reis anteriores a Nastasen, 14 eram irmãos do antecessor. A ascendência pela mãe contava, e a rainha-mãe tinha papel decisivo na escolha e na coroação — traços que Hakem aproxima de outros reinos africanos, e não do modelo egípcio, em que o filho sucedia o pai.2

O rei e os sacerdotes
Diodoro conta que os sacerdotes de Kush podiam ordenar ao rei que se matasse, e que só um soberano de educação grega, Ergamenes, acabou com o costume mandando executá-los. Os dois autores do volume tratam a história com reserva: Leclant registra que não há confirmação de que os sacerdotes tivessem esse poder,1 e Hakem lembra que, nas inscrições, o papel do clero na escolha do rei aparece limitado.2

As candaces

O título que os gregos e romanos transcreveram como Candace vem do meroíta kdke e significava, de início, rainha-mãe.2 Com o tempo, rainhas passaram a governar em nome próprio, com títulos de faraó. Hakem anota um detalhe de método: nos túmulos de Nuri, de Taharqa a Nastasen, não há nenhuma rainha sepultada como soberana; a mais antiga rainha reinante conhecida é Shanakdakhete, do início do século II a.C.

Foi uma candace que enfrentou Roma. Depois que os meroítas saquearam Assuã, no Egito já romano, o prefeito Petrônio invadiu Kush e tomou Napata em 23 a.C. Os romanos deixaram uma guarnição em Qasr Ibrim, que resistiu a ataques. Mas o desfecho veio em 21 ou 20 a.C., num tratado negociado em Samos: Roma deixou de cobrar tributo e fixou uma fronteira entre os dois impérios.1 Não se sabe se a rainha das negociações, descrita pelos autores latinos como caolha e de aparência viril, era Amanirenas ou Amanishaketo. Uma pista do conflito ficou enterrada: a cabeça de bronze de uma estátua de Augusto, achada sob a soleira de um palácio de Méroe.1

Pórtico do Templo do Leão de Naga, em prancha de 1849 · Scan by NYPL · 1849
Fachada do Templo do Leão de Naga, em prancha publicada em 1849. O rei Natakamani e a rainha Amanitere, que reinaram por volta da virada da Era Cristã, aparecem em posição equivalente, cada um de um lado, vencendo inimigos.
Pórtico do Templo do Leão de Naga, em prancha de 1849 · 1849 · Wikimedia Commons · Public domain

O apogeu de Méroe veio nessa virada de era. O casal Natakamani e Amanitere construiu ou restaurou templos de Napata a Naga, onde o Templo do Leão é dedicado a Apedemak, deus guerreiro com cabeça de leão, desconhecido no Egito.1 Segundo Hakem, o culto oficial a Apedemak e a outro deus local, Sebiumeker, cresce no século III a.C., quando a influência egípcia recua — o mesmo momento em que a língua meroíta começa a ser gravada nas inscrições.2

Questão 02múltipla escolha · sem placar
No século I a.C., após um conflito militar, Roma e o reino de Méroe firmaram um tratado em Samos pelo qual os romanos deixaram de cobrar tributo dos meroítas e estabeleceram uma fronteira entre os dois impérios. Esse episódio permite concluir que:
  1. Correta. O tratado foi conduzido do lado meroíta por uma candace, Amanirenas ou Amanishaketo, e encerrou o conflito sem submissão: Roma abriu mão do tributo e aceitou uma fronteira.

  2. Incorreta. Kush era independente, e o Egito já estava sob domínio romano. Foi justamente o ataque meroíta a Assuã, no Egito romano, que provocou a expedição de Petrônio.

  3. Incorreta. Petrônio tomou Napata em 23 a.C., mas a guarnição romana se retirou e o tratado fixou uma fronteira. Méroe continuou independente por mais de três séculos.

  4. Incorreta. As rainhas-mães tinham papel decisivo na escolha e na coroação, e a partir do século II a.C. algumas governaram em nome próprio, como a candace que negociou com Roma.

  5. Incorreta. Os contatos continuaram: Méroe mandava embaixadas regulares ao templo de Ísis em Filas, e peças romanas chegaram a vários pontos da Núbia e do Sudão.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Ouro, gado e uma escrita sem tradução

Na Antiguidade, Kush tinha fama de ser uma das regiões mais ricas do mundo conhecido, e a fonte dessa fama era o ouro, extraído entre o Nilo e o mar Vermelho.2 No cotidiano, porém, a riqueza se media em gado: autores gregos e romanos descrevem uma sociedade de forte base pastoril. A agricultura cresceu com a ocupação das terras de chuva ao redor de Méroe, onde se cultivava sobretudo o sorgo, de origem local, e onde o algodão chegou mais cedo que ao Egito. No norte, de vale estreito, a novidade decisiva foi a saqia, roda movida por animais que erguia água com muito menos esforço que o shaduf.2

Méroe foi a “Birmingham da África”?
Em 1911, o estudioso A. H. Sayce comparou Méroe à cidade industrial inglesa, por causa dos grandes montes de escória perto das ruínas, e a ideia de que a metalurgia do ferro se espalhou pela África a partir dali entrou em muitos livros. Leclant registra que autores recentes acham a comparação exagerada, mas mantém que a exploração do ferro parece ter se difundido no continente graças a Méroe.1 Hakem expõe as objeções: há poucos objetos de ferro nos túmulos, o bronze predomina, e por muito tempo não se acharam fornos — embora ele mesmo registre, em nota, que fornos de fundição foram encontrados em escavações recentes.2 A conclusão dele é a mais segura: a controvérsia está longe de resolvida.

Kush também desenvolveu escrita própria. Os hieróglifos meroítas foram tomados do egípcio, mas são escritos e lidos no sentido contrário — talvez de propósito, para marcar diferença. Há também uma forma cursiva, e o sistema usa 23 signos, com dois pontos separando as palavras.1 Em 1909, o inglês F. L. Griffith descobriu como transformar esses signos em sons. O problema é que a língua continua desconhecida: lê-se a pronúncia, mas não se entende o sentido. Dos cerca de 800 textos recuperados, a tradução de conjunto segue impossível.1

O fim de Méroe

Nos últimos séculos, as pirâmides reais ficam menores e mais pobres, e os objetos vindos do Egito e do Mediterrâneo rareiam. Leclant sugere que controlar as rotas de caravana, base econômica do reino, se tornara difícil. Vizinhos pressionavam: nômades a leste, os Nubas a oeste, Axum ao sul. A queda é atribuída, quase com certeza, aos Nubas; quando o rei axumita Ezana fez campanha na região, por volta de 330 d.C., o reino meroíta já havia ruído.1 A cerâmica, ainda assim, manteve sua tradição por séculos depois do fim do Estado.

O balanço de Leclant fecha o capítulo e serve de resposta à pergunta do início: durante mil anos, em Napata e depois em Méroe, floresceu uma civilização “muito original que, sob a aparência razoavelmente constante de um estilo egípcio, permaneceu profundamente africana”.1

Pontos sensíveis deste artigo
  • Kush não é capítulo da história egípcia — foi reino independente em Kerma, conquistador do Egito com Napata e Estado próprio por quase mil anos em Méroe. A forma egípcia de seus monumentos convivia com instituições núbias, como a escolha do rei entre irmãos e o peso da rainha-mãe.
  • A origem da XXV dinastia foi debatida — hipóteses egípcia e líbia dominaram por muito tempo. Os autores do volume as consideram sem base e defendem uma linhagem nativa; a ligação com Kerma é apresentada como possibilidade.
  • A data de Méroe como capital diverge — Leclant liga a mudança ao ataque egípcio de 591 a.C., ainda no século VI; Hakem, seguindo os cemitérios, a situa por volta de 300 a.C. Este artigo não escolhe entre as duas.
  • O ferro de Méroe não está provado em escala — a tese da “Birmingham da África” foi contestada pela escassez de objetos de ferro; fornos foram achados depois. A questão segue aberta, e não deve ser apresentada como fato.
  • Sacrifício humano em Kerma é dado, não sensacionalismo — o enterro de 200 a 300 pessoas com um soberano está registrado na escavação. Entra como informação sobre o poder dos reis de Kerma, sem detalhe além do que a fonte dá.
  • A língua meroíta não foi decifrada — os signos podem ser lidos desde 1909, mas o sentido dos textos segue desconhecido. Qualquer afirmação de “tradução” de inscrições meroítas extensas está errada.
Onde este artigo para
Não se trata aqui das culturas núbias mais antigas (os grupos A e C) além de uma menção, nem do período depois de Méroe, chamado pelos arqueólogos de “Grupo X”, nem da cristianização da Núbia, que tem capítulo próprio no volume. Também não se afirma o tamanho da população de Kush, os limites exatos do reino ao sul — os autores falam em pelo menos Sennar e Kosti, e reconhecem que a arqueologia não os fixou — nem que Méroe tenha sido a origem do ferro africano. E a cronologia meroíta tardia é, segundo o próprio Leclant, muito vaga: as datas dos reis depois de 300 a.C. são aproximações sujeitas a revisão.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

De Kerma ao fim de Méroe

c. 1730-1580 a.C.Kerma, capitalde um Kushindependentec. 1530 a.C.Tutmósis Iconquista aNúbiac. 750-664 a.C.Reis de Napatadominam oEgito591 a.C.Exércitoegípcio tomaNapataséc. VI-III a.C.Capital passaa Méroec. 21-20 a.C.Tratado de pazcom Romac. 330 d.C.O reino deMéroe já ruiuDatas aproximadas. A cronologia de Kush depois de 300 a.C. é, nas palavras dos próprios autores, muito incerta; as datas absolutas mais seguras vêm de cruzamentos com o Egito, a Pérsia e Roma.
Os dois marcos em destaque mostram Kush do lado mais forte de duas relações: governando o Egito e negociando de igual para igual com Roma.

Três releituras de Kush

Kush como sombra do EgitoKerma: forte e sede de governadores egípciosXXV dinastia: refugiados de Tebasou então uma família de origem líbiaMéroe: mil anos de decadênciaCultura egípcia que se degradouKush como sujeitoKerma: túmulos núbios, sede de reis locaisXXV dinastia: linhagem nativatalvez herdeira dos soberanos de KermaMéroe: cultura que se afirma africanaEstilo egípcio, instituições próprias
Cada linha da esquerda nasceu da mesma suposição: se havia escrita, pirâmide ou templo, a origem tinha de ser egípcia. As linhas da direita são as leituras dos autores do volume.

Mapa mental do assunto

Reino de KushKerma, Napata e MéroeOs três centrosKerma: acima da 3ª CatarataNapata: junto ao Djebel BarkalMéroe: estepes ao sulNúbia: corredor entre dois desertosO poderRei escolhido entre irmãosChefes militares decidem; Âmon ratificaRainha-mãe e candacesMesma linhagem por mil anosA riquezaOuro entre o Nilo e o mar VermelhoGado como medida de riquezaSaqia, hafirs e sorgoRotas para o mar Vermelho e o ChadeErros que a prova cobraKush não era província do EgitoA XXV dinastia não era egípciaMéroe não foi só decadênciaFerro de Méroe ainda é debate
O ramo destacado reúne os enganos mais frequentes. Os três primeiros são versões do mesmo erro; o quarto é o caso inverso — uma tese favorável a Kush apresentada como fato antes da hora.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Núbiavale do Nilo ao sul do Egito, corredor entre o Saara e o deserto arábico
Ta-Seti“Terra do Arco”, nome egípcio para a Núbia
Kermaacima da 3ª Catarata; capital de um Kush independente, c. 1730-1580 a.C.
Leitura de Reisnerfortaleza e sede de governadores egípcios — hoje rejeitada
Leitura de Hintzecentro de cultura núbia nativa e sede de dinastia local
Estela de Kaméstrês poderes no vale; o rei hicso pede aliança a Kush
Túmulos de Kermarito núbio, morto num leito; num deles, 200 a 300 acompanhantes
Conquista egípciaTutmósis I, c. 1530-1520 a.C.; vice-rei egípcio na Núbia
el-Kurrucemitério dos príncipes que reerguem Kush, a partir do séc. IX a.C.
XXV dinastiaPeye, Shabaka, Taharqa e Tanutamon; cerca de 50 anos no Egito
Origem dos reisnativa, segundo Leclant e Hakem; hipóteses egípcia e líbia recusadas
Estela da Vitóriade Peye, com 159 linhas: campanha contra os príncipes líbios do Delta
Fim no EgitoAssurbanipal saqueia Tebas em 663 a.C.
591 a.C.exército de Psamético II, com mercenários gregos, toma Napata
Capital em Méroeséc. VI a.C. (Leclant) ou c. 300 a.C. (Hakem, seguindo Reisner)
Méroechuvas de verão, hafirs, gado, sorgo; entreposto entre mar Vermelho, Nilo e Chade
Cambisesexército persa recua da Núbia com grandes perdas
Escolha do reientre “Irmãos Reais”, por chefes militares e funcionários; Âmon ratifica
Sucessãode 27 reis antes de Nastasen, 14 eram irmãos do antecessor
Candacedo meroíta kdke, rainha-mãe; algumas governaram em nome próprio
RomaPetrônio toma Napata em 23 a.C.; tratado de Samos, 21-20 a.C., sem tributo
ApogeuNatakamani e Amanitere, virada da Era Cristã; Templo do Leão de Naga
Apedemakdeus guerreiro com cabeça de leão, próprio de Kush
Escrita meroíta23 signos; lida desde 1909 (Griffith), mas a língua segue incompreendida
Riquezaouro entre o Nilo e o mar Vermelho; gado; saqia no norte
FerroLeclant: Méroe difundiu o ferro; Hakem: controvérsia não resolvida
Fimquase certamente pelos Nubas; já ruído na campanha de Ezana, c. 330 d.C.
Datas aproximadas; a cronologia meroíta depois de 300 a.C. é incerta. Quando os capítulos do volume divergem, a linha indica de quem é cada posição.

Fontes

  1. LECLANT, J. “O Império de Kush: Napata e Méroe”. In: MOKHTAR, Gamal (ed.). História Geral da África, II: África antiga. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010, cap. 10, pp. 273-295. Fonte principal deste artigo, com os capítulos abaixo.
  2. ALI HAKEM, A. M. (colab. I. Hrbek e J. Vercoutter). “A civilização de Napata e Méroe”. In: MOKHTAR (ed.), História Geral da África, II, cap. 11, pp. 297-331.
  3. SHERIF, N. M. “A Núbia antes de Napata (3100 a 750 antes da Era Cristã)”. In: MOKHTAR (ed.), História Geral da África, II, cap. 9, pp. 235-271.
  4. ADAM, Shehata (colab. J. Vercoutter). “A importância da Núbia: um elo entre a África central e o Mediterrâneo”. In: MOKHTAR (ed.), História Geral da África, II, cap. 8, pp. 213-233.
  5. ZAYED, Abd El Hamid (colab. J. Devisse). “Relações do Egito com o resto da África”. In: MOKHTAR (ed.), História Geral da África, II, cap. 4, pp. 97-117.
  6. DEVISSE, J. (relator). “Relatório sumário do simpósio realizado no Cairo de 28 de janeiro a 3 de fevereiro de 1974”. In: MOKHTAR (ed.), História Geral da África, II, Anexo, pp. 821-844.