A crise do Império Romano do Ocidente
Em 476, o último imperador do Ocidente foi deposto e mandado para casa vivo, como cidadão comum. Ninguém na época escreveu que o mundo tinha acabado naquele dia. Quem viveu o processo deu a ele outras datas, outros culpados — e às vezes preferiu viver entre os bárbaros.

Soldo de ouro de Rômulo Augústulo, 475-476 · 0 · Wikimedia Commons · CC0
O livro didático costuma marcar 476 como o fim do Império Romano do Ocidente. Mas o imperador deposto naquele ano não foi morto nem preso — foi mandado viver como particular. Se o “fim” foi tão discreto, quando foi que Roma caiu, e para quem?
A pergunta não é retórica. Quem viveu os séculos IV e V deu ao desastre datas diferentes, apontou culpados diferentes e, em alguns casos, nem achou que fosse um desastre. Este artigo segue essas testemunhas, uma de cada vez.
O texto foi montado sobre relatos da própria época — Amiano Marcelino, Procópio, Jerônimo, Salviano, Prisco, Jordanes — e sobre as notas dos editores do Internet History Sourcebooks Project, da Universidade Fordham. Não se apoia em obra de síntese de historiador atual. É, por isso, mais provisório que um artigo apoiado em historiografia: cada testemunha tinha religião, cargo e lado, e o artigo as atribui uma a uma.
476: o fim que ninguém anunciou
O relato vem de Procópio, que escreveu por volta de 550, quase oitenta anos depois. No Ocidente governava um menino, que os romanos chamavam pelo diminutivo Augústulo, e quem mandava de fato era seu pai, Orestes. O exército dependia de povos aliados — ciros, alanos e outros grupos godos —, e quanto mais o elemento bárbaro crescia, diz Procópio, mais o prestígio do soldado romano caía. Os aliados exigiram um terço das terras da Itália. Orestes recusou e foi morto.1
Um guarda-costas do imperador, Odoacro, aceitou a exigência em troca do trono. Repartiu o terço das terras, garantiu assim a lealdade dos soldados e governou por dez anos. Quanto ao menino, não lhe fez mal algum: deixou-o viver como particular. As notas do tradutor datam a deposição de 28 de julho de 476.1
Duas coisas chamam atenção. A primeira: enquanto isso, havia um imperador em Constantinopla, Zenão, e é ele quem aconselha o chefe godo Teodorico a ir à Itália derrubar Odoacro. Teodorico venceu, nunca usou o título nem as vestes de imperador — era chamado de rex, como os bárbaros chamavam seus chefes —, e ainda assim, para Procópio, governou “tão verdadeiramente como imperador quanto qualquer outro”.1 A segunda: a repartição de terras entre romanos e aliados, que aparece de novo em outros episódios, mostra que o que estava em disputa era menos a sobrevivência de Roma do que quem ficaria com o quê dentro dela.

Os reinos germânicos e o Império do Oriente em 526 · 1923 · Wikimedia Commons · Public domain
Um século antes, a crise já tinha nome
O editor W. S. Davis, cuja introdução o Sourcebook reproduz, descreve o reinado de Galieno (260-268) como um momento em que o Império “parecia à beira da dissolução”: desde 250, os godos atravessavam o Danúbio em ondas.7 O cronista Jordanes, que escreveu por volta de 550, conta que, nesse período, chefes godos cruzaram o Helesponto, devastaram cidades da Ásia Menor, queimaram o templo de Diana em Éfeso e saquearam Troia.7
No mesmo século, o império tentou resolver outro conflito à força e desistiu. O édito de Galério, em 311, admite que a ordem de obrigar os cristãos a voltar à religião dos pais fracassou: muitos morreram, a maioria persistiu, e o imperador concedeu que voltassem a ser cristãos e a se reunir. Em 313, Constantino e Licínio, reunidos em Milão, garantiram a cristãos e a outros liberdade de culto e mandaram devolver às igrejas os lugares confiscados.8 Mais de catorze séculos depois, Edward Gibbon faria dessa virada religiosa uma das explicações da queda — tese que aparece no fim deste artigo.
376-378: os godos pedem para entrar
A testemunha mais próxima dos acontecimentos é Amiano Marcelino, que viveu entre c. 330 e c. 395, segundo o editor do Sourcebook. Ele conta que, em 376, a principal divisão dos godos, expulsa de suas terras pelos hunos, chegou ao Danúbio e mandou embaixadores ao imperador Valente, pedindo para ser recebidos como súditos. Prometiam viver em paz e fornecer tropas.2
Na corte, a notícia foi recebida como sorte. Os bajuladores, diz Amiano, felicitaram o imperador por ganhar um grande corpo de recrutas e por poder juntar ouro com a contribuição anual que as províncias pagavam pelos reforços militares. Os godos atravessaram o rio dia e noite, em barcos, jangadas e troncos escavados, e muitos se afogaram. Nem os oficiais encarregados conseguiram contá-los.2
O que veio depois, Amiano atribui sem rodeio aos comandantes romanos, Lupicino e Máximo: a “ganância traiçoeira” deles foi “a causa de todos os nossos desastres”. Deixaram os recém- chegados sem comida e montaram um comércio que o próprio Amiano chama de vergonhoso: recolhiam cães por toda parte e os trocavam, um a um, por escravos — entre eles filhos de nobres godos.2 Os godos se revoltaram.
Em 9 de agosto de 378, perto de Adrianópolis, o exército de Valente enfrentou a coalizão goda. A infantaria romana, abandonada pela cavalaria, ficou tão espremida que mal conseguia erguer a espada. Escapou só um terço do exército. Valente, segundo se acreditava, foi atingido por uma flecha ao anoitecer e morreu, e seu corpo nunca foi encontrado. Amiano compara: só a batalha de Canas tinha sido tão destrutiva nos anais romanos.2
LembrePor que, para Amiano, a entrada dos godos virou desastre?
Não pela entrada em si — os godos pediram para ser súditos, e a corte gostou da ideia de ganhar soldados. O desastre veio da conduta dos oficiais romanos, que os deixaram com fome e os exploraram, a ponto de trocar cães por escravos. A revolta terminou em Adrianópolis (378), com o imperador morto e dois terços do exército perdidos.
410: o saque que abalou quem estava longe
Pouco mais de trinta anos depois, os visigodos de Alarico cercaram Roma. O imperador do Ocidente, Honório, estava havia tempo em Ravena, cidade cercada de pântanos. Procópio conhece duas versões de como a cidade caiu. Numa, Alarico mandou de presente aos senadores trezentos jovens que se fingiam de escravos e que, num dia combinado, abriram a porta Salária. Na outra, uma aristocrata, Proba, mandou abrir as portas por pena de uma população que já passava fome extrema. Os godos queimaram casas, saquearam a cidade e seguiram adiante.1

O saque de Roma pelos visigodos em 410, de Joseph-Noël Sylvestre, 1890 · 1890 · Wikimedia Commons · Public domain
Quem estava longe sentiu o golpe de outro modo. Jerônimo, numa carta de 409, já via a Gália devastada por quados, vândalos, sármatas, alanos e muitos outros povos, e lamentava que Roma tivesse de lutar “não pela glória, mas pela própria vida” — e pagar em ouro pelo direito de existir. A culpa, para ele, não era dos imperadores, mas de um “traidor meio bárbaro” que armara os inimigos com o dinheiro romano.3
Três anos depois do saque, em versos que o editor intitula “a grandeza de Roma nos dias da ruína”, Rutílio Namaciano elogiava a cidade: “de povos dispersos fizeste uma só pátria [...] fizeste uma cidade do que antes era o mundo”.4 E Agostinho de Hipona (354-430) escrevia que a humanidade se dividia em duas cidades — a terrena e a celeste — e que o cristão vivia na primeira como peregrino: obedecia às suas leis, mas não depositava nela a esperança.9 Era um modo de pôr qualquer cidade terrena, Roma incluída, em segundo plano.
Quem era o bárbaro, afinal?
Por volta de 440, o padre Salviano escreveu uma acusação surpreendente: muitos romanos, inclusive de boa família e bem educados, estavam fugindo para os godos, para os bagaudas ou para outros povos bárbaros. O motivo eram os impostos e a rapina dos poderosos, e ele o resume numa frase: procuravam “a humanidade romana entre os bárbaros, porque não suportavam a desumanidade bárbara entre os romanos”. O nome de cidadão romano, antes tão caro, virara algo de que se fugia.5
Uns anos depois, em 448, Prisco, que acompanhava uma embaixada de Constantinopla à corte de Átila, e encontrou um homem vestido como huno que o cumprimentou em grego. Era um mercador grego, capturado quando os hunos tomaram a cidade de Viminácio, no Danúbio. Lutara pelo novo senhor, comprara a liberdade, casara de novo e não pretendia voltar. Entre os romanos, explicou, o súdito era proibido de usar armas, pagava impostos pesadíssimos e via a lei punir o pobre e poupar o rico; pior de tudo, era preciso pagar ao juiz para obter justiça.6
Prisco respondeu defendendo as instituições romanas — a divisão de tarefas, a demora dos processos como zelo pela justiça, as muitas formas de libertar escravos. O mercador chorou e admitiu que as leis eram justas; o problema, disse, eram os governantes, que já não tinham o espírito das gerações anteriores.6
A África perdida e o saque de 455
O golpe seguinte veio do sul. Procópio conta que o general romano Bonifácio, comandante de toda a Líbia — no vocabulário de Procópio, a região de Cartago e Hipona —, caiu em desgraça por intriga do rival Aécio e chamou os vândalos, então instalados na Hispânia, oferecendo a eles parte da província. Os vândalos atravessaram o estreito em Gades. Bonifácio se arrependeu, mas era tarde: o rei Genserico venceu os exércitos de Roma e de Constantinopla e ficou com a Líbia.1
Para os africanos da província, a troca de senhor teve preço. Genserico entregou como escravos aos filhos, com terras e bens, os líbios mais ricos e notáveis, e mandou derrubar as muralhas de todas as cidades, exceto Cartago, para que nenhuma servisse de base a uma revolta.1
Em 455, depois que o imperador Valentiniano III foi assassinado e o usurpador Máximo tomou à força a viúva, Eudóxia, ela mesma pediu socorro a Genserico. Ele navegou até Roma “por nenhuma outra razão”, diz Procópio, “senão a de esperar muito dinheiro”. Encontrou a cidade sem defesa, levou o tesouro imperial, arrancou metade do telhado dourado do templo de Júpiter Capitolino e voltou a Cartago com a imperatriz e as filhas.1

Genserico saqueia Roma em 455, de Karl Briullov, 1833-1836 · 1836 · Wikimedia Commons · Public domain
Por que caiu? Cinco testemunhas e um iluminista
Reunidas, as testemunhas não concordam. Amiano culpa a ganância de dois generais. Jerônimo, um traidor meio bárbaro. Salviano, os pecados e a opressão dos próprios romanos. O mercador de Prisco, os impostos e a justiça comprada. Procópio, a dependência de aliados que ficaram mais fortes que o exército que deveriam reforçar.
A partir de 1776, o inglês Edward Gibbon deu a resposta que ficou famosa. Para ele, a queda foi o efeito “natural e inevitável” da grandeza desmedida: o espantoso não era Roma ter caído, e sim ter durado tanto. Somou a isso a divisão entre Ocidente e Oriente e, por fim, a influência do cristianismo, que teria pregado paciência, enchido conventos e desviado recursos do exército.10 É interpretação de um autor do século XVIII, não testemunho; o próprio editor do Sourcebook avisa que Gibbon “não é exatamente uma fonte”, e lista ao lado leituras atuais que preferem falar em acomodação dos bárbaros dentro do mundo romano a falar em queda.11
- A base é documental, não historiográfica — o artigo usa relatos de época e notas dos editores do Sourcebook. Os autores antigos tinham lado — Jerônimo e Salviano eram religiosos, Procópio escreveu quase oitenta anos depois de 476 —, e suas posições estão atribuídas.
- 476 é marco escolar, não comoção da época — nos documentos lidos, a deposição de Augústulo aparece como troca de poder sem violência contra o imperador. O saque de 410 provocou muito mais lamento escrito.
- Só o Ocidente caiu — havia imperador em Constantinopla em 476, e foi ele quem enviou Teodorico à Itália. A história do Oriente continua em outro artigo.
- “Bárbaro” não é sinônimo de inimigo — os godos de 376 pediram para ser súditos; os visigodos lutaram ao lado de Roma contra Átila em 451; romanos pobres fugiam para os godos. A palavra é dos romanos e diz mais sobre quem a usava.
- Números antigos são números de cronista — os 160 mil mortos de 451 vêm de Jordanes, que os apresenta como algo que “se diz”. O único dado de Adrianópolis tratado aqui é a proporção — escapou um terço do exército —, e mesmo ela é a de Amiano.
- Gibbon é interpretação — a tese da grandeza desmedida e do peso do cristianismo é de um autor do século XVIII. Debates atuais, como a leitura da “acomodação” dos bárbaros, não foram lidos para este artigo e só são mencionados.
Não se tratam aqui Diocleciano e a tetrarquia, nem as reformas econômicas do século III e IV: o único texto do Sourcebook sobre isso é um artigo moderno, e foi descartado. Também não há dados de população, de produção ou de arrecadação — nenhum documento lido os fornece. A historiografia atual sobre a “transformação” do mundo romano é apenas mencionada, porque não foi lida. O Império do Oriente, Constantinopla e Justiniano ficam para o artigo seguinte.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Do século III a 476
Do que as testemunhas apontam ao que se seguiu
Quem culpava quem
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| 260-268 | sob Galieno, godos saqueiam a Ásia Menor; o império parece à beira da dissolução |
| 311 e 313 | éditos de Galério e de Constantino e Licínio: fim da perseguição e liberdade de culto |
| 376 | godos expulsos pelos hunos pedem a Valente para entrar como súditos |
| Culpados para Amiano | os comandantes Lupicino e Máximo — fome, exploração, cães por escravos |
| 378 | Adrianópolis: escapa um terço do exército; Valente morre |
| 410 | Alarico e os visigodos saqueiam Roma; Honório está em Ravena |
| Jerônimo, 409 | Roma paga ouro para existir; culpa um “traidor meio bárbaro” |
| Rutílio, 413 | Roma fez “uma só cidade” do mundo |
| Agostinho | duas cidades, terrena e celeste; o cristão vive na terrena como peregrino |
| Salviano, c. 440 | romanos fogem para godos e bagaudas por causa de impostos e rapina |
| Prisco, 448 | mercador grego prefere viver entre os hunos |
| 451 | Aécio, visigodos, burgúndios e francos contra Átila |
| Vândalos | chamados por Bonifácio, tomam a África; notáveis líbios escravizados |
| 455 | Genserico saqueia Roma a pedido da imperatriz Eudóxia |
| 476 | Odoacro depõe Augústulo, que vive como particular; um terço da Itália aos aliados |
| Depois de 476 | Teodorico, aconselhado por Zenão, toma a Itália e governa como rex, não como imperador |
| Gibbon | grandeza desmedida, divisão do império, cristianismo — interpretação do século XVIII |
Fontes
- PROCÓPIO DE CESAREIA. History of the Wars, livros III e V. Tradução inglesa de H. B. Dewing. Livro III no Internet Ancient History Sourcebook (“Alaric’s Sack of Rome”; “Gaiseric & the Vandal Conquest of North Africa”); livro V no Project Gutenberg, eBook nº 20298. Fonte principal sobre 410, 455 e 476.
- AMIANO MARCELINO. The Roman History, livro XXXI. Tradução inglesa de C. D. Yonge, 1862. Project Gutenberg, eBook nº 28587; trecho sobre Adrianópolis no Internet Medieval Sourcebook. Fonte principal sobre 376-378.
- JERÔNIMO. Carta a Agerúquia, 409. Internet Medieval Sourcebook.
- RUTÍLIO NAMACIANO. De reditu suo, 413. In: DAVIS, W. S. (ed.). Readings in Ancient History, 1912-13. Internet Ancient History Sourcebook.
- SALVIANO. Do governo de Deus, c. 440. In: ROBINSON, J. H. (ed.). Readings in European History, 1904. Internet Medieval Sourcebook.
- PRISCO. Sobre o palácio de Átila, 448. Tradução inglesa de J. B. Bury. Internet Medieval Sourcebook.
- JORDANES. História dos godos, caps. 20 e 38, com introduções de W. S. Davis. Internet Ancient e Medieval History Sourcebook.
- GALÉRIO; CONSTANTINO e LICÍNIO. Éditos de tolerância, 311 e 313. In: Translations and Reprints from the Original Sources of European History, Universidade da Pensilvânia. Internet Medieval Sourcebook.
- AGOSTINHO DE HIPONA. A Cidade de Deus, livros XV e XIX. Tradução inglesa de Marcus Dods, 1871. Internet Medieval Sourcebook.
- GIBBON, Edward. The Decline and Fall of the Roman Empire, cap. 38 (“General Observations”). Internet Medieval Sourcebook. Interpretação do século XVIII, não fonte de época.
- HALSALL, Paul (ed.). Internet Ancient History Sourcebook: Late Antiquity e Internet Medieval Sourcebook. Fordham University. Notas e seleção do editor.