Bizâncio e o Império do Oriente
Em Constantinopla, os súditos do imperador se chamavam de romanos — e, em 968, a corte imperial disse na cara de um bispo italiano que romanos eram eles, não os ocidentais. Este artigo mostra esse império por dentro, com as duas versões de um mesmo historiador, e por fora, com os olhos de um diplomata árabe e dos anais da China.

Justiniano e sua corte, mosaico de San Vitale, Ravena · 2006 · Wikimedia Commons · Public domain
Em 968, um bispo italiano em missão a Constantinopla ouviu do próprio imperador, Nicéforo: “vocês não são romanos, são lombardos”. Quem eram, então, os romanos — e por que nós os chamamos de bizantinos?
O bispo era Liutprando de Cremona, enviado do imperador Oto, o Grande, e a frase o enfureceu. Mas ela resume o ponto de partida deste artigo: o império que tinha capital em Constantinopla não se via como herdeiro de Roma — via-se como Roma. Nos documentos da época, seus súditos são simplesmente “os romanos”.61
Este artigo foi montado sobre documentos da própria época — Procópio, as leis de Justiniano, os concílios sobre as imagens, um bispo latino, um diplomata árabe, os anais chineses — e sobre as introduções do editor do Internet Medieval Sourcebook, da Universidade Fordham. Não se apoia em obra de síntese de historiador atual. É, por isso, mais provisório que um artigo apoiado em historiografia.
Uma segunda Roma, de propósito
O historiador cristão Sozomeno, que morreu por volta de 450, conta que Constantino quis fundar uma cidade com o próprio nome que igualasse Roma em fama. Começou a traçá-la perto de Troia, mas, segundo o relato, Deus lhe indicou outro lugar: a cidade de Bizâncio, na Trácia. Ali ele ampliou a cidade antiga, cercou-a de muralhas altas e o encheu de edifícios de capital — hipódromo, fontes, pórticos.2
O resto do projeto foi político. Constantino trouxe de Roma e de outras regiões famílias de posição para povoar a cidade, criou impostos especiais para pagar a obra e instituiu um segundo Senado, com as mesmas honras do de Roma. Chamou-a Constantinopla e Nova Roma. Sozomeno acrescenta, como cristão, que a cidade nasceu sem templos nem sacrifícios pagãos.2 O editor do Sourcebook data a fundação de 324.9 O nome antigo, porém, não sumiu: dois séculos depois, Procópio ainda chama a capital de Bizâncio.1 É desse nome da cidade que deriva o rótulo “bizantino”, hoje aplicado ao império inteiro.
Quando o Ocidente perdeu seu último imperador, em 476, a Nova Roma continuou de pé. É dela que trata o resto deste artigo.
Justiniano em duas versões
Quase tudo o que se sabe sobre Justiniano — nascido em 483, imperador de 527 a 565, segundo o editor — vem de um só homem, Procópio de Cesareia. O problema é que Procópio escreveu dois retratos que não combinam.9
Nas obras oficiais, o imperador é um construtor guiado por Deus. Ao descrever a igreja de Santa Sofia, dedicada em 537, Procópio elogia os arquitetos Antêmio de Trales e Isidoro de Mileto, fala de uma cúpula que parece “suspensa do céu por uma corrente de ouro” e calcula em quarenta mil libras de prata só o santuário.1 O editor lembra que a dedicação é a Cristo como “Sabedoria Divina” — não a uma santa chamada Sofia.9

A nave de Santa Sofia, litografia de Gaspare Fossati e Louis Haghe, 1852 · 1852 · Wikimedia Commons · Public domain
Na História secreta, o mesmo autor diz o oposto. Justiniano seria mentiroso, cruel, incapaz de ouvir bom conselho; teria mudado leis e cargos só para pôr neles o próprio nome; teria pago chefes hunos para comprar a paz e, com isso, convidado novos ataques; e teria perseguido hereges, samaritanos e pagãos a ponto de esvaziar regiões inteiras.1 O editor do Sourcebook classifica o livro como um ataque maciço ao imperador e a Teodora, tão violento que por muito tempo só circulou traduzido para o latim.9
Para o estudante, a lição é de método: a mesma testemunha pode servir ao poder e atacá-lo, e nenhum dos dois retratos deve ser lido sozinho.
A lei, reunida num só corpo
A obra de Justiniano que mais durou não foi de pedra. No prólogo do Digesto, o imperador ordena ao jurista Triboniano que reúna e corrija o direito acumulado desde a fundação de Roma, que achava “tão confuso” que escapava à capacidade humana. As Institutas, o manual do conjunto, definem a justiça como “a vontade constante de dar a cada um o que é seu” e afirmam que o que o imperador decide tem força de lei, porque o povo lhe transferiu todo o seu poder.3
O editor do Sourcebook explica por que isso importa: foi por essa compilação, o Corpus Iuris Civilis, que o direito romano chegou à Idade Média e ao mundo moderno — e ele aponta o direito de base romana como um dos três grandes sistemas jurídicos ainda em uso, ao lado do direito comum anglo-americano e da sharia.9
532: a cidade contra o imperador
Constantinopla tinha um hipódromo, e o hipódromo tinha torcidas. Os Azuis e os Verdes, diz Procópio, eram facções que se odiavam sem saber por quê, a ponto de romper casamentos e parentescos — “uma doença da alma”. Em janeiro de 532, as duas se uniram contra o governo, libertaram presos e incendiaram a cidade aos gritos de Nika, “vence!”.1
No sexto dia, a multidão proclamou imperador um sobrinho de um antigo soberano, Hipácio. No palácio, discutia-se a fuga por mar. Foi Teodora, a imperatriz, quem a vetou. Procópio põe na boca dela que, para quem já foi soberano, ser fugitivo é insuportável, e que concordava com um ditado antigo: “a realeza é uma boa mortalha”.1

A imperatriz Teodora e seu séquito, mosaico de San Vitale, Ravena · 547 · Wikimedia Commons · Public domain
A corte decidiu resistir. Os generais Belisário e Mundo entraram no hipódromo por dois lados e atacaram a multidão amontoada. Morreram, segundo Procópio, mais de trinta mil pessoas; Hipácio foi executado no dia seguinte.1
LembrePor que o retrato de Justiniano depende de qual livro de Procópio se lê?
Porque o mesmo autor escreveu obras oficiais — sobre as guerras e as construções —, em que o imperador é guiado por Deus, e uma História secreta, em que ele é mentiroso, cruel e causa da pobreza geral. Nenhuma das duas é neutra. Ler só uma é herdar a intenção dela.
Reconquista, seda e peste
O editor do Sourcebook descreve o reinado como um programa de renovatio — renovação do império — expresso nas obras, na lei e, mais claramente, nas guerras para “reconquistar” o Ocidente.9 A primeira vitória foi na África. Em 534, Belisário voltou com o último rei vândalo, Gelimer, e recebeu um triunfo como não se via havia séculos. Entre os despojos estavam os tesouros que os vândalos tinham tirado de Roma — e, entre eles, os objetos do Templo de Jerusalém. Um judeu advertiu que dava azar guardá-los no palácio, e Justiniano, com medo, mandou-os às igrejas cristãs de Jerusalém. Gelimer, prostrado diante do imperador, repetia: “vaidade das vaidades”.1
Do Oriente veio outra conquista, sem guerra. Por volta de 550, segundo Procópio, monges vindos da Índia ofereceram a Justiniano o segredo da seda, que os romanos compravam dos persas, inimigos. Tinham aprendido a técnica numa região que chamavam Serinda; voltaram lá, trouxeram ovos do bicho-da-seda e ensinaram a criá-los com folhas de amoreira. Assim começou a produção de seda no império.1
E do sul veio a peste. Procópio diz que ela começou entre os egípcios de Pelúsio, espalhou-se por Alexandria e pela Palestina e chegou à capital em 542. Durou quatro meses; no pior momento, os mortos chegaram a cinco mil por dia, depois dez mil e mais. Sem lugar para enterrar, encheram de cadáveres as torres das muralhas.1 São números de cronista, sem registro que os confirme, e devem ser lidos como ordem de grandeza do horror que ele presenciou.
A guerra das imagens
Entre 726 e 843, segundo o editor do Sourcebook, o império se dividiu sobre uma pergunta: é lícito pintar Cristo e os santos e honrar essas imagens? A ofensiva começou com o imperador Leão III.9 Em 754, um concílio de 338 participantes reunido em Constantinopla condenou a “arte ilícita de pintar seres vivos”: quem pinta Cristo, dizia o texto, ou separa nele o humano do divino, ou pretende retratar a própria divindade.5
O defensor mais conhecido dos ícones escrevia de fora do império. João Damasceno vivia sob governo muçulmano, observa o editor — e por isso podia escrever livremente.9 Seu argumento separava duas coisas: a adoração, devida só a Deus, e a veneração, que se pode prestar a pessoas e objetos santos. E apoiava tudo na encarnação: se Deus se fez visível em carne, pode ser representado. “Não adoro a matéria; adoro o Deus da matéria, que se fez matéria por mim.”4
Em 787, sob a imperatriz Irene, o II Concílio de Niceia restaurou as imagens com a mesma distinção: o ícone recebe honra, não a adoração devida a Deus, e “a honra prestada à imagem passa para aquilo que ela representa”.5 Houve um segundo período iconoclasta, e a restauração definitiva veio em 843, com outra imperatriz Teodora.9

Saltério Chludov, segunda metade do século IX · 0 · Wikimedia Commons · Public domain
O império visto de fora
Bizâncio não era um mundo fechado, e três olhares estrangeiros mostram isso.
Os anais chineses. A Nova história dos Tang, do século XI, registra que em 643 o rei de Fu-lin — nome que o tradutor F. Hirth identifica com o império de Constantinopla — mandou uma embaixada à corte chinesa com vidro vermelho e pedras preciosas, e recebeu de volta sedas. O texto descreve uma capital de muralhas de granito, um palácio com um relógio em forma de homem de ouro que deixava cair uma bola a cada hora, e informa que os árabes cercaram a capital e impuseram tributo e sujeição.8 Mistura informação e lenda, como toda descrição de terra distante, mas mostra que as duas pontas da Eurásia trocavam embaixadas.
O diplomata árabe. Segundo a introdução do editor, no fim do século X os Estados mais poderosos da Eurásia ocidental eram Bizâncio e o califado abássida, e os dois trocavam embaixadas o tempo todo. Um enviado de Bagdá à corte de Basílio II deixou o relato de uma negociação minuciosa, cláusula por cláusula, sobre fortalezas, impostos e um pretendente ao trono bizantino refugiado entre os árabes.79
O bispo latino. Liutprando foi a Constantinopla em 968 pedir uma princesa para o filho de Oto. Passou 120 dias vigiado numa casa sem água, ouviu que uma princesa “nascida na púrpura” não se casava com estrangeiros e viu o enviado dos búlgaros sentado acima dele à mesa do imperador. Respondeu como pôde: disse que lombardos, saxões e francos não conheciam insulto pior do que chamar alguém de “romano”, palavra que para eles resumia covardia, avareza e mentira.6 O desprezo era mútuo, e é ele que ajuda a entender a distância que crescia entre o Ocidente latino e a Roma grega.
- A base é documental, não historiográfica — o artigo usa documentos de época e introduções do editor do Sourcebook. Cada autor tinha lado: Sozomeno escreve como cristão, Procópio escreve tanto a favor quanto contra o imperador, Liutprando escreve furioso com a recepção que teve.
- “Bizantino” não é como eles se chamavam — nos documentos, os súditos do império são “romanos”, e a cidade de Constantino é a “Nova Roma”. Em 968, a corte negou esse nome aos ocidentais.
- Números de Procópio são de cronista — os mais de trinta mil mortos de Nika e os dez mil mortos por dia da peste de 542 vêm de um único autor, sem registro independente. Indicam escala, não contagem.
- Iconoclastia não era desprezo pela arte — os dois lados discutiam teologia: para os iconoclastas, retratar Cristo deformava a doutrina da encarnação; para os defensores, a encarnação era justamente o que autorizava o retrato.
- O império se relacionava com a Ásia — a seda chegou por monges vindos da Índia; os anais chineses registram embaixadas de Fu-lin; o califado abássida negociava com a corte de igual para igual.
- O cisma de 1054 fica de fora — os únicos documentos do Sourcebook sobre ele estão em tradução protegida por direito autoral e não foram usados. O artigo não o narra.
Este texto vai da fundação de Constantinopla ao século X. Não trata do cisma de 1054 entre as Igrejas de Roma e de Constantinopla, nem da conversão dos eslavos e da Rus: os documentos disponíveis sobre esses temas estão em traduções protegidas e não foram usados. Também não se tratam o “fogo grego”, as reformas militares por províncias nem a economia do império, sobre os quais nenhum documento foi lido. As conquistas árabes, as Cruzadas e a tomada de 1453 têm artigos próprios.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De 324 ao século X
Um imperador, dois Procópios
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| 324 | Constantino funda Constantinopla, a “Nova Roma”, com Senado próprio |
| Nome | os súditos se diziam romanos; “bizantino” vem do nome antigo da cidade |
| Justiniano | nasce em 483; reina de 527 a 565 |
| Procópio | obras oficiais elogiosas e uma História secreta hostil |
| Santa Sofia | dedicada em 537; arquitetos Antêmio de Trales e Isidoro de Mileto |
| Corpus Iuris Civilis | Digesto e Institutas; o direito romano reunido e transmitido |
| Justiça, nas Institutas | dar a cada um o que é seu |
| Colonos | presos à terra e ao senhor do domínio, também na Palestina |
| Nika, 532 | Azuis e Verdes contra o governo; mais de 30 mil mortos |
| Teodora | veta a fuga: “a realeza é uma boa mortalha” |
| 534 | Belisário triunfa sobre os vândalos; Gelimer diante do imperador |
| Seda | monges vindos da Índia trazem ovos do bicho-da-seda, c. 550 |
| Peste, 542 | vinda do Egito; até 10 mil mortos por dia, segundo Procópio |
| Iconoclastia | 726-843; Leão III; concílio de 754 condena as imagens |
| Damasceno | adoração só a Deus, veneração às imagens; escreve sob governo muçulmano |
| Niceia II, 787 | sob Irene, restaura as imagens; restauração final em 843 |
| China | embaixada de Fu-lin em 643, registrada nos anais Tang |
| Abássidas | embaixadas constantes; negociação detalhada na corte de Basílio II |
| 968 | Liutprando humilhado; a corte nega aos ocidentais o nome de romanos |
Fontes
- PROCÓPIO DE CESAREIA. History of the Wars (revolta de Nika, livro I; peste, livro II; triunfo sobre os vândalos, livro IV), trad. H. B. Dewing; De Aedificiis (Santa Sofia), trad. W. Lethaby e H. Swainson, 1894; Secret History, trad. Richard Atwater, 1927; trecho sobre a seda. Internet Medieval Sourcebook. Fonte principal sobre Justiniano.
- SOZOMENO. História eclesiástica, II, 3 (fundação de Constantinopla). In: DAVIS, W. S. (ed.). Readings in Ancient History, 1912-13. Internet Ancient History Sourcebook.
- Corpus Iuris Civilis: prólogo do Digesto (ed. C. H. Monro, 1904) e Institutas (trad. J. B. Moyle, 1896); Código de Justiniano, XI, 51, 1. Internet Medieval Sourcebook.
- JOÃO DAMASCENO. Sobre as imagens sagradas, c. 730. Trad. Mary H. Allies, 1898. Internet Medieval Sourcebook.
- Concílio iconoclasta de Constantinopla, 754, e Decreto do II Concílio de Niceia, 787. Trad. H. R. Percival, Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. XIV. Internet Medieval Sourcebook.
- LIUTPRANDO DE CREMONA. Relatório da missão a Constantinopla, 968. In: HENDERSON, E. F. Select Historical Documents of the Middle Ages, 1910. Internet Medieval Sourcebook.
- Um embaixador árabe em Constantinopla, fim do século X. Trad. H. Amedroz. Internet Medieval Sourcebook.
- Relatos chineses sobre Roma, Bizâncio e o Oriente Médio. In: HIRTH, F. China and the Roman Orient. Xangai e Hong Kong, 1885. Internet East Asian History Sourcebook.
- HALSALL, Paul (ed.). Internet Medieval Sourcebook: Byzantium. Fordham University. Introduções e datas do editor.