Globalização e o século 21
Comércio entre continentes existe há séculos. O que mudou foram as regras: as de 1944, que puseram o dólar no centro; as de 1971, que o soltaram do ouro; as do pós-Guerra Fria, que apostaram no livre comércio — e a constatação, registrada pela própria ONU no ano 2000, de que os ganhos estavam sendo divididos de forma muito desigual.

Abertura da conferência de Bretton Woods, Estados Unidos, julho de 1944 · 2025 · Wikimedia Commons · Public domain
Ouro e prata da América pagando produtos ingleses e franceses no século 16; Ásia e África integradas à economia europeia no século 19. Se o mundo já era economicamente interligado havia séculos, o que a palavra “globalização” trouxe de novo no fim do século 20?
A resposta curta: novas regras, novas instituições e um novo mapa político — o de depois da Guerra Fria. A resposta longa depende de quem responde. Este artigo lê o processo em documentos datados, do acordo de 1944 à agenda da ONU de 2015, e dá atenção especial a quem estava do lado que ganhava menos.
O Sourcebook de Fordham, base desta série, quase não tem documentos sobre o tema. O texto se apoia por isso em documentos oficiais datados — da ONU, do Avalon Project (Yale) e do Office of the Historian, serviço histórico do Departamento de Estado americano — e num resumo, feito pelo editor do Sourcebook, de uma teoria historiográfica. É mais provisório que um artigo apoiado em obra de síntese. E segue uma regra: todo número vem com a data do documento que o traz. Nenhuma cifra aqui é “de hoje”; vale para a data indicada.
Uma economia-mundo que já existia
Para Immanuel Wallerstein, no resumo que o editor do Sourcebook faz da sua obra de 1974, existe uma economia-mundo capitalista desde o fim do século 15: pela primeira vez, um sistema econômico ligava grande parte do mundo por cima das fronteiras políticas. Ela se organizava numa divisão internacional do trabalho em que o centro (de início, o noroeste da Europa) ficava com os maiores ganhos, a periferia (a Europa oriental e a América Latina, com trabalho forçado e escravizado) exportava matérias-primas, e a semiperiferia ficava no meio. Ásia e África teriam entrado nesse sistema como periferia no século 19.1
É uma interpretação — influente, mas uma entre outras —, e entra aqui por um motivo: ela permite perguntar não se o mundo estava interligado, mas em que posição cada região entrava na ligação. A pergunta continua valendo para o século 21.
As regras de 1944
Entre 1º e 22 de julho de 1944, ainda durante a guerra, a conferência monetária e financeira das Nações Unidas reunida em Bretton Woods, no estado americano de New Hampshire, redigiu os textos que criaram duas instituições — os acordos entraram em vigor em dezembro de 1945. O Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (Bird) deveria financiar a reconstrução das economias destruídas e o desenvolvimento dos “países menos desenvolvidos”, promovendo o investimento privado estrangeiro. O Fundo Monetário Internacional (FMI) deveria promover a estabilidade cambial, evitar desvalorizações competitivas e ajudar países com problemas no balanço de pagamentos.2
Dois detalhes dos textos explicam o resto do século. O valor de cada moeda seria expresso em ouro ou em dólar americano. E o voto não era igual: cada membro teria 250 votos mais um voto adicional para cada cota de 100 mil dólares (no FMI) ou para cada ação (no Banco) — quem contribuía mais, decidia mais.2
LembrePor que se diz que Bretton Woods pôs o dólar no centro da economia mundial?
Porque os acordos de 1944 fixavam o valor de cada moeda em ouro ou em dólar, e o dólar, por sua vez, tinha preço fixo em ouro. As moedas do mundo passavam a se medir pela americana. Somado ao voto proporcional à contribuição, isso dava aos Estados Unidos peso decisivo nas duas instituições.
1971–1973: o dólar se solta do ouro
Segundo o Office of the Historian, o sistema dependia de o dólar valer 35 dólares a onça de ouro. Nos anos 1960, a ajuda externa, os gastos militares e o investimento americano no exterior espalharam dólares demais pelo mundo para o ouro que os Estados Unidos tinham. Em 15 de agosto de 1971, o presidente Richard Nixon suspendeu a conversão do dólar em ouro e impôs uma sobretaxa de 10% às importações. Depois de um acordo provisório em dezembro de 1971 e de nova desvalorização em fevereiro de 1973, o sistema de câmbio fixo foi abandonado em março de 1973, em favor do câmbio flutuante.3
Na mesma década, os países que a descolonização havia multiplicado tentaram mudar as regras por dentro. A mesma fonte registra que a ONU passou de 51 membros em 1945 para 100 em 1960 e 150 em 1979, e que a criação da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), em 1964, deu ao “Sul” um fórum para negociar com o “Norte” industrializado — o chamado diálogo Norte-Sul. Em setembro de 1980, as discussões tinham perdido o fôlego, sem o resultado que seus defensores esperavam.4
Depois da Guerra Fria: blocos e livre comércio
O Office of the Historian descreve a nova ordem que veio com o fim da bipolaridade como marcada por globalização crescente e pelo crescimento de blocos comerciais regionais, com os Estados Unidos à frente da criação do Nafta e da Organização Mundial do Comércio (OMC).5 O exemplo que ele detalha é a APEC, fórum de cooperação econômica da Ásia-Pacífico criado em 1989, na Austrália, com 12 membros. Em 1994, em Bogor, na Indonésia, a APEC fixou a meta de comércio e investimento “livres e abertos” para 2010, nos países desenvolvidos, e 2020, nos em desenvolvimento.5 A página, consultada em outubro de 2026, diz que o fórum chegou a 21 economias-membro — e o próprio órgão avisa que a série não é mais atualizada.

Bill Clinton e dirigentes da APEC na ilha Blake, Seattle, 20 de novembro de 1993 · 1993 · Wikimedia Commons · Public domain
A declaração dos líderes da APEC em Xangai, em 21 de outubro de 2001, mostra o tom da época. A globalização é chamada de “veículo poderoso” de crescimento, e a “Nova Economia” das tecnologias de informação, de motor de produtividade. O mesmo texto admite que as oportunidades não estavam sendo suficientemente divididas, “entre as economias e mesmo dentro delas”, reconhece um debate público sobre custos e benefícios — e saúda a conclusão das negociações para a entrada da China na OMC como fato histórico.6
O balanço visto de quem ganhava menos
Em abril de 2000, no Cairo, a cúpula entre a Organização da Unidade Africana e a União Europeia registrou outro diagnóstico. A liberalização e a globalização, diz a declaração, traziam “desafios sérios” aos países africanos, numa era de queda contínua da participação da África no comércio mundial, e era preciso reverter a “marginalização” do continente.7
O mesmo documento traz números — e eles valem para a data do documento. Segundo a declaração de 2000, a dívida externa africana tinha crescido cerca de 12% ao ano, de aproximadamente 110 bilhões de dólares em 1980 para cerca de 350 bilhões. A declaração registra ainda que uma reunião africana de 1999, em Sirte, havia encarregado os presidentes da Argélia e da África do Sul de negociar com os credores o cancelamento total da dívida.7
Cinco meses depois, em 8 de setembro de 2000, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Declaração do Milênio. O quinto parágrafo trata diretamente do tema: o desafio central era fazer da globalização uma força positiva para todos, porque, embora ela oferecesse grandes oportunidades, “seus benefícios são distribuídos de forma muito desigual, enquanto seus custos são distribuídos de forma desigual”. A declaração dizia que, naquele momento, mais de um bilhão de pessoas viviam em pobreza extrema, e fixava metas para 2015, entre elas reduzir à metade a proporção de pessoas com renda inferior a um dólar por dia.8
Um mundo interligado também para a guerra
Os ataques de 11 de setembro de 2001 contra os Estados Unidos mostraram outro lado da interligação. No discurso ao Congresso de 20 de setembro, o presidente George W. Bush atribuiu os ataques à rede Al Qaeda, que, segundo ele, tinha milhares de militantes em mais de 60 países. Anunciou uma guerra que só terminaria quando “todo grupo terrorista de alcance global” fosse derrotado, pediu a ajuda das polícias, dos serviços de inteligência e dos sistemas bancários do mundo inteiro, e resumiu a escolha imposta aos demais países: “ou vocês estão conosco, ou estão com os terroristas”.9

Fumaça sobre Manhattan depois do ataque às torres do World Trade Center, 11 de setembro de 2001 · 2001 · Wikimedia Commons · Public domain
A declaração da APEC de outubro daquele ano começa justamente por aí: a desaceleração das grandes economias e o risco de que o ataque abalasse a confiança de consumidores e investidores.6 O terrorismo entrava na pauta econômica, e a economia, na pauta da segurança.
2015: a conta refeita
Em 25 de setembro de 2015, a Assembleia Geral da ONU adotou a Agenda 2030, com 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e 169 metas. O texto faz um balanço do que se prometera em 2000: centenas de milhões de pessoas haviam saído da pobreza extrema numa geração, mas o progresso fora desigual, em especial na África, e algumas metas do milênio continuavam fora do alcance.10
O diagnóstico de 2015 é mais duro que o de 2000. Fala em desigualdades crescentes dentro dos países e entre eles, em enormes disparidades de oportunidade, riqueza e poder, e chama a mudança climática de “um dos maiores desafios do nosso tempo”, com a sobrevivência de muitas sociedades em risco. E reafirma algo que ecoa a descolonização: cada Estado tem soberania plena e permanente sobre suas riquezas e seus recursos naturais. O lema da agenda é que “ninguém será deixado para trás”.10
- Números com data — todos os números do artigo valem para a data do documento que os traz — a dívida africana segundo a declaração de 2000, a pobreza extrema segundo a ONU em 2000, os membros da APEC segundo a página consultada em 2026. Nenhum deve ser repetido como dado atual.
- Fontes oficiais — o artigo se apoia em declarações de governos e organismos internacionais. Elas mostram o que esses atores diziam e prometiam, não um balanço independente do que de fato aconteceu.
- Wallerstein é interpretação — a ideia de uma economia-mundo desde o século 15, com centro e periferia, é uma teoria historiográfica, apresentada pelo resumo do editor do Sourcebook. Há outras leituras do processo.
- Duas datas para o discurso de Bush — o Sourcebook dá 21 de setembro de 2001; a transcrição oficial da Casa Branca, no Avalon Project, dá 20 de setembro, às 21h. O artigo segue a oficial.
- Diagnóstico parecido, receitas opostas — APEC, ONU e cúpula do Cairo concordam que os ganhos eram mal divididos; divergem sobre o remédio — mais liberalização ou alívio da dívida e ajuda ao desenvolvimento.
Ficam de fora, por falta de documento entre os lidos: a história da internet, a ascensão econômica da China em números, a crise financeira de 2008, a pandemia de 2020, os movimentos antiglobalização, as migrações recentes e qualquer dado “atual” de comércio, pobreza ou desigualdade. A data de criação do Nafta e da OMC também não está nas fontes lidas e não entra de memória. O Brasil no período ainda não tem artigo publicado.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Setenta anos de regras, de Bretton Woods à Agenda 2030
Mesmo problema, receitas diferentes
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Wallerstein (1974) | economia-mundo desde o séc. 15: centro, semiperiferia, periferia (interpretação) |
| Bretton Woods (jul. 1944) | Bird e FMI; moedas medidas em ouro ou dólar; voto proporcional à contribuição |
| Choque Nixon (15/8/1971) | fim da conversão do dólar em ouro; sobretaxa de 10% |
| Março de 1973 | câmbio flutuante substitui o fixo |
| UNCTAD (1964) | fórum do diálogo Norte-Sul; perde fôlego por volta de 1980 |
| APEC (1989) | 12 membros fundadores; metas de Bogor (1994): 2010 e 2020 |
| Cairo (abr. 2000) | África marginalizada; dívida de ≈US$ 110 bi (1980) a ≈US$ 350 bi, segundo a declaração de 2000 |
| ONU (8/9/2000) | benefícios “muito desiguais”; mais de 1 bilhão em pobreza extrema, segundo a declaração de 2000 |
| Bush (20/9/2001) | guerra ao terror de “alcance global”; “conosco ou com os terroristas” |
| APEC (21/10/2001) | globalização como “veículo poderoso”; ganhos mal divididos; China na OMC |
| Agenda 2030 (25/9/2015) | 17 objetivos; desigualdades crescentes; clima; “ninguém deixado para trás” |
Fontes
- “Summary of Wallerstein on World System Theory”, resumo de I. Wallerstein, The Modern World System (1974). Internet Modern History Sourcebook, Fordham University. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/Wallerstein.asp
- Acordos de Bretton Woods: Convênio Constitutivo do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento e do Fundo Monetário Internacional, Ata Final de 22 de julho de 1944. Avalon Project, Yale Law School. avalon.law.yale.edu/20th_century/decad047.asp
- OFFICE OF THE HISTORIAN (Departamento de Estado dos EUA). Milestones: “Nixon and the End of the Bretton Woods System, 1971–1973”. history.state.gov/milestones/1969-1976/nixon-shock (consultado em outubro de 2026; série declarada sem atualização)
- OFFICE OF THE HISTORIAN. Milestones: “The North-South Dialogue and Economic Diplomacy”. history.state.gov/milestones/1977-1980/north-south-dialogue (consultado em outubro de 2026)
- OFFICE OF THE HISTORIAN. Milestones: “Asia Pacific Economic Cooperation (APEC), 1989”. history.state.gov/milestones/1989-1992/apec (consultado em outubro de 2026)
- APEC. Declaração dos Líderes Econômicos, Xangai, 21 de outubro de 2001. Avalon Project. avalon.law.yale.edu/21st_century/eu005.asp
- Cúpula África-Europa sob a égide da OUA e da UE. Declaração do Cairo, 3 e 4 de abril de 2000. Avalon Project. avalon.law.yale.edu/21st_century/eu003.asp
- ONU, Assembleia Geral. Resolução 55/2, Declaração do Milênio, 8 de setembro de 2000. documents.un.org (A/RES/55/2)
- BUSH, George W. Discurso a uma sessão conjunta do Congresso, 20 de setembro de 2001, transcrição da Casa Branca. Avalon Project. avalon.law.yale.edu/sept11/president_025.asp. Também em Internet Modern History Sourcebook, sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/2001Bush-speech-sep212001-onWTC.asp
- ONU, Assembleia Geral. Resolução 70/1, “Transformando nosso mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”, 25 de setembro de 2015. documents.un.org (A/RES/70/1)
- HALSALL, Paul (ed.). Internet Modern History Sourcebook, seção “21st Century”, e Internet Global History Sourcebook, seção “Globalization? Modern Worlds”. Fordham University.