História Verso
História Geral · Idade Contemporânea

Independências na América Latina

A primeira independência da América Latina foi feita por escravizados, no Haiti. As seguintes vieram de um trono vazio em Madri e foram conduzidas por uma elite nascida na América que não queria ser governada pela Espanha — nem pelos de baixo.

181013 min de leitura10 fontes
De espanhol e mestiça, castiça — pintura de castas de Miguel Cabrera, 1763 · Miguel Cabrera · 1763
O cabildo aberto de 22 de maio de 1810 em Buenos Aires, imaginado por Pedro Subercaseaux para o centenário, em 1910. Quase só homens brancos de casaca, batina e farda: é uma boa imagem de quem decidia o rumo da ruptura — e de quem não estava na sala.
De espanhol e mestiça, castiça — pintura de castas de Miguel Cabrera, 1763 · 1763 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Em fevereiro de 1819, no meio da guerra contra a Espanha, Simón Bolívar pediu ao congresso reunido em Angostura um senado hereditário. Por que o Libertador desconfiava do povo que estava libertando?

A resposta começa antes da guerra, numa régua que separava os habitantes da América espanhola pelo lugar de nascimento, pela cor e pela condição jurídica. A elite que conduziu a ruptura estava no meio dessa régua: abaixo dos nascidos na Espanha, acima de quase todo o resto. Ela queria subir um degrau sem que os de baixo subissem junto — e esse é o fio que liga o Haiti, os cabildos de 1810, as campanhas de San Martín e Bolívar e os caudilhos que vieram depois.

De onde vem este artigo
A matéria-prima aqui são papéis da época — o relato de um viajante, um discurso, uma mensagem presidencial, dois panfletos — lidos com as introduções do editor que acompanham o acervo de Fordham, mais textos do Office of the Historian (governo dos EUA), do Avalon Project (Yale) e uma síntese de 1903 do Project Gutenberg, usada só para datas. Falta aqui a historiografia recente, e o texto deve ser lido como provisório: pesa menos do que pesaria com uma síntese atual por trás.

A régua: quem nascia onde

O alemão Alexander von Humboldt percorreu a Nova Espanha — o atual México — por volta de 1800, num império cujas leis vedavam a entrada a europeus que não fossem espanhóis. Abriu a descrição com uma sentença seca: aquele era “o país da desigualdade”.1

Entre os brancos, ele separa dois grupos. Os nascidos na Europa eram chamados chapetones ou gachupines; os descendentes de europeus nascidos na América, criollos. A lei dava a todos os mesmos direitos. Quem a aplicava, não: o governo, desconfiado dos criollos, reservava os grandes cargos aos nascidos na Espanha, e Madri já nomeava até funcionários miúdos da alfândega e do monopólio do tabaco. Humboldt registra o efeito — um ódio “ciumento e perpétuo” entre os dois grupos — e uma frase que ouvia com frequência desde 1789: “Não sou espanhol, sou americano!”1 Entre as causas do afastamento, ele cita os abusos do governo colonial, o exemplo dos Estados Unidos e as ideias do século.

Abaixo dos brancos, a régua era outra. Os indígenas pagavam um tributo por cabeça, cobrado dos homens entre 10 e 50 anos, e eram tratados por lei como menores sob tutela perpétua dos brancos: qualquer contrato que um indígena firmasse acima de 15 francos era nulo. Humboldt chama isso de “barreiras intransponíveis” entre os indígenas e as outras castas.1 A disputa dos criollos com os chapetones era por cargos; a situação dos indígenas era de outra ordem.

LembrePor que os criollos se ressentiam do governo espanhol, se a lei lhes dava os mesmos direitos dos nascidos na Espanha?

Porque a prática desmentia a lei: os altos cargos iam para os nascidos na Espanha, e até postos pequenos eram preenchidos a partir de Madri. O ressentimento era de quem estava no meio da régua social — abaixo dos chapetones, mas muito acima dos indígenas tutelados e dos escravizados.

A primeira independência foi feita por escravizados

A ordem dos acontecimentos importa. Antes de qualquer cabildo hispano-americano, houve São Domingos, a colônia francesa que viria a ser o Haiti. Segundo o Office of the Historian, órgão de história do Departamento de Estado americano, nos anos 1760 ela já era a colônia mais lucrativa das Américas, à base de açúcar e café, e os africanos escravizados formavam a maioria esmagadora da população.2

A Revolução Francesa rachou a colônia: os brancos se dividiram entre realistas e revolucionários, e a população de ascendência mista passou a reivindicar direitos civis. Foi nessa brecha que os escravizados do norte organizaram a rebelião iniciada em 22 de agosto de 1791. Seguiu-se mais de uma década de guerra com vários lados, inclusive tropas espanholas e britânicas. Um dos líderes, Toussaint Louverture, aliou-se ao governo francês quando os comissários de Paris o convenceram de que a França estava comprometida com o fim da escravidão.2

Combate e tomada da Crête-à-Pierrot, ilustração de Auguste Raffet gravada por Ernest Hébert, 1839 · Auguste Raffet / Ernest Hébert · 1839
Gravura francesa de 1801, hoje na Biblioteca do Congresso dos EUA: Toussaint Louverture, de farda, ergue a Constituição daquele ano diante de um bispo, de soldados e de uma mulher negra com uma criança. Formalmente a ilha ainda era colônia francesa; a imagem já fala em “povo do Haiti”.
Combate e tomada da Crête-à-Pierrot, ilustração de Auguste Raffet gravada por Ernest Hébert, 1839 · 1839 · Wikimedia Commons · Public domain

Toussaint insistia em que São Domingos continuava sendo colônia francesa, ao mesmo tempo que conduzia uma política externa própria. Em 1802, Napoleão aproveitou a paz com a Grã-Bretanha para tentar esmagar a revolução e, segundo o Office of the Historian, reimpor a escravidão. O exército enviado foi derrotado — e a perda do Haiti tornou a Louisiana dispensável para a França, que a vendeu aos Estados Unidos em 1803.23 Depois disso, Jean-Jacques Dessalines, sucessor de Toussaint, mandou executar os brancos que restavam na ilha.2

A reação dos vizinhos mostra o peso do caso. Nos Estados Unidos, Thomas Jefferson admirava a Revolução Francesa, mas era senhor de escravizados na Virgínia e temia a revolta; como presidente, cortou a ajuda e isolou o Haiti, com medo de um contágio que, nota o Office of the Historian, não tinha fundamento. A França só reconheceu a independência em 1825; os Estados Unidos, em 1862.2 Foi o segundo país independente das Américas, depois dos Estados Unidos — e um Estado nascido de uma revolta de escravizados.

O trono vazio de 1808

Na América espanhola, o gatilho veio da Europa. O resumo que segue é de T. C. Dawson, numa história da América do Sul publicada em 1903. Carlos IV, aliado de Napoleão, foi forçado pelo filho Fernando a abdicar; os dois apelaram a Napoleão, que obrigou ambos a renunciar em favor do próprio irmão, José Bonaparte. Na Espanha, juntas provisórias se formaram para resistir, e uma junta central em Sevilha se declarou depositária do poder até a volta de Fernando, preso na França.4

Ninguém na América do Sul aceitou José. A dúvida era a quem obedecer no lugar dele. Os espanhóis residentes ficaram com Sevilha; os criollos, não. Quando as tropas francesas tomaram a Andaluzia, no início de 1810, a pergunta ficou urgente. Em 19 de abril de 1810, um cabildo aberto em Caracas formou uma junta e expulsou os funcionários espanhóis. Em 25 de maio, uma assembleia armada em Buenos Aires impôs uma junta de líderes criollos — sem consultar as outras províncias do vice-reinado.4

Um detalhe dessas juntas costuma surpreender: os atos do novo governo de Buenos Aires continuaram sendo assinados em nome de Fernando VII. A ruptura começou como autonomia dentro da monarquia, e só depois virou independência. Dawson registra também que as massas pouco se interessaram pela junta de Caracas, obra de um grupo pequeno e decidido.4

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Em 1810, juntas formadas em Caracas e em Buenos Aires afastaram as autoridades espanholas, mas o governo de Buenos Aires continuou a assinar seus atos em nome de Fernando VII, então prisioneiro de Napoleão. Esse dado indica que:
  1. Incorreta. A declaração formal de independência das Províncias Unidas só veio em 1816, em Tucumán. Em 1810 o nome do rei não era ironia: era a moldura legal da autonomia.

  2. Incorreta. Ninguém na América do Sul reconheceu José Bonaparte. A disputa era sobre quem governaria enquanto Fernando estivesse preso.

  3. Correta. É a leitura que os próprios atos sustentam: as juntas ocuparam o vazio deixado pela crise de 1808 e governaram em nome do rei preso; a independência declarada veio anos depois.

  4. Incorreta. As juntas eram compostas por líderes criollos. Dawson registra inclusive que as massas pouco se envolveram no movimento de Caracas.

  5. Incorreta. A abdicação forçada dos reis espanhóis e a ocupação francesa da Península foram justamente o gatilho: sem rei em Madri, abriu-se a pergunta sobre quem governava a América.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Duas rotas até o Peru

O núcleo do poder espanhol na América do Sul era o vice-reinado do Peru, protegido por montanhas, desertos e mar. As primeiras tentativas de atacá-lo por terra, subindo do Prata pelo planalto boliviano, terminaram em derrota — numa delas, em Huaqui, em 1811, contra um exército que o vice-rei recrutara entre indígenas do altiplano.4 A guerra não opunha americanos a europeus em blocos: havia americanos dos dois lados.

José de San Martín, nascido em 1778 numa antiga missão jesuítica e formado no exército espanhol, voltou a Buenos Aires em 1812 com outro plano: montar um exército a leste dos Andes, atravessar a cordilheira, libertar o Chile, formar uma frota e atacar o Peru pelo mar. Partiu de Mendoza em janeiro de 1817 e venceu em Chacabuco em 12 de fevereiro. Nas fileiras havia um corpo de escravizados alforriados enviado por Buenos Aires; Dawson anota que coube a eles a carga mais dura e que poucos voltaram pelos Andes.4

No norte, Simón Bolívar — herdeiro, segundo o mesmo autor, de grandes propriedades e de centenas de escravizados na Venezuela — venceu em Boyacá, em agosto de 1819, e em Carabobo, em junho de 1821. A Venezuela já tinha declarado independência em 5 de julho de 1811, mas a primeira república caiu no ano seguinte, depois de um terremoto que os padres apresentaram como castigo divino.4

Toussaint Louverture, retrato por Alexandre-François-Louis de Girardin · Alexandre-François-Louis, comte de Girardin · Signed and dated 'Girardin a Nantes an '13'. (L’an XIII du calendrier républicain, correspond aux ann
A assinatura da ata de independência da Venezuela, de 5 de julho de 1811, pintada por Martín Tovar y Tovar em 1883. A primeira república durou cerca de um ano; o quadro, encomendado décadas depois, celebra o começo, não o colapso.
Toussaint Louverture, retrato por Alexandre-François-Louis de Girardin · 1804 · Wikimedia Commons · Public domain

As duas rotas se encontraram em Guayaquil. San Martín, que chegara ao Peru pelo mar em 1820, conversou com Bolívar, renunciou ao comando e partiu para o exílio sem explicar o motivo. A vitória final coube a Antonio José de Sucre, lugar-tenente de Bolívar, em Ayacucho, em 9 de dezembro de 1824; a última ação de tropas espanholas na região foi em abril de 1825.4

Retrato de José María Morelos por um pintor mixteco anônimo, 1812 · pintor mixteco · 1812
Batalha de Ayacucho, por Martín Tovar y Tovar (1827–1902): oficiais a cavalo saúdam de chapéu na mão, com o exército em linha ao fundo e mortos em primeiro plano. Uma pintura de celebração, feita muito depois do fato.
Retrato de José María Morelos por um pintor mixteco anônimo, 1812 · 1812 · Wikimedia Commons · Public domain

O projeto dos libertadores

Volta-se, então, a Angostura. O discurso de Bolívar ao congresso de 15 de fevereiro de 1819 começa por uma definição de identidade que é também um diagnóstico político:

“Não somos europeus; não somos índios; somos uma espécie mista de aborígenes e espanhóis. Americanos por nascimento e europeus por direito, estamos empenhados num duplo conflito: disputamos com os nativos os títulos de posse e, ao mesmo tempo, lutamos para nos manter no país que nos viu nascer contra a oposição dos invasores.”
— Simón Bolívar, discurso de Angostura, 1819, a partir da tradução inglesa publicada em Washington em 1919.5

O “nós” do discurso é o criollo da régua de Humboldt: disputa a terra com os nativos de um lado e o governo com a Espanha do outro. Daí o programa. Bolívar diz que nunca lhe passou pela cabeça comparar a América inglesa com a espanhola, e que adaptar à Venezuela as leis da América do Norte seria ainda mais difícil que aplicá-las à Espanha. Prefere o modelo britânico: um executivo forte, entregue a um presidente, e um senado hereditário — não uma nobreza, insiste ele, mas um corpo educado para o cargo, que serviria de contrapeso “ao governo e ao povo”. A justificativa vem numa linha: nenhuma forma de governo é tão fraca quanto a democrática.5

O plano maior também não vingou. Dawson conta que, depois de Ayacucho, Bolívar governava a Colômbia (que reunia Venezuela, Nova Granada e Equador), era ditador do Peru e tinha um aliado no poder na Bolívia — e que seu sonho de uma confederação sul-americana se desfez rápido. O autor chama de “fiasco” o congresso pan-americano reunido no Panamá, e a América do Sul acabou dividida em nove países, na conta que ele faz em 1903.4 O juízo é de 1903 e é hostil a Bolívar; o dado da fragmentação, não.

LembreComo o discurso de Angostura se liga à régua social descrita por Humboldt?

O “nós” de Bolívar são os criollos: descendentes de espanhóis nascidos na América, que disputavam a posse da terra com os povos nativos e o governo com a Espanha. Por isso ele propõe instituições que limitem o voto popular — senado hereditário e executivo forte —, e não uma república aberta aos de baixo.

Monroe: a independência vista de fora

Em 2 de dezembro de 1823, o presidente americano James Monroe disse ao Congresso que os continentes americanos, pela condição livre que tinham conquistado, não deveriam mais ser considerados objeto de futura colonização por potências europeias. Qualquer tentativa europeia de estender seu sistema ao hemisfério seria vista como perigosa à paz e à segurança dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, Monroe prometia não mexer nas colônias europeias que ainda existiam.6

O Office of the Historian resume a declaração em três ideias — esferas separadas para a América e a Europa, não colonização e não intervenção — e acrescenta o contexto. O temor era de que Espanha e França tentassem retomar as ex-colônias. O ministro britânico George Canning chegou a propor uma declaração conjunta, mas o secretário de Estado John Quincy Adams recusou, para não amarrar a expansão americana futura. Na época, as grandes potências europeias mal deram atenção ao texto; no século seguinte, o chamado corolário Roosevelt inverteu o sentido original e passou a justificar intervenções americanas na América Latina.7

Depois da independência: “preservar a forma”

Na introdução a um texto de 1862, o editor do Sourcebook pergunta o que aconteceu com a promessa de governo constitucional anunciada em Angostura, e responde que ela foi pervertida por caudilhos e ditadores militares.10 Francisco Bilbao (1823–1865) descreve o método por dentro, na voz de quem governa. A constituição garante o pensamento livre; o governante acrescenta “nos limites da lei” e faz a lei depois. A eleição é livre, mas é ele quem nomeia o fiscal da apuração. A pena de morte política foi abolida, mas os presos fuzilados são declarados bandidos. Em tudo, diz Bilbao, “a forma foi preservada”. E fecha com uma conta: meio século depois da independência, era mais fácil somar os anos de anarquia e despotismo do que os de verdadeira liberdade.8

Um relato de 1865 sobre o Equador, de F. Hassaurek, mostra a outra ponta. Ali, uma revolução só tinha êxito com o apoio da tropa, e o recrutamento era forçado: pobres, mestiços, artesãos e trabalhadores do campo eram caçados na rua, enquanto os “cavalheiros” — brancos de boa família — ficavam isentos. Segundo ele, mais de dez mil equatorianos viviam no Peru para escapar do recrutamento. Hassaurek nota ainda o papel das mulheres como agentes políticas, que levavam cartas, escondiam refugiados e enfrentavam o presidente García Moreno.9 A régua de Humboldt sobrevivera à independência.

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Em 1819, Simón Bolívar definiu os hispano-americanos como “americanos por nascimento e europeus por direito” e propôs um senado hereditário. Em 1862, Francisco Bilbao denunciou governantes que violavam a constituição “preservando a forma”. Lidos em conjunto, os dois textos permitem afirmar que:
  1. Correta. É a ligação entre os dois documentos: o projeto de Angostura já limitava o peso do voto popular, e Bilbao descreve, décadas depois, constituições respeitadas só na forma por governantes que controlavam eleições, imprensa e tribunais.

  2. Incorreta. Bolívar diz o contrário: considera difícil adaptar à Venezuela as leis norte-americanas e prefere o modelo britânico, com executivo forte e senado hereditário.

  3. Incorreta. “Preservar a forma” é ironia: Bilbao descreve governantes que respeitam a letra da constituição e violam o seu sentido, por meio de leis posteriores, estado de sítio e controle das eleições.

  4. Incorreta. Nenhum dos dois propõe a volta à Espanha. Bolívar luta contra ela; Bilbao critica o despotismo dos governos republicanos que vieram depois.

  5. Incorreta. Bolívar recusa expressamente a ideia de nobreza ao propor o senado, e o texto não autoriza dizer que o modelo foi adotado nas repúblicas.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • Base documental e uma síntese antiga — o artigo foi escrito a partir de documentos de época, notas de editor e de uma história da América do Sul publicada em 1903, usada só para datas e sequência de fatos. Não traz o balanço da historiografia recente.
  • Dawson não é neutro — o autor de 1903 trata San Martín como herói e Bolívar como “egoisticamente ambicioso”. O artigo usa as datas dele e atribui os juízos, sem adotá-los.
  • O Haiti não é nota de rodapé — foi a primeira independência da América Latina, e feita por escravizados rebelados. A violência dos dois lados — a tentativa francesa de reimpor a escravidão e a execução dos brancos ordenada por Dessalines — está registrada na fonte e deve ser dita sem suavizar nenhuma das duas.
  • Independência não foi revolução social — a ruptura foi conduzida por criollos que disputavam cargos e poder com os chapetones. Indígenas e escravizados aparecem nas fontes recrutados pelos dois lados, não como beneficiários diretos.
  • Americanos dos dois lados — o exército do vice-rei do Peru que derrotou os patriotas em Huaqui foi recrutado entre indígenas do altiplano. Falar em “americanos contra espanhóis” simplifica demais.
  • Monroe não protegeu ninguém em 1823 — segundo o Office of the Historian, a declaração mal foi notada pelas potências europeias na época. O peso que ela ganhou é posterior, e o corolário Roosevelt inverteu seu sentido.
Onde este artigo para
Nenhum dos documentos lidos cobre, e por isso não entram: a independência do México (Hidalgo, Morelos, Iturbide) — a seção do Sourcebook não traz documento sobre ela —, a América Central e o Caribe espanhol, incluindo Cuba. A Carta da Jamaica, de Bolívar (1815), não entra porque a única tradução indicada pelo Sourcebook está em site fora da lista de fontes permitidas. Não há número de mortos nem de população total: nenhum documento lido dá esses números. Napoleão na Península é assunto da Era Napoleônica; a ruptura do Brasil, do artigo sobre a Independência.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 11evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

De São Domingos a Ayacucho

22/8/1791Revolta dosescravizadosem SãoDomingos1808Napoleãopõe JoséBonaparteno tronoespanhol25/5/1810Juntacrioula emBuenosAires5/7/1811Venezueladeclaraindependência9/7/1816Congressode Tucumán12/2/1817Chacabuco:San Martínno Chile1819–21Boyacá eCarabobo:Bolívar nonorte2/12/1823DoutrinaMonroe9/12/1824Ayacucho,no PeruDatas tiradas dos documentos e de Dawson (1903). Os três marcos em destaque são os que costumam virar questão: a revolta que abriu o ciclo, a primeira junta do Prata e a batalha que encerrou a guerra na América do Sul.
O primeiro marco é anterior aos demais em quase vinte anos e não depende de Napoleão. Os seguintes, sim: a crise de 1808 abriu o caminho das juntas de 1810.

A lei e a prática, segundo Humboldt

O que a lei diziaMesmos direitos a todo brancoTodo criollo é espanholIndígena isento da alcabalaTributo menor que em 1601O que a prática faziaAltos cargos só a nascidos na EspanhaMadri nomeia até o fiscal do tabacoIndígena sob tutela perpétuaContrato indígena acima de 15 francos é nulo
A coluna em destaque explica o ressentimento criollo — e mostra que a régua tinha mais de um degrau. Os criollos queixavam-se de cargos; os indígenas viviam sob tutela legal.

Mapa mental do assunto

IndependênciasAmérica Latina, 1791–1825A régua colonialChapetones x criollosIndígena tutelado por lei“Não sou espanhol, sou americano”Haiti, primeiroRevolta escrava de 1791Toussaint e a Constituição de 1801Isolado pelos EUA até 1862O trono vazio1808: José Bonaparte em MadriJuntas em nome de Fernando VIISan Martín ao sul, Bolívar ao norteO que veio depoisSenado hereditário em AngosturaUnidade fracassa; vários paísesCaudilhos que “preservam a forma”
O ramo destacado é o que mais aparece em questões: o que a independência não mudou. As outras três partes explicam por quê.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Régua colonialchapetones (nascidos na Europa) acima dos criollos; indígenas sob tutela legal (Humboldt, c. 1800)
Queixa criollalei igual, prática desigual: altos cargos reservados a nascidos na Espanha
Haitirevolta de 22/8/1791; Toussaint Louverture; Constituição de 1801; Napoleão derrotado em 1802
Reconhecimento do HaitiFrança em 1825; EUA em 1862
Gatilho de 1808abdicações forçadas; José Bonaparte rei da Espanha; junta de Sevilha
Juntas de 1810Caracas (19/4) e Buenos Aires (25/5), em nome de Fernando VII
DeclaraçõesVenezuela em 5/7/1811; Províncias Unidas em Tucumán, 9/7/1816
San MartínAndes, Chacabuco (12/2/1817), Chile, Peru pelo mar; exílio após Guayaquil
BolívarBoyacá (1819), Carabobo (1821); Angostura: senado hereditário e executivo forte
Fim da guerraAyacucho, 9/12/1824, com Sucre
Unidadeconfederação de Bolívar fracassa; América do Sul dividida em nove países (Dawson)
Doutrina Monroe2/12/1823: não colonização, não intervenção, esferas separadas
Depoiscaudilhos que “preservam a forma” (Bilbao, 1862); recrutamento forçado dos pobres (Hassaurek, 1865)
Cada linha remete a um documento lido ou à síntese de Dawson, sinalizada. As citações completas estão no corpo do artigo.

Fontes

  1. HUMBOLDT, Alexander von. Political Essay on the Kingdom of New Spain, trad. inglesa de John Black (Londres, 1811), vol. 1, excertos (“Problems and Progress in Mexico, c. 1800”). Internet Modern History Sourcebook, Fordham University. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1800humboldt-mexico.asp
  2. ESTADOS UNIDOS. Office of the Historian. “The United States and the Haitian Revolution, 1791–1804”, Milestones in the History of U.S. Foreign Relations. history.state.gov/milestones/1784-1800/haitian-rev
  3. ESTADOS UNIDOS. Office of the Historian. “Napoleonic Wars and the United States, 1803–1815”, Milestones. history.state.gov/milestones/1801-1829/napoleonic-wars
  4. DAWSON, Thomas Cleland. The South American Republics (1903), partes 1 e 2. Project Gutenberg, ebooks 37920 e 37950. Síntese antiga, usada para datas e sequência; seus juízos estão atribuídos no texto.
  5. BOLÍVAR, Simón. Discurso ao Congresso de Angostura, 15 de fevereiro de 1819, excertos, em An Address of Bolivar at the Congress of Angostura (Washington: B. S. Adams, 1919). Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1819bolivar.asp
  6. MONROE, James. Sétima mensagem anual ao Congresso (Doutrina Monroe), 2 de dezembro de 1823, excertos. Avalon Project, Yale Law School. avalon.law.yale.edu/19th_century/monroe.asp
  7. ESTADOS UNIDOS. Office of the Historian. “Monroe Doctrine, 1823”, Milestones. history.state.gov/milestones/1801-1829/monroe
  8. BILBAO, Francisco. America in Danger (1862), excertos, com introdução do editor. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1862bilbao.asp
  9. HASSAUREK, F. “How to Conduct a Latin-American Revolution” (1865), em E. M. Tappan (ed.), The World’s Story, vol. 11 (Boston, 1914). Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1865hassaurek.asp
  10. HALSALL, Paul (ed.). Internet Modern History Sourcebook, seção “19C Latin America”. Fordham University. Fonte das notas de editor citadas.