A Era Napoleônica
Em 1803 ele assinava tratados “em nome do povo francês”; em 1806, crianças aprendiam no catecismo que desobedecer a ele era merecer a danação eterna; em 1815, uma testemunha viu Paris trocar os retratos do rei pelos dele em um dia. De onde vinha o poder de Napoleão — e o que suas conquistas deixaram para trás.

Napoleão I no trono imperial, por Jean-Auguste-Dominique Ingres, 1806 · 1806 · Wikimedia Commons · Public domain
Em 1803, Napoleão assinava tratados “em nome do povo francês”. Três anos depois, um catecismo ensinava às crianças católicas que quem faltasse com seus deveres para com ele merecia a danação eterna. Em nome de quem, afinal, Napoleão governava?
A pergunta parece de filosofia política, mas é o jeito mais direto de entender o período. O artigo sobre a Revolução Francesa termina com o Diretório chamando o general, em 1799, para endurecer o governo. Daqui em diante, a questão é outra: que tipo de poder ele montou, de onde tirava legitimidade, e o que suas guerras deixaram na Europa que ele dominou.
Os documentos usados aqui — um tratado, um catecismo, memórias, discursos, uma carta diplomática — foram escolhidos no Internet History Sourcebooks, o projeto de fontes da Universidade Fordham, e no Avalon Project, de Yale, junto com as notas dos editores. Nenhuma síntese de historiador sustenta o texto, e por isso ele deve ser lido como mais provisório que um artigo que tenha essa base: cada fonte é de alguém com lado — e várias, aqui, são de inimigos de Napoleão.
Em nome do povo: o Primeiro Cônsul vende a Luisiana
O tratado de 30 de abril de 1803 entre os Estados Unidos e a França abre com as duas partes que o firmam: o presidente americano, “com o conselho e o consentimento do Senado”, e o Primeiro Cônsul da República Francesa, agindo “em nome do povo francês”.1 A fórmula ainda é a da Revolução: o poder pertence ao povo, e o cônsul fala por ele.
O conteúdo é uma venda de território. Pelo tratado de San Ildefonso, de 1º de outubro de 1800, a Espanha tinha prometido devolver à França a colônia da Luisiana. Três anos depois, o Primeiro Cônsul a cede aos Estados Unidos “para sempre e em plena soberania”, como “prova de amizade” — e uma convenção assinada no mesmo dia fixa o preço em sessenta milhões de francos. Os habitantes passariam a ser incorporados à União, com garantia de liberdade, propriedade e religião.1
O documento não diz por que a França abria mão de uma colônia americana recém-recuperada, e nenhuma das fontes lidas para este artigo explica. O que ele mostra é o ponto de partida: em 1803, o homem que mandava na França ainda se apresentava como mandatário de uma república.
Em nome de Deus: o catecismo de 1806
Três anos depois, a fonte do poder já é outra. O Catecismo imperial de 1806 — segundo o editor do Sourcebook, o que as crianças católicas deviam pensar de Napoleão — tem a forma de perguntas e respostas. Os cristãos devem a “Napoleão I, nosso imperador”, amor, respeito, obediência, fidelidade, serviço militar e os impostos para defender o império e o trono.2
A justificativa vem em duas camadas. A primeira é antiga: Deus, que cria os impérios e os distribui como quer, fez do imperador o agente do seu poder e a sua imagem na terra, e honrá-lo é honrar a Deus. A segunda é específica: foi ele quem Deus levantou em tempos difíceis para restabelecer o culto público da religião e a ordem, e ele se tornou o “ungido do Senhor” pela consagração recebida do papa. Quem falta com esses deveres, conclui o texto, resiste à ordem estabelecida por Deus e se torna digno da danação eterna.2

A sagração de Napoleão, por Jacques-Louis David, 1805–1807 · 1805 · Wikimedia Commons · Public domain
Quem leu o artigo sobre o absolutismo reconhece a linguagem: é a do rei como lugar-tenente de Deus, que os juristas de Luís XIV usavam um século antes. A diferença é que agora ela servia a um governante saído de uma revolução que tinha derrubado exatamente esse tipo de rei.
Em nome do exército: o que viu Madame de Rémusat
A terceira fonte de poder aparece nas memórias de Madame de Rémusat, que convivia com a mulher dele e cita as conversas das duas. Ela descreve um homem que ditava tudo, andando de um lado para outro, sem paciência para escrever com a própria mão, e que tinha uma regra para tudo, grande ou pequeno: não há zelo onde não há inquietação. E descreve a relação dele com a tropa.3
Segundo Madame Bonaparte, contava Rémusat, Napoleão lia antes de dormir as listas dos quadros do exército e adormecia repetindo nomes de corpos e de soldados — para depois reconhecer um veterano, perguntar pelas campanhas e pelos ferimentos dele, especialmente os que o tinham acompanhado ao Egito. Os soldados o recebiam com entusiasmo.3
Depois, continua ela, os exércitos ficaram grandes demais e as batalhas mortíferas demais para esse tipo de encanto. A morte tinha apagado tantas lembranças que ficou difícil achar os companheiros das primeiras campanhas, e cada exército novo herdava a glória do que fora destruído. Esse estilo sombrio de encorajamento funcionou por muito tempo, escreve Rémusat, numa nação que acreditava cumprir seu destino “enquanto mandava seus filhos, ano após ano, morrer por Bonaparte”.3

Gráfico de Charles Minard sobre a campanha da Rússia, 1812–1813 (publicado em 1869) · 1869 · Wikimedia Commons · Public domain
LembreQuais as três fontes de poder que os documentos atribuem a Napoleão, e de onde vem cada uma?
O povo, no tratado de 1803, em que ele age como Primeiro Cônsul “em nome do povo francês”. Deus, no catecismo de 1806, que o chama de imagem divina na terra e cita a consagração pelo papa. O exército, nas memórias de Rémusat, que mostram a ligação pessoal com os soldados e a nação mandando seus filhos à guerra.
O que as conquistas deixaram: a nação dos outros
As vitórias tiveram um efeito que Napoleão não planejou: ensinaram aos povos conquistados a se pensar como nações. O caso mais nítido no Sourcebook é o do filósofo alemão Johann Gottlieb Fichte. A nota do editor o descreve como apoiador da Revolução Francesa e de seus ideais que mudou de posição quando a França de Napoleão passou a controlar a Alemanha, e que pronunciou seus Discursos à nação alemã em Berlim ocupada pelos franceses.4
Num dos discursos, Fichte diz que as fronteiras verdadeiras de um Estado são as internas: os que falam a mesma língua já formam, por natureza, um todo inseparável, antes de qualquer rio ou montanha. E acusa os estrangeiros de terem dividido os alemães, usando as disputas religiosas para quebrar a unidade e transformar o solo alemão no campo onde se resolviam as guerras dos outros.4
No outro, a ocupação francesa aparece por analogia. Fichte lembra os antigos germanos diante de Roma: os romanos lhes ofereciam civilização, leis, tribunais, títulos para os chefes que se submetessem. Para os germanos, porém, todos esses benefícios “significavam escravidão”, porque os obrigariam a deixar de ser alemães e virar “meio romanos”. Quem ama a pátria, conclui ele, deve estar pronto a morrer para que a nação viva.4 Não é difícil ver quem eram os romanos de 1807.
A resistência não foi só alemã. Na introdução a um texto sobre a guerra na Península Ibérica, a editora E. M. Tappan registra que, mesmo depois de Napoleão derrotar os exércitos da Espanha e de Portugal, esses países se recusaram a ceder à sua autoridade, e que tropas britânicas sob Wellington vieram em socorro deles em 1809.7 O que se passou com Portugal antes disso — a invasão e a fuga da corte para o Rio de Janeiro — é assunto do artigo sobre a vinda da família real.

O três de maio, de Francisco de Goya, 1814 · 2012 · Wikimedia Commons · Public domain
1814–1815: a despedida e a volta
Em abril de 1814, depois da invasão fracassada da Rússia e da derrota diante dos aliados, segundo a nota do Sourcebook, Napoleão se despediu da Velha Guarda. O discurso diz que por vinte anos ele acompanhara aqueles soldados no caminho da glória, que com eles a causa não estaria perdida, mas que a guerra seria interminável — seria guerra civil, e isso traria à França desgraças maiores.5 A partida é apresentada como sacrifício pela pátria.
Menos de um ano depois, ele voltou. A introdução de Tappan ao relato de 1815 atribui a volta ao descontentamento com Luís XVIII e os realistas, que queriam pôr tudo de novo como era antes da Revolução.6 O relato em si é de uma inglesa partidária dos Bourbon que estava em Paris, e vale pelo que ela viu. Em 19 de março, gritava-se “Viva o rei!”; na manhã do dia 20, “Viva o imperador!”. Nas lojas e nas pontes, os comerciantes tiravam as gravuras dos Bourbon e punham as de Napoleão; na Câmara, a cadeira do presidente bordada com flores-de-lis voltava para o sótão e a antiga descia. Diante das Tulherias, ela conta ter visto não mais que trinta pessoas, e que foi preciso pagar algumas moedas a crianças para que gritassem por ele.6
O diagnóstico da testemunha é o terceiro “em nome de” levado ao limite: o palácio parecia uma fortaleza, e o imperador não tinha sido chamado de volta pela voz do povo, mas “só pelo poder militar”.6 É o olhar de uma adversária, e precisa ser lido assim — mas combina com o que Rémusat, que não era inimiga, já tinha descrito.

Napoleão em Santa Helena, aquarela atribuída a František Xaver Sandmann, c. 1820 · 1820 · Wikimedia Commons · Public domain
Depois de Napoleão: o pacto dos reis
Para o príncipe Metternich — segundo a nota do editor, o senhor da política do Império Austríaco e o arquiteto de um sistema de alianças entre as potências europeias depois da derrota de Napoleão, feito para desfazer os danos da Revolução à política dinástica —, o problema não terminara em 1815.8
Na sua “confissão de fé política”, de 1820, ele faz um diagnóstico curioso. Os horrores da Revolução e as guerras de conquista que se seguiram tinham freado, de início, a propagação das ideias revolucionárias fora da França. Mas a semente se espalhara mesmo assim, e cresceu “sob o regime do despotismo militar de Bonaparte”: suas conquistas desfizeram leis, instituições e costumes, e por isso o espírito revolucionário pôde, na Alemanha, na Itália e depois na Espanha, esconder-se sob o véu do patriotismo. O remédio que ele propõe é a união dos monarcas, a estabilidade das instituições e a manutenção dos princípios religiosos.8
Fichte e Metternich estavam em lados opostos — um queria a nação de pé, o outro os reis unidos contra ela —, mas descrevem o mesmo fenômeno. Napoleão levou à força o fim da velha ordem a meia Europa, e a reação a ele ganhou, nos dois textos, o mesmo nome: nação, ou patriotismo.
- Base documental, não historiográfica — o artigo foi escrito a partir de documentos de época e de notas de editor. Mostra como Napoleão foi apresentado e visto por contemporâneos, não o balanço dos historiadores sobre o período.
- Fontes com lado — a testemunha da volta de Elba era partidária dos Bourbon; Metternich foi o grande adversário de Napoleão; Fichte escreveu sob ocupação. Rémusat convivia com a mulher de Napoleão. Nenhuma é neutra, e o artigo diz de quem é cada afirmação.
- Datas desencontradas no Sourcebook — a despedida da Velha Guarda vem com “29 de abril” no título e “20 de abril” no corpo; os discursos de Fichte aparecem datados de 1806 numa página e de 1807 em outra. O artigo usa só o mês de abril de 1814 e o intervalo 1806–1807, que cobre as duas indicações do editor sem escolher entre elas.
- Napoleão não foi só continuidade nem só ruptura — o mesmo governante fala em nome do povo em 1803 e em nome de Deus em 1806. Responder que ele “consolidou a Revolução” ou que “restaurou o Antigo Regime” sem qualificar é simplificar os documentos.
- A frase da testemunha de 1815 — a afirmação de que Napoleão voltou “só pelo poder militar” é de uma adversária. O artigo a registra como opinião dela, ao lado do relato de Rémusat, e não como fato estabelecido.
Faltam aqui assuntos que o vestibular cobra e que o Sourcebook só indica por link a sites que não estão entre as fontes permitidas: o Código Civil de 1804, o golpe do 18 Brumário, o Bloqueio Continental e as proclamações às tropas. Também não há documento lido sobre a campanha do Egito, a tentativa de restabelecer a escravidão nas colônias e a revolução do Haiti, a batalha de Waterloo e o Congresso de Viena, que no Sourcebook aparece só em mapas. Essas lacunas são reais; o artigo não as preenche de memória.
O efeito das guerras napoleônicas sobre a América — a fuga da corte portuguesa e as independências hispano-americanas — está nos artigos indicados abaixo.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De cônsul a prisioneiro, em 22 anos
Dois adversários, a mesma constatação
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| 1799 | Diretório chama Napoleão (fim do artigo sobre a Revolução Francesa) |
| Luisiana (1803) | Primeiro Cônsul vende “em nome do povo francês”, por 60 milhões de francos |
| Catecismo (1806) | imperador como imagem de Deus; consagrado pelo papa; desobediência = danação |
| Exército | Rémusat: soldados chamados pelo nome; filhos mandados morrer ano após ano |
| Fichte | nação definida pela língua; benefícios do conquistador = servidão |
| Península Ibérica | Espanha e Portugal não cedem; britânicos de Wellington em 1809 (Tappan) |
| Abril de 1814 | despedida da Velha Guarda: evitar a guerra civil |
| Março de 1815 | volta de Elba; Paris troca de retratos em um dia |
| Metternich (1820) | “despotismo militar” espalhou a revolução sob o patriotismo; união dos reis |
| 1821 | morte em Santa Helena, onde estava detido pelos britânicos |
Fontes
- ESTADOS UNIDOS e REPÚBLICA FRANCESA. Tratado da Compra da Luisiana e primeira convenção anexa, 30 de abril de 1803. Avalon Project, Lillian Goldman Law Library, Yale. avalon.law.yale.edu/19th_century/louis1.asp e /louis2.asp
- Catecismo imperial (1806), excertos, em J. H. Robinson (ed.), Readings in European History, vol. 2 (1906). Internet Modern History Sourcebook, Fordham University. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1806catechism-napoleon.asp
- RÉMUSAT, Madame de. Memórias, excertos sobre Napoleão, em J. H. Robinson (ed.), Readings in European History, vol. 2 (1906). Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/remusat-napoleon.asp
- FICHTE, Johann Gottlieb. Discursos à nação alemã, trad. inglesa de R. F. Jones e G. H. Turnbull (Chicago, 1922). Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1807fichte1.asp; e décimo terceiro discurso, ed. G. A. Kelly, com nota do editor do Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1806fichte.asp
- NAPOLEÃO BONAPARTE. Despedida da Velha Guarda (abril de 1814). Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1814napoleon.asp
- “The Return of Napoleon from Elba” (1815), relato de uma inglesa partidária dos Bourbon, com introdução de E. M. Tappan, em The World’s Story, vol. 5 (1914). Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1815napoleon100days.asp
- TAPPAN, E. M. (ed.). Introdução a “Wellington’s Crossing of the Douro, 1809”, em The World’s Story, vol. 5 (1914). Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1809wellington.asp (só a introdução foi usada)
- METTERNICH, Klemens von. Confissão de fé política (1820), em Memoirs of Prince Metternich, vol. 3 (ed. de 1881). Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1820metternich.asp
- LONDONDERRY, Lord. Carta a Richard Rush sobre a morte de Napoleão, 30 de julho de 1821, em H. Miller (ed.), Treaties and Other International Acts of the United States, vol. 2 (1931). Avalon Project, Yale. avalon.law.yale.edu/19th_century/lett1821.asp
- HALSALL, Paul (ed.). Internet Modern History Sourcebook, seções “Napoleon”, “Napoleonic Wars”, “Nationalism” e “Conservative Order”, e notas aos documentos. Fordham University. Fonte de todas as notas de editor citadas.