Feudalismo: terra, vassalagem e servidão
Em 1110, um visconde jurou segurar o estribo de um abade toda vez que ele montasse a cavalo. Os laços que prendiam gente a gente e gente à terra na Europa medieval eram desse tipo — pessoais, variados e cheios de exceção. Tão variados que hoje se discute se a palavra feudalismo serve para descrevê-los.

Clérigo, cavaleiro e trabalhador, manuscrito francês do século 13 · 0 · Wikimedia Commons · Public domain
O livro didático costuma desenhar o feudalismo como uma pirâmide: rei no topo, servos na base. Mas há documentos medievais em que um mesmo homem é vassalo de quatro senhores, e em que um abade manda num visconde. O que a pirâmide esconde?
Comece pelo visconde. Em 1110, Bernardo Atton, visconde de Carcassonne, reconheceu diante de testemunhas que vários castelos e domínios seus eram, na verdade, feudos de um mosteiro, o de Santa Maria de Grasse. Prestou homenagem ao abade “com as mãos e com a boca”, jurou defendê-lo à própria custa e se comprometeu, junto com os herdeiros, a segurar o estribo do abade quando ele montasse e a hospedar sua comitiva — até duzentos animais — na primeira visita a Carcassonne.4
O documento mostra três coisas de uma vez: o senhor podia ser um clérigo; o vassalo podia ser um grande nobre; e o laço tinha cláusulas concretas, negociadas caso a caso. É por aí — pelos laços, e não pela pirâmide — que este texto anda.
O que se lê aqui vem de documentos medievais traduzidos — juramentos, cartas, leis, inventários de terras — e do ensaio com que Paul Halsall, editor do Sourcebook da Fordham, abre a seção sobre o tema. Nenhum livro de síntese foi usado. Como documento mostra casos, e não médias, este texto é provisório e lista no final o que ficou de fora.
O que um guerreiro devia a outro?
O gesto central está descrito por Galberto de Bruges, na crônica das homenagens prestadas ao novo conde de Flandres em 1127. Eram três atos. Primeiro, a homenagem: o conde perguntava se o homem queria tornar-se inteiramente seu; ele respondia que sim, punha as mãos juntas entre as mãos do conde e os dois se beijavam. Depois, a fidelidade, prometida em palavras. Por fim, o juramento sobre relíquias de santos. Com uma varinha, o conde dava então a investidura — devolvia a cada um os feudos e cargos que já tinham.4

Homenagem ao conde Raimundo Wifredo da Cerdanha, século 12 · 0 · Wikimedia Commons · Public domain
O que se ganhava com isso? Em troca de serviço, sobretudo militar, recebia-se terra: o feudo, também chamado de benefício. Em 1200, o conde de Troyes deu “em feudo” a Jocelyn d’Avalon um domínio rural. Jocelyn se tornou seu “homem lígio” — mas com uma ressalva: a fidelidade que já devia a outros três senhores, entre eles o duque da Borgonha. Um formulário inglês de cerca de 1275 prevê a mesma coisa na própria fórmula: “torno-me vosso homem”, ressalvada a fé devida ao rei “e a meus outros senhores”.46
O laço tinha obrigações dos dois lados. Em 1020, o bispo Fulberto de Chartres respondeu ao duque da Aquitânia que o vassalo não devia prejudicar o senhor no corpo, nos segredos, na honra nem nos bens — mas que isso não bastava: “não é suficiente abster-se do mal, se o bem também não é feito”. Para merecer o benefício, devia dar conselho e ajuda. E o senhor, completa Fulberto, devia agir do mesmo modo com o vassalo, ou seria culpado de má-fé.3
Uma lei carolíngia de 816 já tinha posto a reciprocidade em termos práticos: o vassalo podia abandonar o senhor que tentasse reduzi-lo injustamente à servidão, conspirasse contra sua vida, tivesse relações com sua mulher, o atacasse de espada em punho ou deixasse de defendê-lo.2
LembreQual a diferença entre homenagem, fidelidade e investidura na cerimônia de 1127?
A homenagem é o gesto que faz de alguém “homem” do senhor — mãos entre as mãos, beijo. A fidelidade é a promessa de ser leal, reforçada por juramento sobre relíquias. A investidura é o ato do senhor: entregar, com um objeto simbólico, o feudo ou o cargo.
O que o camponês devia ao senhor da terra?
Para ver o outro lado é preciso ir a um tipo de documento menos solene: o inventário. Por volta de 800, o abade Irminon, de Saint-Germain, mandou descrever as terras do mosteiro. No domínio de Villeneuve-Saint-Georges havia uma parte explorada diretamente pela abadia — 172 bonniers de terra arável, vinhas, prados, quatro moinhos, floresta para 500 porcos — e em volta, 74 lotes e meio entregues a famílias camponesas.8
O políptico dá nome a essas famílias. Arctardus, um colonus, e a mulher Eligildis tinham seis filhos e um lote “livre”. Pagavam em prata, em animais, em vinho, em lenha, em telhas de madeira; davam três galinhas e quinze ovos; aravam uma faixa da terra da abadia e deviam as corveias — dias de trabalho na terra do senhor — “quantas lhe forem impostas”. Já Frotlindis, mulher de Aclebertus, era serva: além do que o casal pagava, ela tecia a lã do senhor e assava os pães que lhe pedissem.8

Março, nas Très Riches Heures do duque de Berry, c. 1412–1416 · 1412 · Wikimedia Commons · Public domain
Os grandes proprietários queriam saber exatamente o que tinham. A capitular De Villis, do século 9, mandava cada administrador dos domínios do rei apresentar todo Natal uma conta de tudo — de bois e moinhos a mel, cera, sabão e ovos. Séculos depois, na Inglaterra, os manuais de administração rural de cerca de 1275 ainda mandavam o senescal visitar os domínios duas ou três vezes por ano para conferir rendas, serviços e costumes devidos.9
Havia limites à movimentação dos camponeses e sinais de que eles nem sempre aceitavam o arranjo. Uma capitular de 803–813 manda devolver ao lugar de origem colonos e servos que tivessem ido viver em terra alheia. Outra, de 821, fala de conspirações de servos em Flandres, no Brabante e em outras regiões costeiras, e manda multar em 60 soldos os senhores que não as reprimissem.8
Quando o poder público caiu em mãos privadas
O terceiro laço é entre o poder do rei e quem tinha terra. Desde o século 7, fórmulas reais concediam domínios com imunidade: nenhum agente público podia entrar ali para cobrar a parte do rei nas multas. Em 743, a Capitular de Lestinnes tomou temporariamente terras da Igreja para sustentar o exército, cedidas como precaria por uma renda de um soldo por fazenda. Segundo a nota do editor, historiadores posteriores trataram essas concessões como feudos — uma equivalência hoje vista com suspeita.5
A lei de 847, de Meerssen, dada pelos três netos de Carlos Magno, mostra o passo seguinte: “cada homem livre do nosso reino escolherá um senhor”, do rei ou de um de seus fiéis, e irá com ele à guerra. E a Capitular de Quierzy, de 877, de Carlos, o Calvo, previa que, morto um conde, o filho fosse honrado com os cargos do pai — o mesmo valendo para os vassalos. Para o editor, é o momento em que senhorio e jurisdição pública se fundem numa só pessoa e se tornam hereditários.25
Com poder espalhado entre tantos senhores armados, a Igreja tentou pôr limites. Em 989, no sínodo de Charroux, bispos ameaçaram de anátema quem arrombasse igrejas, atacasse clérigos desarmados ou roubasse de um camponês ou de outro pobre um carneiro, um boi, um burro, uma vaca, uma cabra ou um porco. Em 1063, a Trégua de Deus de Thérouanne proibiu ataques do pôr do sol de quarta ao nascer do sol de segunda, sob pena de trinta anos de exílio.7
LembrePor que a Capitular de Quierzy (877) aparece nos manuais como um marco?
Porque reconhece que o filho de um conde deveria herdar os cargos do pai, e estende o princípio aos vassalos. Cargos públicos e terras recebidas por serviço passam a ficar na família — e o rei perde a liberdade de redistribuí-los.
Afinal, existiu um “sistema feudal”?
O editor do Sourcebook abre a seção sobre o tema com um ponto de interrogação, e explica por quê. Feudalismo não é palavra medieval, e ela tem sido usada em dois sentidos diferentes.1
O primeiro vem dos revolucionários franceses — a assembleia que em 1789 decretou a “abolição do feudalismo” — e foi desenvolvido por historiadores marxistas: uma sociedade em que a agricultura camponesa é a atividade básica, a escravidão é marginal, os camponeses estão presos de algum modo à terra e uma pequena elite militar domina. Segundo Halsall, é o sentido mais difundido fora da universidade.1
O segundo é o dos medievalistas do século 20: um sistema de relações pessoais recíprocas dentro da elite guerreira, que levaria, no longo prazo, aos parlamentos. Nessa versão, a relação entre senhor e camponês passou a ser chamada por outro nome, senhorialismo.1
Em 1994, a historiadora Susan Reynolds, no livro Fiefs and Vassals, atacou a segunda versão. Seu argumento, como Halsall o resume: os historiadores projetaram textos jurídicos dos séculos 11 e 12 sobre uma sociedade dos séculos 9 e 10 muito mais variada, e montaram um “mundo feudal” que não existiu — ou que descreve, no máximo, pedaços da França por pouco tempo. A maioria dos resenhistas achou o argumento convincente, e por isso, conclui o editor, o termo só pode ser ensinado com fortes ressalvas.1
A sugestão de Halsall é ler os documentos acima não como engrenagens de um sistema, mas como exemplos de como as pessoas criavam vínculos pessoais e sociais numa sociedade com poucas autoridades jurídicas e de governo estáveis e acessíveis. Isso explica o visconde que segura o estribo do abade, o vassalo de quatro senhores e a trégua com dia marcado.1

Juramento sobre relíquias, Tapeçaria de Bayeux, década de 1070 · 0 · Wikimedia Commons · Public domain
- A pirâmide é simplificação — documentos mostram vassalos com vários senhores, ressalvas de fidelidade e clérigos como senhores de nobres. A imagem de uma cadeia única, do rei ao servo, não aparece nas fontes.
- “Feudalismo” não é palavra medieval — tem dois sentidos modernos — o dos revolucionários e marxistas (sociedade de camponeses dominada por elite militar) e o dos medievalistas (laços pessoais entre guerreiros) — e o segundo está sob forte contestação desde Susan Reynolds (1994).
- Obrigações dos dois lados — Fulberto de Chartres (1020) e a capitular de 816 mostram que o senhor também devia algo e que o vassalo podia romper o laço em casos definidos.
- Servo não é escravo, nem é livre — o políptico de Irminon distingue colonos e servos, lotes livres e servis. Os encargos variavam por pessoa e por domínio; generalizar uma lista única é erro.
- Casos não são média — cada documento citado vale para um lugar e uma data — Flandres em 1127, Carcassonne em 1110, Villeneuve por volta de 800. Nenhum descreve a Europa inteira.
Faltam aqui, por falta de documento no material lido, os nomes que o vestibular costuma cobrar para os encargos camponeses — talha, banalidades, mão-morta —, embora o políptico mostre pagamentos do mesmo tipo sem esses rótulos. Também não há texto medieval lido que formule a divisão entre os que rezam, os que lutam e os que trabalham; ela aparece só na imagem de capa. As explicações de origem que os manuais costumam dar — a crise do Império Romano do Ocidente, os ataques de vikings, magiares e árabes, que o índice do Sourcebook agrupa como “ataques externos” — não são desenvolvidas aqui. E fica de fora o debate sobre feudalismo fora da Europa. O artigo deve ser revisto quando houver obra de síntese adotada sobre o tema.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Documentos no tempo
Homenagem do livre, fidelidade do vilão
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Homenagem | mãos do vassalo entre as do senhor; “torno-me vosso homem” (Flandres, 1127; Inglaterra, c. 1275) |
| Fidelidade | promessa de lealdade, com juramento sobre relíquias ou sobre o livro |
| Investidura | o senhor entrega o feudo com um objeto simbólico — em 1127, uma varinha |
| Feudo ou benefício | terra dada em troca de serviço, sobretudo militar |
| Vários senhores | Jocelyn d’Avalon, 1200: homem lígio do conde de Troyes, ressalvando três outros |
| Reciprocidade | Fulberto de Chartres, 1020: conselho e ajuda; o senhor deve o mesmo |
| Romper o laço | capitular de 816: cinco motivos permitem ao vassalo deixar o senhor |
| Escolher um senhor | Meerssen, 847: todo homem livre deve ter um senhor |
| Reserva e lotes | políptico de Irminon, c. 800: terra da abadia e 74,5 lotes camponeses |
| Encargos camponeses | produtos, dinheiro, aves e ovos, e corveias “quantas forem impostas” |
| Colono e servo | condições diferentes, lotes livres e servis, encargos distintos |
| Imunidade | agentes do rei proibidos de entrar na terra concedida |
| Hereditariedade | Quierzy, 877: o filho do conde herda os cargos |
| Paz de Deus | Charroux, 989: proteção a igrejas, clérigos e bens dos pobres |
| Trégua de Deus | Thérouanne, 1063: sem ataques de quarta à noite a segunda de manhã |
| O termo | moderno; dois sentidos; contestado por Susan Reynolds em 1994 |
Fontes
- HALSALL, Paul. “Feudalism?”, ensaio introdutório da seção sobre o século 10 do Internet Medieval Sourcebook. Fordham University. sourcebooks.fordham.edu/halsall/sbook1i.asp. Base do debate sobre o termo.
- Juramentos de fidelidade (fórmula anglo-saxã; aceitação de um antrustião, século 7) e capitulares sobre senhores e vassalos (816 e Meerssen, 847). Trad. inglesa de E. P. Cheyney, Translations and Reprints, vol. 4, nº 3, Universidade da Pensilvânia, 1898. Em sourcebooks.fordham.edu/halsall/source/feud-oath1.asp e feud-caps.asp.
- FULBERTO DE CHARTRES. Carta ao duque Guilherme da Aquitânia sobre as obrigações de vassalos e senhores, 1020. Trad. Cheyney, 1898. Em sourcebooks.fordham.edu/halsall/source/fulbert1.asp.
- GALBERTO DE BRUGES. Homenagem ao conde de Flandres, 1127; doação de feudo pelo conde de Troyes, 1200; e BERNARDO ATTON, carta de homenagem ao abade de Santa Maria de Grasse, 1110. Trad. Cheyney, 1898. Em sourcebooks.fordham.edu/halsall/source/feud-fief1.asp e atton1.asp.
- Capitular de Lestinnes (743), fórmula de imunidade de Marculfo (século 7) e Capitular de Quierzy (877). Em THATCHER, O. J.; McNEAL, E. H. A Source Book for Medieval History, 1905, e Cheyney, 1898. Em sourcebooks.fordham.edu/halsall/source/feud-fief2.asp.
- Modus faciendi homagium et fidelitatem, c. 1275. Em The Statutes of the Realm, Londres, 1810–1828, vol. 1. Em sourcebooks.fordham.edu/halsall/source/1275fealtyhomage.asp.
- Sínodo de Charroux, Paz de Deus, 989; Trégua de Deus do bispado de Thérouanne, 1063. Em Thatcher e McNeal, 1905. Em sourcebooks.fordham.edu/halsall/source/pc-of-god.asp e t-of-god.asp.
- IRMINON, abade. Políptico de Saint-Germain-des-Prés, domínio de Villeneuve-Saint-Georges, c. 800; e capitulares carolíngias sobre servos e colonos, 803–821. Em CAVE, R. C.; COULSON, H. H. A Source Book for Medieval Economic History, 1936. Em sourcebooks.fordham.edu/halsall/source/800irminon.asp e 803carol-coloni.asp.
- Capitular De Villis, século 9, em ROBINSON, J. H. Readings in European History, 1904; e Seneschaucy e Hosebonderie, c. 1275, trad. Elizabeth Lamond, 1890. Em sourcebooks.fordham.edu/halsall/source/carol-devillis.asp e 1275manors1.asp.