O Império Carolíngio
No Natal de 800, um rei franco saiu de uma igreja em Roma com o título de imperador — e, segundo seu biógrafo, contrariado. Como um reino sem capital fixa governava do Ebro ao Elba, e por que se partiu em três uma geração depois?

Estatueta equestre de um rei carolíngio, Museu do Louvre · 2014 · Wikimedia Commons · Public domain
Carlos Magno não tinha ministérios, correio regular nem capital administrativa no sentido moderno — e ainda assim mandava em gente que vivia do rio Ebro ao rio Elba. Com que instrumentos se governava um território desses no século 9, e por que ele não sobreviveu aos netos?
Comece pelo fim da cena mais famosa. No dia de Natal de 800, em Roma, Carlos recebeu os títulos de imperador e augusto. Seu biógrafo e amigo Eginhardo garante que ele detestou a surpresa: se soubesse o que o papa planejava, diz, não teria posto os pés na igreja naquele dia, mesmo sendo festa.1
Contrariado ou não, o título ficou — e a história de como um rei franco chegou até ali começa meio século antes, com outra conversa entre francos e papas.
As afirmações abaixo saem de documentos do próprio período — uma biografia, anais, leis e cartas — e das notas dos editores que os traduziram, reunidos no Internet Medieval Sourcebook, da Fordham — nenhuma obra de historiador moderno serviu de apoio. Documento conta o que seu autor quis registrar; Eginhardo, por exemplo, escreve sobre o homem que o criou. Trate este texto como primeira versão, aberta a revisão.
Como uma família de administradores virou dinastia real?
Eginhardo descreve os últimos reis da dinastia anterior, a merovíngia, como figuras de fachada: cabelos longos, barba, trono, uma única propriedade rural e um carro de bois para ir à assembleia anual. Quem decidia era o prefeito do palácio, cargo que a família de Carlos ocupava havia três gerações — entre eles o avô, Carlos Martel.1
A troca foi feita com aval de Roma. Os Anais de Lorsch registram que, em 749, o prefeito Pepino enviou dois clérigos ao papa Zacarias perguntando o que fazer com reis que tinham o nome sem o poder. A resposta: “era melhor que fosse chamado rei aquele que de fato tinha o poder”. Pepino foi ungido com óleo santo em Soissons — no ano que os anais dão como 750 e o editor corrige para 751 — e o último merovíngio, Quilderico, teve o cabelo cortado e foi mandado para um mosteiro.2
O favor tinha contrapartida. Em 753, o papa Estêvão foi até Pepino, em Quierzy, pedir que ele defendesse a Igreja de Roma dos ataques dos lombardos. Obteve a promessa e ungiu o rei e os dois filhos, Carlos e Carlomano. O filho cumpriu o acordo por inteiro: em 773–774, a pedido do papa Adriano, sitiou o rei lombardo Desidério, acabou com o reino e devolveu “aos romanos” o que haviam perdido.12
Os Anais de Lorsch põem a consulta decisiva no papado de Zacarias. Eginhardo, escrevendo décadas depois, diz que o último merovíngio foi deposto por ordem do papa Estêvão. Os dois concordam no essencial — a deposição teve chancela papal — e divergem no nome. É o tipo de detalhe que se confere antes de levar para a prova.
LembreO que cada lado ganhou com a aliança entre os francos e o papado?
A família de Pepino ganhou legitimidade: um rei novo, ungido, no lugar de uma dinastia antiga. O papa ganhou um protetor armado contra os lombardos — proteção que Carlos levou até o fim do reino lombardo em 774.
Com que instrumentos se governava do Ebro ao Elba?
Segundo Eginhardo, nos 47 anos de reinado o território franco mais que dobrou: Aquitânia e Gascunha até o rio Ebro, a Itália até a Calábria, a Saxônia, a Baviera, as terras dos ávaros no Danúbio. Manter isso exigia mais que vitória em campo. Os documentos mostram quatro ferramentas, e nenhuma delas é um prédio de repartição.1
A espada, que vinha com a cruz. A guerra contra os saxões durou, nas contas de Eginhardo, 33 anos (772 a 804). O biógrafo chama os saxões de adoradores de demônios e infiéis à palavra dada; o fim da guerra exigiu deles abandonar a religião ancestral, receber o batismo e formar com os francos um só povo. Dez mil saxões das margens do Elba foram retirados de lá, com mulheres e filhos, e espalhados pela Gália e pela Germânia. A Capitular para a Saxônia mostra o resto do método: pena de morte para quem queimasse igreja, matasse padre, cremasse um morto à maneira pagã ou se escondesse para não ser batizado; multa de 120 soldos ao nobre que não batizasse o filho em um ano.13

As partilhas do Império Carolíngio, 843–888 · 1923 · Wikimedia Commons · Public domain
O juramento. Em 802, já imperador, Carlos mandou que todo homem do reino a partir dos 12 anos, leigo ou eclesiástico, renovasse a fidelidade jurada antes ao rei. A capitular explica o que o juramento passava a incluir: não esconder servos fugidos do fisco, não prejudicar igrejas, viúvas, órfãos e peregrinos — dos quais o imperador se declarava protetor —, não arruinar terra recebida dele em benefício e não faltar à convocação para a guerra.3
Os enviados. Para fazer cumprir tudo isso, Carlos escolhia entre os grandes — arcebispos, bispos, abades e leigos de confiança — os missi, e os mandava percorrer o reino. Ouviam queixas de injustiça, corrigiam o que pudessem junto com os condes locais e levavam ao imperador o que não conseguissem resolver.3
A ordem escrita. As decisões saíam em capitulares, textos divididos em capítulos. Uma convocação ao abade Fulrado, entre 804 e 811, mostra como a máquina chegava à ponta: o abade devia comparecer à assembleia com seus homens armados — cada cavaleiro com escudo, lança, espada, punhal e arco —, carroças com ferramentas, comida para três meses e roupa para meio ano, sem tomar no caminho nada além de forragem, lenha e água. Um mosteiro, como se vê, também era fonte de soldados.3
Por que um rei guerreiro escrevia sobre gramática?
Uma carta de Carlos ao abade Baugulfo de Fulda, de algum momento entre 780 e 800, dá a razão com as palavras do próprio rei. Mosteiros vinham lhe mandando cartas com pensamento correto e latim tosco, e ele concluiu que quem escreve mal talvez entenda mal as Escrituras: “se os erros de palavra são perigosos, muito mais perigosos são os erros de entendimento”. Ordenou que bispados e mosteiros ensinassem as letras a quem tivesse capacidade, e que a carta fosse copiada e enviada a todos.3

Página de um evangeliário carolíngio, British Library · 2010 · Wikimedia Commons · Public domain
O próprio rei estudava. Eginhardo conta que ele falava latim tão bem quanto a língua materna e entendia grego; aprendeu gramática com Pedro de Pisa e retórica, dialética e astronomia com Alcuíno, diácono vindo da Britânia, “o maior erudito do seu tempo”. Também tentou escrever: guardava tabuinhas debaixo do travesseiro para treinar a mão, mas começou tarde e não teve sucesso.1
O esforço não se limitou ao latim da Igreja. Depois da coroação, ainda segundo Eginhardo, Carlos mandou pôr por escrito as leis não escritas de todos os povos sob seu domínio, recolher os antigos cantos sobre os feitos dos reis, começar uma gramática da língua franca e dar nomes francos aos meses. O biógrafo admite que a reforma das leis dos francos ficou pela metade, com “poucas capitulares, e imperfeitas”.1
LembreQue relação a carta a Baugulfo estabelece entre escrever bem e governar?
Para Carlos, o latim errado das cartas indicava risco de entender errado a Escritura. Ensinar letras em bispados e mosteiros era, portanto, assunto de fé e de governo ao mesmo tempo — e a ordem circulou como cópia, pelo mesmo caminho das capitulares.
Um império entre outros impérios
O título de 800 incomodou Constantinopla, onde já havia um imperador. Eginhardo diz que os “imperadores romanos” do Oriente receberam mal a novidade e que Carlos os desarmou com embaixadas e cartas em que os chamava de irmãos. O biógrafo registra até um provérbio grego: “tenha o franco por amigo, não por vizinho”.1
O mundo diplomático de Carlos não acabava na cristandade. Com Harun al-Rashid, o califa abássida de Bagdá — a quem Eginhardo chama de “rei dos persas” —, as relações foram cordiais: Harun recebeu os enviados francos que iam a Jerusalém e mandou a Carlos presentes do Oriente e o único elefante que tinha. Afonso II, rei das Astúrias, assinava as cartas como “homem” de Carlos. E uma carta de 796 a Offa, rei da Mércia, na Inglaterra, trata o colega como irmão e separa dois tipos de viajante: o peregrino passa sem pagar; quem viaja para negociar paga o pedágio de costume.14

O octógono da antiga basílica de Carlos Magno em Aachen · 2009 · Wikimedia Commons · CC0
Por que o Império se partiu em três?
A resposta começa num costume. Quando Pepino morreu, em 768, os francos fizeram reis os dois filhos, com o reino dividido ao meio; só a morte de Carlomano deixou Carlos sozinho. Em 813, já doente, Carlos reuniu os grandes e coroou o filho Luís imperador ao seu lado. Morreu em 28 de janeiro de 814, em Aachen, e foi enterrado na igreja que construíra.1
Luís, o Piedoso, tentou fixar regra. Na Ordenação de 817, o filho mais velho, Lotário, foi feito co-imperador; os outros dois, Pepino e Luís, receberiam reinos — Aquitânia, de um lado; Baviera e as marcas do leste, de outro —, mas não poderiam fazer guerra nem paz sem o irmão mais velho. O texto diz querer evitar que “a unidade do Império fosse rasgada por divisão humana”.6
O plano durou pouco. Na nota que escreveu em 1896, o editor Ernest Henderson resume o que veio depois: nasceu a Luís outro filho, o imperador tentou desfazer o acordo e pagou caro por isso — no chamado Campo das Mentiras, suas tropas foram atraídas para o lado dos filhos mais velhos. Morto Luís, o princípio da herança venceu o da unidade. O Tratado de Verdun, de 843, criou três reinos — e dele, observa Henderson, não resta nenhum documento autêntico. A forma como a divisão ficou no mapa é conhecida por outras vias.6
Henderson acrescenta que esses três reinos “depois se tornaram” França, Itália e Alemanha. É leitura de um historiador do século 19, que olhava para trás procurando a origem das nações do seu tempo. Ao estudante basta guardar o fato — três reinos — e desconfiar da frase que transforma 843 em certidão de nascimento de países que ninguém ali conhecia.6
- Eginhardo não é neutro — o biógrafo foi criado na corte e escreve sobre o homem a quem se diz devedor. A contrariedade de Carlos com a coroação, por exemplo, é versão dele.
- Conversão dos saxões foi forçada — a Capitular para a Saxônia previa pena de morte para quem se escondesse do batismo ou cremasse um morto à maneira pagã. Não suavizar: foi cristianização pela lei e pela guerra.
- Missi não eram burocratas — eram grandes leigos e eclesiásticos em missão. O governo carolíngio era pessoal, e isso explica tanto seu alcance quanto sua fragilidade.
- Verdun não criou nações — criou três reinos de uma mesma família. A ideia de que ali nasceram França, Itália e Alemanha é leitura retrospectiva, registrada aqui como tal.
- Fonte que discorda de fonte — os Anais de Lorsch atribuem a aprovação da troca de dinastia ao papa Zacarias; Eginhardo, ao papa Estêvão. A data da unção também vem corrigida pelo editor (750 para 751).
O material usado não permite tratar com segurança das marcas de fronteira como sistema, da reforma da moeda, da economia dos grandes domínios — esta fica com o artigo sobre feudalismo — nem das incursões vikings depois de 840, que o Sourcebook só indica. A linha divisória exata de Verdun aparece aqui pelo mapa de 1923, porque o tratado não sobreviveu em documento autêntico. Tampouco se usou a crítica de Agobardo de Lyon à mudança de planos de Luís, cuja tradução tem restrição de uso. Este é, portanto, um texto à espera de revisão assim que o projeto adotar historiografia sobre os carolíngios.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Do prefeito do palácio a Verdun
Por que o Império se partiu
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Merovíngios | reis de título; o poder estava com o prefeito do palácio |
| Consulta ao papa | 749, papa Zacarias: rei deve ser quem tem o poder |
| Unção de Pepino | Soissons, 751 (os anais dizem 750) |
| Contrapartida | defesa de Roma contra os lombardos; fim do reino lombardo em 774 |
| Reinado de Carlos | 768–814; 47 anos, segundo Eginhardo |
| Saxões | guerra de 33 anos (772–804); batismo imposto por lei e pena de morte |
| Coroação imperial | Roma, 25 de dezembro de 800; contrariedade relatada por Eginhardo |
| Juramento de 802 | todo homem a partir de 12 anos jura fidelidade ao imperador |
| Missi | enviados leigos e eclesiásticos que fiscalizavam com os condes |
| Capitulares | ordens escritas divididas em capítulos |
| Carta a Baugulfo | ensinar letras em bispados e mosteiros para entender bem a Escritura |
| Mestres da corte | Pedro de Pisa (gramática) e Alcuíno (retórica, dialética, astronomia) |
| Diplomacia | Constantinopla, Harun al-Rashid (o elefante), Astúrias, Mércia |
| Sucessão | Luís coroado em 813; Carlos morre em 28 de janeiro de 814 |
| Ordenação de 817 | Lotário co-imperador; irmãos reis subordinados |
| Verdun | 843: três reinos; sem documento autêntico do tratado |
Fontes
- EGINHARDO (Einhard). Vida de Carlos Magno. Trad. inglesa de Samuel Epes Turner. Nova York: Harper & Brothers, 1880. Em sourcebooks.fordham.edu/halsall/basis/einhard.asp. Documento central deste artigo.
- Anais de Lorsch, anos 749–754. Em THATCHER, O. J.; McNEAL, E. H. (ed.). A Source Book for Medieval History. Nova York: Scribners, 1905. Em sourcebooks.fordham.edu/halsall/source/lorsch1.asp.
- CARLOS MAGNO. Capitular para a Saxônia (775–790); Carta a Baugulfo de Fulda (c. 780–800); Capitular Geral dos Missi (802); Convocação ao abade Fulrado (804–811). Trad. inglesa de D. C. Munro, Translations and Reprints, Universidade da Pensilvânia, 1900. Em sourcebooks.fordham.edu/halsall/source/carol-saxony.asp, carol-baugulf.asp, carol-missi1.asp e carol-sum1.asp.
- CARLOS MAGNO. Carta a Offa, rei da Mércia, 796. Em CHEYNEY, E. P. Readings in English History. Boston: Ginn, 1922. Em sourcebooks.fordham.edu/halsall/source/796charlemagnetootto.asp.
- MONGE DE SAINT GALL (Notker). Vida de Carlos Magno, 883–884. Trad. inglesa de A. J. Grant. Londres: Chatto & Windus, 1926. Em sourcebooks.fordham.edu/halsall/basis/stgall-charlemagne.asp.
- LUÍS, O PIEDOSO. Ordenação sobre a divisão do Império, 817, com nota de Ernest F. Henderson. Em HENDERSON, E. F. Select Historical Documents of the Middle Ages. Londres: George Bell, 1896. Em sourcebooks.fordham.edu/halsall/source/817Louis-divisionofempire.asp.
- HALSALL, Paul (ed.). Internet Medieval Sourcebook, seção “Carolingians” — índice comentado e introduções. Fordham University. sourcebooks.fordham.edu/halsall/sbook1h.asp.