Peste negra e a crise do século 14
Em 1348, a mesma doença fechou as oficinas de Florença e levou muçulmanos, judeus e cristãos de Damasco a rezar juntos. Um ano depois, em Estrasburgo, cerca de dois mil judeus foram queimados sob a acusação de envenenar poços. E, na Inglaterra, o rei proibiu os sobreviventes de pedir aumento.

Moradores de Tournai enterram mortos da peste, miniatura de c. 1353 · 1353 · Wikimedia Commons · Public domain
Em 1349, o rei da Inglaterra baixou uma ordem proibindo trabalhadores de cobrar mais do que cobravam antes da peste — e mandando prender quem recusasse serviço. Por que uma epidemia que matou tanta gente fez os sobreviventes pedirem aumento, e o rei achar necessário proibi-lo?
A pergunta parece estranha, mas é a chave do assunto. A peste não foi só uma tragédia sanitária: ao matar em massa, ela mudou quanto valia o trabalho de quem ficou. E as sociedades atingidas reagiram de formas muito diferentes — algumas sensatas, outras assassinas. Este artigo percorre essas reações pelos textos de quem as viveu, em Florença, em Damasco, no vale do Reno e na Inglaterra.
O artigo nasce de documentos de época — crônicas, leis municipais, um relato de viagem, uma confissão obtida sob tortura — e das introduções com que os editores do Internet History Sourcebooks, da Universidade Fordham, os apresentam. Nenhuma obra de síntese o sustenta; por isso ele está mais sujeito a revisão que um texto apoiado em historiografia, e não trata do que essas fontes não cobrem — a começar pela biologia da doença.
Antes da peste, a fome
A crise começou pela comida. O cronista inglês Johannes de Trokelowe registra que, em 1315, as chuvas de verão foram tão fortes que o grão não amadurecia; o pão feito com ele “não tinha a força habitual”, e quem o comia voltava a ter fome pouco depois.1
Os preços dão a medida. Uma medida de trigo chegou a 20 xelins — a nota do tradutor lembra que dois anos antes ela custava 5. Quando o rei passou por St. Albans, em agosto, mal se achou pão à venda para a sua comitiva. Carne de cavalo virou artigo precioso, cães eram roubados, e o cronista repete, com a ressalva “segundo muitos relatos”, histórias de gente que comia os próprios filhos.1 É afirmação de boato, e o próprio autor a trata assim; o que ela documenta com segurança é o grau de desespero.

A Morte montada num leão e a Fome levando a mão à boca, Erfurt, c. 1315-1317 · 1315 · Wikimedia Commons · Public domain
1348: a mesma doença em três cidades
Giovanni Boccaccio abre o Decameron descrevendo a chegada da peste a Florença em 1348. Ela teria começado anos antes no Oriente, onde o sinal da morte era o sangramento pelo nariz. Em Florença, os sintomas eram outros: inchaços na virilha ou na axila, alguns do tamanho de uma maçã, depois manchas escuras pelo corpo — e quase todos morriam em três dias.2
Outro florentino, Marchione di Coppo Stefani, que escreveu sua crônica três décadas depois, acrescenta o que Boccaccio não diz: médicos que cobravam adiantado e tomavam o pulso de rosto virado; valas abertas nas igrejas, onde os corpos eram empilhados em camadas cobertas de terra; e a economia da mortandade, em que carregadores de defuntos, boticários e vendedores de frango enriqueceram. As guildas pararam; só boticários e igrejas ficaram abertos. Um inquérito do bispo e do governo, diz Stefani, contou 96 mil mortos entre março e outubro.3 É o número do cronista; nenhuma fonte deste artigo permite conferi-lo.
“Um homem morto não valia então mais do que valeria hoje uma cabra morta.”
Giovanni Boccaccio, Decameron, introdução. Tradução nossa a partir da versão inglesa de J. M. Rigg (1921).
No mesmo ano, do outro lado do Mediterrâneo, o viajante Ibn Battuta passou por Damasco no fim de julho de 1348. O vice-rei mandou que a cidade jejuasse três dias; depois, a população saiu em procissão até a Mesquita das Pegadas. Ibn Battuta anota quem ia: os muçulmanos com o Corão, os judeus com a Torá, os cristãos com o Evangelho, todos com mulheres e filhos. Segundo ele, os mortos em Damasco não passaram de dois mil por dia, enquanto no Cairo chegaram a 24 mil.5
LembrePor que é errado chamar a peste de 1348 de “epidemia europeia”?
Porque as próprias fontes europeias dizem que ela veio do Oriente, e as fontes do Oriente a registram no mesmo ano: Ibn Battuta a viu em Damasco em julho de 1348 e fala de mortandade ainda maior no Cairo. O cronista de Estrasburgo chega a escrever que ela foi maior entre os muçulmanos que entre os cristãos.

A difusão da peste na Europa, 1346-1353 · 2018 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
Como se explicava, e como se tentava conter
Nenhum desses autores sabia o que causava a doença, e eles dizem isso. Boccaccio hesita entre a influência dos astros e a ira de Deus; Stefani confessa que nem médicos nem remédios funcionavam; o cronista de Estrasburgo resume que “todos os sábios mestres e médicos” só sabiam dizer que era vontade de Deus.236
Mas ignorar a causa não impediu de observar o contágio. Boccaccio insiste que a doença passava do doente ao são pelo convívio e até por roupas e objetos — e conta ter visto dois porcos morrerem depois de remexer os trapos de um morto.2 Foi sobre essa observação que agiram os governos.
O caso mais claro é Pistoia, cidade toscana que o editor calcula em cerca de 11 mil habitantes e que teria perdido, provavelmente, um quarto da população.4 As ordenanças de 1348 parecem um manual de quarentena:
- ninguém podia ir a Pisa ou Lucca, nem vir de lá, sob multa;
- era proibido trazer tecido usado, de linho ou lã, para a cidade;
- o morto só saía de casa em caixão de madeira pregado, e a cova tinha profundidade mínima fixada;
- ficavam proibidos visitas à casa do morto, banquetes de luto, carpideiras e toque de sinos.
Florença tomou medidas parecidas, segundo Stefani: limitou velas e sinos nos enterros e proibiu a entrada de certas frutas. E, ao mesmo tempo, organizou procissões com a imagem de Santa Maria Impruneta.3 Medida sanitária e prece andavam juntas — em Florença como em Damasco.
Culpar alguém: os judeus do vale do Reno
No outono de 1348 circulava o boato de que a peste era obra de uma conspiração judaica para envenenar a cristandade. A introdução de Jacob Marcus, editor da versão inglesa, explica o mecanismo: judeus presos às margens do lago de Genebra foram torturados e confessaram o que os interrogadores sugeriam; as atas dessas confissões foram enviadas de cidade em cidade, pela Suíça e Reno abaixo.6
Uma dessas atas sobreviveu: a de Agimet, judeu de Genebra, interrogado em Châtel em outubro de 1348. O documento registra, sem constrangimento, que ele foi submetido à tortura “um pouco”, solto, e depois torturado de novo — e só então confessou ter espalhado veneno em poços de Veneza, da Calábria, da Apúlia e de Toulouse.6 É o tipo de prova sobre a qual se decidiram os massacres.
O cronista Jacob von Königshofen conta o que aconteceu em Estrasburgo. Os governantes da cidade disseram, numa reunião regional em Benfeld, que “não sabiam de mal algum” dos seus judeus. Foram derrubados. No sábado, 14 de fevereiro de 1349, cerca de dois mil judeus foram queimados numa plataforma de madeira no próprio cemitério; quem aceitou o batismo foi poupado, e crianças foram tiradas do fogo e batizadas contra a vontade dos pais. As dívidas com os judeus foram canceladas, e o dinheiro deles, repartido entre os artesãos.6 A conclusão é do próprio cronista cristão:
“O dinheiro foi, de fato, o que matou os judeus. Se fossem pobres, e se os senhores feudais não lhes devessem, não teriam sido queimados.”
Jacob von Königshofen, crônica de Estrasburgo. Tradução nossa a partir da versão inglesa de Jacob R. Marcus (1938).
Dois detalhes desmontam o boato por dentro das próprias fontes. O cronista registra que em Avignon não houve fogueira, porque o papa protegeu os judeus. E o Sourcebook reproduz o epitáfio de Asher ben Turiel, judeu de Toledo morto de peste em 1349 — os supostos envenenadores morriam da mesma doença.6

Judeus queimados, miniatura do tratado de Gilles li Muisis, c. 1352-1353 · 1352 · Wikimedia Commons · Public domain
Gente de menos, trabalho mais caro
Volte agora à pergunta do início. Stefani, em Florença, já anotara o efeito: depois da mortandade, criados reclamavam dos preços, alfaiates cobravam o que queriam, e os lavradores do campo exigiam contratos tão favoráveis que “quase se diria que as fazendas eram deles”. A comuna precisou baixar ordenanças.3
Na Inglaterra, a resposta veio da Coroa. A Ordenança dos Trabalhadores, de 1349, explica a si mesma: como “grande parte do povo, e especialmente dos trabalhadores e servos”, morrera da pestilência, os que restavam não queriam servir “sem salário excessivo”. A ordem: todo homem ou mulher apto, livre ou servo, com menos de 60 anos e sem terra ou ofício próprio, era obrigado a trabalhar para quem o requisitasse, pelo salário de antes da peste. Quem recusasse ia para a prisão; quem pagasse a mais também era punido.7
Dois anos depois, o Estatuto dos Trabalhadores, de 1351, reconhecia que a ordem não fora cumprida e a detalhava: quanto podia ganhar um ceifeiro em cada semana de agosto, quanto um debulhador por medida de trigo, e a proibição de sair da aldeia no verão para trabalhar em outra.7 O editor do Sourcebook chama as duas leis de tentativas vãs. A própria repetição indica isso: não se reedita uma lei que funcionou.
LembreResponda agora à pergunta orientadora: por que o rei inglês proibiu aumentos de salário?
Porque a peste matou muitos trabalhadores, e os que sobraram, mais escassos, passaram a cobrar mais e a recusar serviço. A Coroa, ouvindo prelados e nobres, tentou congelar os salários no nível de antes da epidemia e obrigar ao trabalho sob pena de prisão (1349). O estatuto de 1351 mostra que a ordem não pegou.
As revoltas
O Sourcebook liga as revoltas camponesas do século 14 ao período posterior à peste, somando a ela as guerras e a insegurança.8 As duas mais conhecidas chegaram por cronistas hostis aos revoltosos, e isso precisa ser dito antes de qualquer citação.
Na França, em 1358, a Jacquerie — o nome vem de “Jacques”, apelido comum de camponês, explica o editor — começou no Beauvaisis com menos de cem homens sem chefe, armados de paus e facas, que diziam que os nobres “envergonhavam o reino”. Segundo Jean Froissart, chegaram a seis mil e destruíram dezenas de castelos.8 Froissart descreve atrocidades contra famílias nobres com detalhe e nenhuma das razões dos camponeses além daquela frase; é a versão de quem escrevia para a nobreza.
Na Inglaterra, em 1381, a Crônica Anonimalle narra o encontro do rei Ricardo II com o líder dos revoltosos, Wat Tyler, em Smithfield, Londres. As exigências que o cronista atribui a Tyler são o documento mais importante do episódio: que não houvesse mais servos na Inglaterra, que todos fossem livres e “de uma só condição”, que nenhum senhor tivesse senhorio senão o civil, e que os bens da Igreja fossem divididos entre o povo das paróquias.9 Na mesma cena, o prefeito de Londres, William Walworth, feriu Tyler, que foi morto e decapitado. O rei perdoou os revoltosos, mandou enforcar muitos depois, e por fim vendeu o perdão: 20 xelins por carta.9
- Números de mortos são de cronistas — 96 mil em Florença (Stefani), 24 mil por dia no Cairo (Ibn Battuta), 16 mil em Estrasburgo (Königshofen), cerca de um quarto de Pistoia (editor). Jacob Marcus, em 1938, falava em 25 milhões de mortos “segundo relatos”. Nenhum desses números foi conferido por este artigo, e todos devem ser lidos como estimativa de época.
- A acusação contra os judeus era falsa — foi obtida sob tortura, difundida por cópias de confissões e desmentida pelos fatos que as próprias fontes registram: judeus morriam da mesma peste, e o papa os protegeu em Avignon.
- Fontes hostis às revoltas — Froissart e a Crônica Anonimalle escrevem do lado dos senhores e do rei. O que os revoltosos queriam chega filtrado por quem os combateu.
- Explicação religiosa e observação conviviam — os autores atribuem a peste a Deus ou aos astros e, ao mesmo tempo, observam o contágio e legislam sobre ele. Opor “fé medieval” a “medida racional” não descreve o que as fontes mostram.
As fontes usadas são testemunhos de época, e há coisas que elas não podem dizer. A biologia da doença — o agente que a causava e como se transmitia — é conhecimento moderno que nenhum destes documentos contém, e o artigo não a afirma. Também não se trata aqui do trajeto da peste pela Ásia antes de chegar ao Mediterrâneo, da Guerra dos Cem Anos (o Sourcebook tem textos sobre batalhas, mas não sobre o vínculo com a crise), do Grande Cisma da Igreja, nem de estimativas demográficas modernas. Um livro de síntese traria esses capítulos; este artigo prefere declarar a ausência a preenchê-la de memória.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Da fome à revolta
O que a peste deixou, e o que veio depois
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Fome, 1315 | chuvas, grão que não amadurece, trigo a 20 xelins (Trokelowe) |
| Origem, segundo Boccaccio | o Oriente, anos antes de 1348 |
| Sintomas em Florença | inchaços na virilha e na axila, manchas escuras, morte em cerca de três dias |
| Florença | março a setembro de 1348; 96 mil mortos segundo o inquérito citado por Stefani |
| Damasco e Cairo | procissão interreligiosa em Damasco; 24 mil mortos por dia no Cairo, segundo Ibn Battuta |
| Pistoia | ordenanças de isolamento, controle de tecidos e enterro fechado |
| Explicações de época | astros, ira de Deus; contágio observado, causa desconhecida |
| Acusação contra judeus | envenenar poços; confissões sob tortura (Agimet, outubro de 1348) |
| Estrasburgo | 14 de fevereiro de 1349: cerca de 2 mil judeus queimados; dívidas canceladas |
| Exceção | Avignon: o papa protegeu os judeus |
| Trabalho | trabalhadores escassos exigem mais (Florença e Inglaterra) |
| Lei inglesa | Ordenança de 1349 e Estatuto de 1351: salário de antes da peste, sob pena de prisão |
| Jacquerie, 1358 | revolta camponesa no norte da França, narrada por Froissart |
| Revolta de 1381 | Wat Tyler pede o fim da servidão; é morto em Smithfield |
Fontes
- HALSALL, Paul (ed.). Johannes de Trokelowe: Annales — On the Famine of 1315, trad. Brian Tierney. Internet Medieval Sourcebook, Fordham University. Fonte principal deste artigo, como as demais desta lista.
- HALSALL, Paul (ed.). Boccaccio: The Decameron — Introduction, trad. J. M. Rigg (1921). Internet Medieval Sourcebook.
- HALSALL, Paul (ed.). Marchione di Coppo Stefani: The Florentine Chronicle — The Plague in Florence, 1348. Internet Medieval Sourcebook (tradutor inglês não identificado na página).
- HALSALL, Paul (ed.). Pistoia: Plague Ordinances, 1348, com introdução do editor. Internet Medieval Sourcebook (tradutor inglês não identificado na página).
- HALSALL, Paul (ed.). Ibn Battuta: The Plague (Black Death) in Damascus, 1348, de Travels in Asia and Africa, 1325-1354, trad. H. A. R. Gibb (1929). Internet Medieval Sourcebook.
- HALSALL, Paul (ed.). The Black Death and the Jews, 1348-1349 — confissão de Agimet de Genebra, crônica de Jacob von Königshofen e epitáfio de Asher ben Turiel, trad. e introdução de Jacob R. Marcus, The Jew in the Medieval World (1938). Internet Jewish History Sourcebook.
- HALSALL, Paul (ed.). Ordinance of Laborers, 1349 e Statute of Laborers, 1351, em A. B. White e W. Notestein (eds.), Source Problems in English History (1915). Internet Medieval Sourcebook.
- HALSALL, Paul (ed.). Jean Froissart: on the Jacquerie, 1358, trad. Lord Berners, ed. G. C. Macaulay (1904). Internet Medieval Sourcebook.
- HALSALL, Paul (ed.). Anonimalle Chronicle: English Peasants' Revolt 1381, em Charles Oman, The Great Revolt of 1381 (1906). Internet Medieval Sourcebook.