Renascimento e humanismo
Petrarca escrevia cartas a Cícero, morto havia catorze séculos, e dizia preferir ter nascido em outra época. A ideia de que a Antiguidade “renascia” foi, antes de tudo, a imagem que os humanistas fizeram de si mesmos. Ao lado dela, os documentos mostram banqueiros, cardeais adolescentes e um filósofo que buscava a dignidade do homem em autores árabes.

A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, Santa Maria delle Grazie, Milão · 1495 · Wikimedia Commons · Public domain
Em 1345, em Verona, o poeta Petrarca escreveu uma carta a Cícero — que tinha morrido havia catorze séculos. E assinou: “no ano daquele Deus que tu nunca conheceste”. O que leva um homem do século 14 a se corresponder com os mortos? E o que isso tem a ver com a palavra Renascimento?
A resposta curta: a ideia de que a Antiguidade “renascia” foi, antes de tudo, a imagem que os humanistas construíram de si mesmos. Eles se viam como gente que redescobria autores esquecidos depois de séculos de descaso. Os documentos do período mostram isso — e mostram também o que essa imagem deixava de fora.
O artigo se apoia em textos da própria época — cartas, tratados, uma biografia de artista, um manual político — e nas apresentações dos editores do Internet Medieval Sourcebook, mantido pela Universidade Fordham. Nenhum livro de historiador serviu de base, e a consequência é dupla: o texto fica mais provisório, sujeito a revisão quando houver obra de síntese, e se cala sobre o que essas fontes não cobrem — a imprensa e a arte fora da Itália, por exemplo.
Petrarca e a vontade de outra época
O editor do Sourcebook apresenta Petrarca (1304-1374) como poeta, historiador e erudito “absorvido pelos clássicos”, visto como precursor do Renascimento — e lembra que ele escreveu cartas a figuras mortas do passado.1 A de 1345 começa com uma descoberta: Petrarca encontrara, “onde menos esperava”, as cartas de Cícero, e as lia como se ouvisse a voz do autor. Depois o repreende como a um amigo vivo, por ter se metido em guerras civis na velhice.1
Na carta “À Posteridade”, Petrarca explica de onde vinha esse hábito. Dedicava-se sobretudo à Antiguidade, diz, porque a sua própria época sempre lhe repugnara — a ponto de, se não fosse pelo amor aos seus, preferir ter nascido em qualquer outro tempo.1 Numa carta a Boccaccio, de 1366, a queixa vira acusação:
“Ó era inglória, que despreza a Antiguidade, sua mãe, a quem deve todas as artes nobres, e ousa declarar-se não só igual, mas superior ao glorioso passado!”
Francesco Petrarca, carta a Boccaccio, 1366. Tradução nossa a partir da versão inglesa de Robinson e Rolfe (1909).
Repare na lógica: para haver “renascimento”, é preciso que algo tenha morrido. É Petrarca, e não um historiador posterior, quem descreve o seu presente como época de esquecimento. A mesma carta, porém, mostra que o humanismo não era só nostalgia: Petrarca explica que o latim era a língua mais nobre, mas tão cultivada pelos antigos que pouco restava a acrescentar — enquanto a língua vulgar, o italiano, “recém-descoberta”, ainda podia ser enriquecida.1

Francesco Petrarca, afresco de Andrea del Castagno, c. 1450 · 1450 · Wikimedia Commons · Public domain
O monte Ventoux: novo olhar, ou olhar antigo?
Uma carta de Petrarca costuma ser citada como certidão de nascimento do espírito renascentista: a da subida ao monte Ventoux, datada de 26 de abril, em Malaucène. Ele conta que subiu com o irmão por um único motivo — “ver o que uma altura tão grande tinha a oferecer” — e que a ideia lhe veio ao reler Lívio.2
Na nota que antecede a carta, o editor do Sourcebook faz uma ressalva que vale a pena levar para a prova: o papa Inocêncio III, numa obra “nada humanista” sobre a miséria da condição humana, já havia perguntado por que as pessoas sobem montanhas — e dado a mesma resposta, ver a paisagem.2 E o desfecho da carta vai no mesmo sentido. No alto, Petrarca abre ao acaso as Confissões de santo Agostinho, lê uma frase sobre homens que admiram montanhas e mares “e se esquecem de si mesmos”, fecha o livro envergonhado e desce o monte sem dizer palavra.2
O episódio não mostra uma ruptura com a Idade Média. Mostra um homem que leva Lívio e Agostinho na mesma mochila — e que está mais preocupado com a própria alma do que com a paisagem.
LembrePor que a carta do monte Ventoux não prova, sozinha, que surgiu um “espírito novo”?
Porque o motivo de Petrarca (ver a paisagem) já fora formulado por Inocêncio III, um autor que ninguém chama de humanista — ressalva feita pelo próprio editor do Sourcebook. E porque a carta termina com Petrarca lendo santo Agostinho e se voltando para a alma. Antiguidade pagã e tradição cristã aparecem juntas, não em oposição.
O que se estudava: os “estudos liberais”
Logo depois de 1400, o professor Pier Paolo Vergerio(Vergerius, no latim) escreveu um tratado de educação para o filho do senhor de Pádua. O editor do Sourcebook o considera o primeiro tratado importante do Renascimento sobre o tema, uma espécie de programa humanista. O curso tradicional — as artes do trivium e do quadrivium, medicina, direito, teologia — continua ali; a ênfase nova vai para história, filosofia moral, retórica e literatura.3
A definição que Vergerio dá é a que explica o nome “humanidades”: chamam-se liberais os estudos “dignos de um homem livre”, aqueles pelos quais se alcança a virtude e a sabedoria. E o objetivo não é ganho: “para um temperamento vulgar, lucro e prazer são o único fim da existência; para uma natureza elevada, o valor moral e a fama”.3 E o leitor previsto não era qualquer um: Vergerio escrevia para o herdeiro de um senhor.
Pico e a dignidade do homem — com ajuda de árabes
Em 1486, Giovanni Pico della Mirandola preparou um discurso para abrir um debate público sobre novecentas teses filosóficas. O trecho central da Oração sobre a dignidade do homem é a fala que Pico põe na boca de Deus, dirigida a Adão:
“Não te demos rosto próprio nem dom que fosse só teu, para que o lugar, a forma e os dons que escolheres, tu os tenhas e possuas por tua própria decisão.”
Giovanni Pico della Mirandola, Oração sobre a dignidade do homem, 1486. Tradução nossa a partir da versão inglesa publicada no Medieval Sourcebook.
Os outros seres têm natureza fixa; o homem, diz Pico, é um camaleão, capaz de descer ao nível dos animais ou subir ao dos anjos pela própria escolha.4 Note que o argumento é religioso do começo ao fim: a liberdade humana é presente de Deus, e o ponto mais alto da escala é a união com Ele. Humanismo, aqui, não é ateísmo.
O mais interessante, porém, é a biblioteca de Pico. A primeira frase da Oração cita “os antigos escritos dos árabes”. Mais adiante, ele elogia Averróis, Avempace, Al-Farabi e Avicena, menciona Al-Kindi e pergunta o que seria da filosofia se só se discutissem os latinos, deixando de lado gregos e árabes. Recorre ainda à Cabala hebraica e a escritos atribuídos a Zoroastro.4 O humanismo de Pico não é um retorno só a Roma e Atenas.
É preciso dizer também o outro lado, que está no mesmo texto: Pico lê a Cabala para provar que ela confirma o cristianismo, e escreve que, com esses livros, os judeus poderiam ser refutados “sem que lhes reste canto onde se esconder”.4 Interesse intelectual pelo outro e intenção de convertê-lo convivem na mesma página.
Quem pagava: Lourenço de Médici
Nenhum desses homens vivia de vento. Em Florença, o nome que organiza o dinheiro e a política é Lourenço de Médici(1449-1492), que o editor do Sourcebook descreve como governante não oficial da cidade, humanista, mecenas — e político hábil.5
Maquiavel, na História de Florença, mostra as várias faces do personagem. Lourenço protegeu letrados como Cristoforo Landino e “Demétrio, o Grego”; Pico, “homem de gênio quase sobrenatural”, preferiu morar em Florença atraído por ele; e fundou uma universidade em Pisa.6 O mesmo texto conta que, nos negócios, Lourenço foi infeliz: os agentes administravam a empresa “como a de um príncipe”, a maior parte da fortuna se perdeu, e ele precisou que a cidade o socorresse com grandes somas — depois do que trocou o comércio pela compra de terras.6
E havia a Igreja. Lourenço conseguiu que o filho Giovanni fosse feito cardeal ainda menino — aos 14 anos, segundo o editor; mal completados os 13, segundo Maquiavel, que chama a nomeação de “escada” pela qual a família subiria “ao próprio céu”.56 O editor lembra que esse filho viria a ser o papa Leão X. Na carta em que aconselha o jovem cardeal, Lourenço chama Roma de “sentina de todas as iniquidades”.5

Lourenço de Médici, retrato póstumo de Giorgio Vasari, c. 1533-1534 · 1533 · Wikimedia Commons · Public domain
O artista como gênio: Vasari sobre Leonardo
Quase tudo o que se costuma repetir sobre Leonardo da Vinci vem de um livro: as Vidas de Giorgio Vasari, publicadas em 1550 e revistas em 1568.7 E o livro tem uma tese. Vasari abre a biografia dizendo que certos dons são “chovidos por influências celestes” e que, em Leonardo, o talento era “coisa concedida por Deus”, não adquirida.7
Os fatos que ele conta, porém, são de oficina e de encomenda. O pai levou os desenhos do menino a Andrea del Verrocchio, em cuja oficina Leonardo entrou. Fez projetos de moinhos, de bombas d’água, de um canal ligando Pisa a Florença. Pintou a Última Ceia para os frades de Santa Maria delle Grazie, em Milão — e o prior reclamou ao duque da lentidão do pintor. Pintou, para Francesco del Giocondo, o retrato da mulher dele, Mona Lisa, trabalhou nele quatro anos e o deixou inacabado. Terminou a vida na França, protegido pelo rei.7
Vasari conta ainda que Leonardo morreu nos braços do rei da França. É a versão dele, escrita décadas depois e no mesmo tom de consagração do resto do texto — deve ser lida como parte da construção do mito do gênio, não como registro de testemunha.

Retrato de Lisa, mulher de Francesco del Giocondo, de Leonardo da Vinci · 1503 · Wikimedia Commons · Public domain
Maquiavel: o mundo como ele é
O último texto desta seleção muda de tom. Nicolau Maquiavel, diplomata a serviço da república de Florença, escreveu O Príncipe em 1513, depois que a queda da república o mandou para o exílio, segundo o editor.8 O método é anunciado com franqueza: muitos imaginaram repúblicas que nunca existiram, mas há tanta distância entre como se vive e como se deveria viver que quem segue o ideal acaba em ruína.8
Daí a resposta famosa: se não for possível ser amado e temido ao mesmo tempo, é “muito mais seguro ser temido do que amado” — desde que o príncipe evite o ódio, o que consegue se não tocar nos bens e nas mulheres dos súditos.8 O humanismo de Vergerio prometia formar homens virtuosos para a vida pública; Maquiavel, leitor dos mesmos antigos, separa a política da moral.

Nicolau Maquiavel, retrato de Santi di Tito, segunda metade do século 16 · 1550 · Wikimedia Commons · Public domain
- “Renascimento” é palavra com dono — a ideia de que a Antiguidade renascia depois de séculos de trevas é, em boa parte, a autoimagem dos humanistas. Tratá-la como descrição neutra é repetir o que eles diziam de si.
- Humanismo não é ateísmo — Pico funda a liberdade humana em Deus, Petrarca carrega Agostinho, Vergerio inclui a teologia no currículo. Valorizar o homem e a Antiguidade convivia com a fé.
- Não foi só greco-romano — Pico elogia filósofos árabes e usa a Cabala hebraica. Mas também a usa para tentar refutar os judeus — interesse pelo outro e intenção de convertê-lo aparecem juntos.
- O gênio tem biógrafo — boa parte da imagem de Leonardo vem de Vasari, que escreve em 1550 com a tese de que o talento é dom celeste. É fonte valiosa e interessada.
Este artigo foi feito com uma seleção pequena de textos, e isso deixa lacunas grandes. Não se trata aqui da imprensa, das técnicas da pintura (perspectiva, óleo), da arquitetura, do Renascimento fora da Itália — Erasmo, os Países Baixos, a Península Ibérica —, nem das mulheres humanistas: o Sourcebook indica uma carta de Laura Cereta, de 1488, mas ela está hospedada fora dele e não foi usada. Também não se discute a historiografia posterior sobre o próprio conceito de Renascimento — o Sourcebook indica o clássico de Jacob Burckhardt, que não foi usado. Nada disso é secundário; apenas não está nas fontes que este artigo leu.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Dois séculos de conversa com os antigos
A autoimagem e os documentos
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Petrarca (1304-1374) | cartas a Cícero (1345); prefere a Antiguidade à própria época |
| Latim e vulgar | latim mais nobre, mas esgotado; italiano ainda a cultivar (carta de 1366) |
| Monte Ventoux | subida para ver a paisagem; termina com santo Agostinho |
| Ressalva do editor | Inocêncio III já dera o mesmo motivo para subir montanhas |
| Vergerio (c. 1400) | estudos liberais: história, filosofia moral, retórica, literatura |
| Pico (1486) | o homem escolhe o que ser; liberdade como dom de Deus |
| Fontes de Pico | Averróis, Avicena, Al-Farabi, Al-Kindi, Cabala, Zoroastro |
| Lourenço de Médici | governante não oficial de Florença, mecenas, banqueiro malsucedido |
| Filho cardeal | aos 13 ou 14 anos (as fontes divergem); futuro Leão X |
| Vasari (1550) | biografia de Leonardo; talento como dom divino |
| Leonardo, segundo Vasari | oficina de Verrocchio, Última Ceia, Mona Lisa inacabada, fim na França |
| Maquiavel (1513) | como se vive, não como se deveria viver; mais seguro ser temido |
Fontes
- HALSALL, Paul (ed.). Francesco Petrarch: Letters — à Posteridade, a Boccaccio (1366) e a Cícero (1345), trad. J. H. Robinson e H. W. Rolfe (1909). Internet Medieval Sourcebook, Fordham University. Fonte principal deste artigo, como as demais desta lista.
- HALSALL, Paul (ed.). Petrarch: The Ascent of Mount Ventoux, com nota do editor; tradução inglesa reproduzida do Hanover Historical Texts Project. Internet Medieval Sourcebook.
- HALSALL, Paul (ed.). Petrus Paulus Vergerius: The New Education (c. 1400), trad. W. H. Woodward (1897). Internet Medieval Sourcebook.
- HALSALL, Paul (ed.). Giovanni Pico della Mirandola: Oration on the Dignity of Man (1486). Internet Medieval Sourcebook (texto marcado como de domínio público na origem indicada pela página).
- HALSALL, Paul (ed.). Lorenzo de Medici: Paternal Advice to a Cardinal (c. 1491), trad. Merrick Whitcomb (1903). Internet Medieval Sourcebook.
- HALSALL, Paul (ed.). Niccolò Machiavelli: History of Florence — Lorenzo de' Medici, trad. C. E. Detmold (1882). Internet Medieval Sourcebook.
- HALSALL, Paul (ed.). Giorgio Vasari: Life of Leonardo da Vinci (1550), trad. G. du C. de Vere (1912-1914). Internet Medieval Sourcebook.
- HALSALL, Paul (ed.). Niccolò Machiavelli: The Prince [excertos] (1513), ed. W. K. Marriott (1908). Internet Medieval Sourcebook.