História Verso
História Geral · Idade Moderna

Renascimento e humanismo

Petrarca escrevia cartas a Cícero, morto havia catorze séculos, e dizia preferir ter nascido em outra época. A ideia de que a Antiguidade “renascia” foi, antes de tudo, a imagem que os humanistas fizeram de si mesmos. Ao lado dela, os documentos mostram banqueiros, cardeais adolescentes e um filósofo que buscava a dignidade do homem em autores árabes.

séc. XIV-XVI13 min de leitura8 fontes
A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, Santa Maria delle Grazie, Milão · Leonardo da Vinci · from 1495 until 1498
A Última Ceia, que Leonardo pintou para os frades dominicanos de Santa Maria delle Grazie, em Milão. Vasari, em 1550, conta que o prior reclamou ao duque da lentidão do pintor — e que a cabeça de Cristo ficou, para ele, por terminar.
A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, Santa Maria delle Grazie, Milão · 1495 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Em 1345, em Verona, o poeta Petrarca escreveu uma carta a Cícero — que tinha morrido havia catorze séculos. E assinou: “no ano daquele Deus que tu nunca conheceste”. O que leva um homem do século 14 a se corresponder com os mortos? E o que isso tem a ver com a palavra Renascimento?

A resposta curta: a ideia de que a Antiguidade “renascia” foi, antes de tudo, a imagem que os humanistas construíram de si mesmos. Eles se viam como gente que redescobria autores esquecidos depois de séculos de descaso. Os documentos do período mostram isso — e mostram também o que essa imagem deixava de fora.

De onde vem o que se lê aqui
O artigo se apoia em textos da própria época — cartas, tratados, uma biografia de artista, um manual político — e nas apresentações dos editores do Internet Medieval Sourcebook, mantido pela Universidade Fordham. Nenhum livro de historiador serviu de base, e a consequência é dupla: o texto fica mais provisório, sujeito a revisão quando houver obra de síntese, e se cala sobre o que essas fontes não cobrem — a imprensa e a arte fora da Itália, por exemplo.

Petrarca e a vontade de outra época

O editor do Sourcebook apresenta Petrarca (1304-1374) como poeta, historiador e erudito “absorvido pelos clássicos”, visto como precursor do Renascimento — e lembra que ele escreveu cartas a figuras mortas do passado.1 A de 1345 começa com uma descoberta: Petrarca encontrara, “onde menos esperava”, as cartas de Cícero, e as lia como se ouvisse a voz do autor. Depois o repreende como a um amigo vivo, por ter se metido em guerras civis na velhice.1

Na carta “À Posteridade”, Petrarca explica de onde vinha esse hábito. Dedicava-se sobretudo à Antiguidade, diz, porque a sua própria época sempre lhe repugnara — a ponto de, se não fosse pelo amor aos seus, preferir ter nascido em qualquer outro tempo.1 Numa carta a Boccaccio, de 1366, a queixa vira acusação:

“Ó era inglória, que despreza a Antiguidade, sua mãe, a quem deve todas as artes nobres, e ousa declarar-se não só igual, mas superior ao glorioso passado!”
Francesco Petrarca, carta a Boccaccio, 1366. Tradução nossa a partir da versão inglesa de Robinson e Rolfe (1909).

Repare na lógica: para haver “renascimento”, é preciso que algo tenha morrido. É Petrarca, e não um historiador posterior, quem descreve o seu presente como época de esquecimento. A mesma carta, porém, mostra que o humanismo não era só nostalgia: Petrarca explica que o latim era a língua mais nobre, mas tão cultivada pelos antigos que pouco restava a acrescentar — enquanto a língua vulgar, o italiano, “recém-descoberta”, ainda podia ser enriquecida.1

Francesco Petrarca, afresco de Andrea del Castagno, c. 1450 · Andrea del Castagno · circa 1450
Petrarca em afresco de Andrea del Castagno, de por volta de 1450, parte de uma série de figuras ilustres. A inscrição o identifica, e ele segura um livro: três quartos de século depois de morto, o poeta já era tratado como figura de referência.
Francesco Petrarca, afresco de Andrea del Castagno, c. 1450 · 1450 · Wikimedia Commons · Public domain

O monte Ventoux: novo olhar, ou olhar antigo?

Uma carta de Petrarca costuma ser citada como certidão de nascimento do espírito renascentista: a da subida ao monte Ventoux, datada de 26 de abril, em Malaucène. Ele conta que subiu com o irmão por um único motivo — “ver o que uma altura tão grande tinha a oferecer” — e que a ideia lhe veio ao reler Lívio.2

Na nota que antecede a carta, o editor do Sourcebook faz uma ressalva que vale a pena levar para a prova: o papa Inocêncio III, numa obra “nada humanista” sobre a miséria da condição humana, já havia perguntado por que as pessoas sobem montanhas — e dado a mesma resposta, ver a paisagem.2 E o desfecho da carta vai no mesmo sentido. No alto, Petrarca abre ao acaso as Confissões de santo Agostinho, lê uma frase sobre homens que admiram montanhas e mares “e se esquecem de si mesmos”, fecha o livro envergonhado e desce o monte sem dizer palavra.2

O episódio não mostra uma ruptura com a Idade Média. Mostra um homem que leva Lívio e Agostinho na mesma mochila — e que está mais preocupado com a própria alma do que com a paisagem.

LembrePor que a carta do monte Ventoux não prova, sozinha, que surgiu um “espírito novo”?

Porque o motivo de Petrarca (ver a paisagem) já fora formulado por Inocêncio III, um autor que ninguém chama de humanista — ressalva feita pelo próprio editor do Sourcebook. E porque a carta termina com Petrarca lendo santo Agostinho e se voltando para a alma. Antiguidade pagã e tradição cristã aparecem juntas, não em oposição.

O que se estudava: os “estudos liberais”

Logo depois de 1400, o professor Pier Paolo Vergerio(Vergerius, no latim) escreveu um tratado de educação para o filho do senhor de Pádua. O editor do Sourcebook o considera o primeiro tratado importante do Renascimento sobre o tema, uma espécie de programa humanista. O curso tradicional — as artes do trivium e do quadrivium, medicina, direito, teologia — continua ali; a ênfase nova vai para história, filosofia moral, retórica e literatura.3

A definição que Vergerio dá é a que explica o nome “humanidades”: chamam-se liberais os estudos “dignos de um homem livre”, aqueles pelos quais se alcança a virtude e a sabedoria. E o objetivo não é ganho: “para um temperamento vulgar, lucro e prazer são o único fim da existência; para uma natureza elevada, o valor moral e a fama”.3 E o leitor previsto não era qualquer um: Vergerio escrevia para o herdeiro de um senhor.

Pico e a dignidade do homem — com ajuda de árabes

Em 1486, Giovanni Pico della Mirandola preparou um discurso para abrir um debate público sobre novecentas teses filosóficas. O trecho central da Oração sobre a dignidade do homem é a fala que Pico põe na boca de Deus, dirigida a Adão:

“Não te demos rosto próprio nem dom que fosse só teu, para que o lugar, a forma e os dons que escolheres, tu os tenhas e possuas por tua própria decisão.”
Giovanni Pico della Mirandola, Oração sobre a dignidade do homem, 1486. Tradução nossa a partir da versão inglesa publicada no Medieval Sourcebook.

Os outros seres têm natureza fixa; o homem, diz Pico, é um camaleão, capaz de descer ao nível dos animais ou subir ao dos anjos pela própria escolha.4 Note que o argumento é religioso do começo ao fim: a liberdade humana é presente de Deus, e o ponto mais alto da escala é a união com Ele. Humanismo, aqui, não é ateísmo.

O mais interessante, porém, é a biblioteca de Pico. A primeira frase da Oração cita “os antigos escritos dos árabes”. Mais adiante, ele elogia Averróis, Avempace, Al-Farabi e Avicena, menciona Al-Kindi e pergunta o que seria da filosofia se só se discutissem os latinos, deixando de lado gregos e árabes. Recorre ainda à Cabala hebraica e a escritos atribuídos a Zoroastro.4 O humanismo de Pico não é um retorno só a Roma e Atenas.

É preciso dizer também o outro lado, que está no mesmo texto: Pico lê a Cabala para provar que ela confirma o cristianismo, e escreve que, com esses livros, os judeus poderiam ser refutados “sem que lhes reste canto onde se esconder”.4 Interesse intelectual pelo outro e intenção de convertê-lo convivem na mesma página.

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Na Oração sobre a dignidade do homem (1486), Pico della Mirandola afirma que Deus não deu ao homem natureza fixa, para que ele escolhesse o que ser. No mesmo texto, elogia Averróis, Avicena e Al-Farabi e recorre à Cabala hebraica. Com base nisso, é correto afirmar que o humanismo de Pico:
  1. Incorreta. A liberdade humana, em Pico, é dom de Deus, e o ponto mais alto da escala é a união com Ele. Valorizar o homem não significava abandonar a fé.

  2. Incorreta. Pico elogia explicitamente filósofos árabes, usa a Cabala hebraica e cita textos atribuídos a Zoroastro. Sua biblioteca ia muito além de Grécia e Roma.

  3. Correta. É a leitura que o texto sustenta: a dignidade do homem está em escolher a própria forma, por concessão divina, e o argumento se constrói com autores latinos, gregos, árabes e hebreus.

  4. Incorreta. Maquiavel conta o contrário: Pico, atraído pela magnificência de Lourenço de Médici, preferiu fixar residência em Florença.

  5. Incorreta. Pico usa a Cabala para provar verdades cristãs e diz que, com ela, os judeus poderiam ser refutados. Interesse e intenção de converter aparecem juntos.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Quem pagava: Lourenço de Médici

Nenhum desses homens vivia de vento. Em Florença, o nome que organiza o dinheiro e a política é Lourenço de Médici(1449-1492), que o editor do Sourcebook descreve como governante não oficial da cidade, humanista, mecenas — e político hábil.5

Maquiavel, na História de Florença, mostra as várias faces do personagem. Lourenço protegeu letrados como Cristoforo Landino e “Demétrio, o Grego”; Pico, “homem de gênio quase sobrenatural”, preferiu morar em Florença atraído por ele; e fundou uma universidade em Pisa.6 O mesmo texto conta que, nos negócios, Lourenço foi infeliz: os agentes administravam a empresa “como a de um príncipe”, a maior parte da fortuna se perdeu, e ele precisou que a cidade o socorresse com grandes somas — depois do que trocou o comércio pela compra de terras.6

E havia a Igreja. Lourenço conseguiu que o filho Giovanni fosse feito cardeal ainda menino — aos 14 anos, segundo o editor; mal completados os 13, segundo Maquiavel, que chama a nomeação de “escada” pela qual a família subiria “ao próprio céu”.56 O editor lembra que esse filho viria a ser o papa Leão X. Na carta em que aconselha o jovem cardeal, Lourenço chama Roma de “sentina de todas as iniquidades”.5

Lourenço de Médici, retrato póstumo de Giorgio Vasari, c. 1533-1534 · Giorgio Vasari · between circa 1533 and circa 1534
Lourenço de Médici em retrato póstumo de Giorgio Vasari, de por volta de 1533-1534 — mais de quarenta anos depois da morte do retratado, pintado pelo mesmo Vasari que escreveria as Vidas dos artistas.
Lourenço de Médici, retrato póstumo de Giorgio Vasari, c. 1533-1534 · 1533 · Wikimedia Commons · Public domain

O artista como gênio: Vasari sobre Leonardo

Quase tudo o que se costuma repetir sobre Leonardo da Vinci vem de um livro: as Vidas de Giorgio Vasari, publicadas em 1550 e revistas em 1568.7 E o livro tem uma tese. Vasari abre a biografia dizendo que certos dons são “chovidos por influências celestes” e que, em Leonardo, o talento era “coisa concedida por Deus”, não adquirida.7

Os fatos que ele conta, porém, são de oficina e de encomenda. O pai levou os desenhos do menino a Andrea del Verrocchio, em cuja oficina Leonardo entrou. Fez projetos de moinhos, de bombas d’água, de um canal ligando Pisa a Florença. Pintou a Última Ceia para os frades de Santa Maria delle Grazie, em Milão — e o prior reclamou ao duque da lentidão do pintor. Pintou, para Francesco del Giocondo, o retrato da mulher dele, Mona Lisa, trabalhou nele quatro anos e o deixou inacabado. Terminou a vida na França, protegido pelo rei.7

Vasari conta ainda que Leonardo morreu nos braços do rei da França. É a versão dele, escrita décadas depois e no mesmo tom de consagração do resto do texto — deve ser lida como parte da construção do mito do gênio, não como registro de testemunha.

Retrato de Lisa, mulher de Francesco del Giocondo, de Leonardo da Vinci · Leonardo da Vinci · between 1503 and 1506
O retrato de Lisa, mulher de Francesco del Giocondo. Vasari, que o descreve em 1550, diz que Leonardo trabalhou nele quatro anos, o deixou inacabado e que, no seu tempo, ele estava com o rei da França, em Fontainebleau.
Retrato de Lisa, mulher de Francesco del Giocondo, de Leonardo da Vinci · 1503 · Wikimedia Commons · Public domain

Maquiavel: o mundo como ele é

O último texto desta seleção muda de tom. Nicolau Maquiavel, diplomata a serviço da república de Florença, escreveu O Príncipe em 1513, depois que a queda da república o mandou para o exílio, segundo o editor.8 O método é anunciado com franqueza: muitos imaginaram repúblicas que nunca existiram, mas há tanta distância entre como se vive e como se deveria viver que quem segue o ideal acaba em ruína.8

Daí a resposta famosa: se não for possível ser amado e temido ao mesmo tempo, é “muito mais seguro ser temido do que amado” — desde que o príncipe evite o ódio, o que consegue se não tocar nos bens e nas mulheres dos súditos.8 O humanismo de Vergerio prometia formar homens virtuosos para a vida pública; Maquiavel, leitor dos mesmos antigos, separa a política da moral.

Nicolau Maquiavel, retrato de Santi di Tito, segunda metade do século 16 · Santi di Tito · from 1550 until 1600
Maquiavel em retrato póstumo de Santi di Tito, da segunda metade do século 16. O diplomata florentino escreveu O Príncipe no exílio, depois da queda da república a que servia.
Nicolau Maquiavel, retrato de Santi di Tito, segunda metade do século 16 · 1550 · Wikimedia Commons · Public domain
Questão 02múltipla escolha · sem placar
Petrarca chamou sua época de “inglória” por desprezar a Antiguidade; Vasari descreveu o talento de Leonardo como dom de Deus; Maquiavel contou que Lourenço de Médici perdeu boa parte da fortuna nos negócios e fez do filho um cardeal ainda menino. Lidos em conjunto, esses documentos permitem concluir que:
  1. Incorreta. A carta do Ventoux termina com santo Agostinho, e o editor do Sourcebook lembra que Inocêncio III já explicara a subida às montanhas como Petrarca. A ideia de ruptura é, em boa parte, a imagem que os humanistas fizeram de si.

  2. Incorreta. O caso Médici mostra o oposto: uma família de negócios, que dominava a política da cidade, era quem protegia letrados, atraía Pico e fundava universidade.

  3. Incorreta. Pico funda a dignidade humana em Deus, Petrarca lê Agostinho no alto do monte, Leonardo pinta para frades e o filho de Lourenço vira cardeal e, depois, papa.

  4. Correta. É o que os documentos mostram juntos: Petrarca descreve o presente como época de esquecimento, Vasari consagra o gênio, e Maquiavel revela o mecenas como banqueiro e político que coloca o filho na Igreja.

  5. Incorreta. Vasari publicou as Vidas em 1550 e escreve em tom de consagração. Seu relato é valioso, mas é uma construção, a ser lido com a mesma crítica que qualquer outra fonte.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • “Renascimento” é palavra com dono — a ideia de que a Antiguidade renascia depois de séculos de trevas é, em boa parte, a autoimagem dos humanistas. Tratá-la como descrição neutra é repetir o que eles diziam de si.
  • Humanismo não é ateísmo — Pico funda a liberdade humana em Deus, Petrarca carrega Agostinho, Vergerio inclui a teologia no currículo. Valorizar o homem e a Antiguidade convivia com a fé.
  • Não foi só greco-romano — Pico elogia filósofos árabes e usa a Cabala hebraica. Mas também a usa para tentar refutar os judeus — interesse pelo outro e intenção de convertê-lo aparecem juntos.
  • O gênio tem biógrafo — boa parte da imagem de Leonardo vem de Vasari, que escreve em 1550 com a tese de que o talento é dom celeste. É fonte valiosa e interessada.
Onde este artigo para
Este artigo foi feito com uma seleção pequena de textos, e isso deixa lacunas grandes. Não se trata aqui da imprensa, das técnicas da pintura (perspectiva, óleo), da arquitetura, do Renascimento fora da Itália — Erasmo, os Países Baixos, a Península Ibérica —, nem das mulheres humanistas: o Sourcebook indica uma carta de Laura Cereta, de 1488, mas ela está hospedada fora dele e não foi usada. Também não se discute a historiografia posterior sobre o próprio conceito de Renascimento — o Sourcebook indica o clássico de Jacob Burckhardt, que não foi usado. Nada disso é secundário; apenas não está nas fontes que este artigo leu.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 12evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Dois séculos de conversa com os antigos

1345Petrarcaescreve aCícero1366Petrarca aBoccaccio:latim evulgarc. 1400Vergerius:os “estudosliberais”1486Pico: Oraçãosobre adignidade dohomem1489Filho deLourençovira cardeal1492MorreLourenço deMédici1513Maquiavelescreve OPríncipe1550Vasaripublica asVidasTodas as datas vêm dos próprios documentos ou das introduções do Sourcebook. A distância entre a primeira e a última é de mais de dois séculos — o “Renascimento” não foi um momento, foi uma longa conversa.
Os marcos destacados são três textos-programa: o currículo de Vergerio, a Oração de Pico e O Príncipe de Maquiavel.

A autoimagem e os documentos

Como os humanistas se viamVolta à Antiguidade depois de séculos de esquecimentoÉpoca presente “inglória”, que despreza a mãeEstudos “dignos de um homem livre”O homem escolhe o que quer serO artista como dom divinoO que os documentos mostram ao ladoInocêncio III já explicava a subida a montanhasPetrarca lia Agostinho no alto do monteMecenas era banqueiro, político e pai de cardealPico cita Averróis, Avicena e a CabalaVasari escreve o mito do gênio décadas depois
A coluna da esquerda não é falsa: é o que os humanistas diziam de si. A da direita é o que outras passagens das mesmas fontes acrescentam.

Mapa mental do assunto

Renascimentoe humanismo, nas fontesOs textos antigosCartas de Petrarca a CíceroLívio na véspera, Agostinho no altoLatim nobre, vulgar a cultivarO programaEstudos liberais: história, retóricaFilosofia moral e literaturaPico: o homem se fazDinheiro e poderLourenço: banco, terra e mecenatoFilho cardeal aos 13 ou 14 anosMaquiavel: ser temido é mais seguroErros que a prova cobraRuptura total com a Idade MédiaHumanismo como ateísmoSaber só greco-romano
O ramo destacado reúne os três atalhos mais comuns. Os textos de Petrarca, Pico e Vergerio desmentem cada um deles.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Petrarca (1304-1374)cartas a Cícero (1345); prefere a Antiguidade à própria época
Latim e vulgarlatim mais nobre, mas esgotado; italiano ainda a cultivar (carta de 1366)
Monte Ventouxsubida para ver a paisagem; termina com santo Agostinho
Ressalva do editorInocêncio III já dera o mesmo motivo para subir montanhas
Vergerio (c. 1400)estudos liberais: história, filosofia moral, retórica, literatura
Pico (1486)o homem escolhe o que ser; liberdade como dom de Deus
Fontes de PicoAverróis, Avicena, Al-Farabi, Al-Kindi, Cabala, Zoroastro
Lourenço de Médicigovernante não oficial de Florença, mecenas, banqueiro malsucedido
Filho cardealaos 13 ou 14 anos (as fontes divergem); futuro Leão X
Vasari (1550)biografia de Leonardo; talento como dom divino
Leonardo, segundo Vasarioficina de Verrocchio, Última Ceia, Mona Lisa inacabada, fim na França
Maquiavel (1513)como se vive, não como se deveria viver; mais seguro ser temido
Cada linha remete a um texto lido no artigo.

Fontes

  1. HALSALL, Paul (ed.). Francesco Petrarch: Letters — à Posteridade, a Boccaccio (1366) e a Cícero (1345), trad. J. H. Robinson e H. W. Rolfe (1909). Internet Medieval Sourcebook, Fordham University. Fonte principal deste artigo, como as demais desta lista.
  2. HALSALL, Paul (ed.). Petrarch: The Ascent of Mount Ventoux, com nota do editor; tradução inglesa reproduzida do Hanover Historical Texts Project. Internet Medieval Sourcebook.
  3. HALSALL, Paul (ed.). Petrus Paulus Vergerius: The New Education (c. 1400), trad. W. H. Woodward (1897). Internet Medieval Sourcebook.
  4. HALSALL, Paul (ed.). Giovanni Pico della Mirandola: Oration on the Dignity of Man (1486). Internet Medieval Sourcebook (texto marcado como de domínio público na origem indicada pela página).
  5. HALSALL, Paul (ed.). Lorenzo de Medici: Paternal Advice to a Cardinal (c. 1491), trad. Merrick Whitcomb (1903). Internet Medieval Sourcebook.
  6. HALSALL, Paul (ed.). Niccolò Machiavelli: History of Florence — Lorenzo de' Medici, trad. C. E. Detmold (1882). Internet Medieval Sourcebook.
  7. HALSALL, Paul (ed.). Giorgio Vasari: Life of Leonardo da Vinci (1550), trad. G. du C. de Vere (1912-1914). Internet Medieval Sourcebook.
  8. HALSALL, Paul (ed.). Niccolò Machiavelli: The Prince [excertos] (1513), ed. W. K. Marriott (1908). Internet Medieval Sourcebook.