História Verso
História Geral · Idade Contemporânea

Apartheid na África do Sul

Três anos depois da derrota do nazismo, a África do Sul elegeu um governo que transformou a supremacia branca em sistema legal completo. O apartheid durou mais de quatro décadas, enfrentou uma resistência que mudou de método várias vezes e caiu entre 1990 e 1994 — e os historiadores africanos que o descreveram não sabiam, quando escreviam, como ele terminaria.

1948-199417 min de leitura5 fontes
Placa em praia de Muizenberg, Cidade do Cabo, 1985 · Ullischnulli (Ulrich Stelzner) at de.wikipedia . · June 1985; originally uploaded to de.wikipedia on 2 May 2004.
Placa numa praia de Muizenberg, Cidade do Cabo, fotografada em 1985: em inglês e em africâner, o aviso de que a praia e suas instalações estavam reservadas a brancos, “por ordem do secretário provincial”. A segregação estava escrita, assinada e afixada.
Placa em praia de Muizenberg, Cidade do Cabo, 1985 · 1985 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Antes de 1948, a lei sul-africana já tirava terra, sindicato e direito de greve da população negra. Se a segregação já existia, o que exatamente o apartheid acrescentou — e por que tantos dos seus críticos africanos insistiam que ele era, antes de tudo, um sistema econômico?

Um livro escrito antes do fim
A fonte deste artigo é o volume VIII da História Geral da África, da UNESCO. Os capítulos que analisam o apartheid foram escritos enquanto ele ainda existia: o principal deles para em 1989. O que aconteceu entre 1990 e 1994 vem só de uma cronologia anexada ao volume — e o artigo avisa quando passa a depender dela.

O que já existia antes de 1948

Para o historiador David Chanaiwa, autor do capítulo sobre a África Austral, a questão central não era a cor em si, mas quem ficava com a terra, as minas, os empregos e os serviços públicos. A segregação servia para garantir esse monopólio aos europeus e para conter a concorrência e o nacionalismo africanos.1

Por isso convém olhar a legislação dos anos 1930 pelo lado de quem ganhava com ela.1

  • O fazendeiro branco queria leis que tirassem do africano a terra fértil e o acesso aos serviços agrícolas, mas que lhe deixassem à mão um trabalhador barato. Leis como a de Terras dos Nativos serviam a isso, e a repartição do solo empurrou a população negra para reservas pobres e guetos urbanos, de onde só se saía para trabalhar para os brancos.
  • O operário branco — mineiro, ferroviário, funcionário — queria ser protegido da concorrência. As leis de conciliação industrial não reconheciam o africano sequer como “empregado”: sem sindicato, sem greve, fora das negociações coletivas, sem aposentadoria nem indenização por acidente. Os cargos qualificados eram reservados aos brancos.
  • O produtor rural branco contava ainda com juntas paraestatais de comercialização — de leite, carne, milho, algodão — que boicotavam deliberadamente os produtos africanos, eliminando a concorrência negra no campo.

Chanaiwa resume a lógica numa frase: os brancos votavam em matéria econômica não como patrões ou proletários, mas por serem brancos.1

O trabalhador que vinha de fora

A engrenagem dependia ainda de mão de obra migrante. Recrutadores percorriam Moçambique, a Niassalândia (atual Malaui) e os protetorados britânicos vizinhos, adiantavam dinheiro a camponeses e os levavam a campos de trânsito, onde passavam por exame médico. O contrato durava de 12 a 18 meses; depois, o trabalhador era mandado de volta. No auge, a África do Sul empregava cerca de 600 mil migrantes por ano, e Portugal chegou a recrutar à força em Moçambique.1

O custo ficava nas aldeias de origem, esvaziadas de homens adultos por longos períodos: famílias desfeitas, dependência econômica em relação ao vizinho rico. O gráfico no material de estudo mostra de onde vinha essa gente.1

1948: por que o Partido Nacional venceu

A eleição de 1948 opôs dois partidos brancos. O Partido Unido, de Jan Smuts, representava a burguesia urbana e o capital internacional, majoritariamente de língua inglesa. O Partido Nacional, liderado por Malan, reunia fazendeiros e operários brancos, majoritariamente africâneres. A campanha girou em torno da economia e do “perigo negro”. Malan venceu e instituiu oficialmente o apartheid.1

O ponto que Chanaiwa sublinha é que ingleses e africâneres discordavam sobre o método, não sobre o objetivo: ambos queriam manter a supremacia branca.1

Como o sistema funcionava

Diante de uma oposição negra cada vez mais organizada, o Parlamento, eleito só por brancos e com apoio tácito até dos partidos de oposição, votou nos anos 1950 uma sequência de leis. Cada uma fechava uma porta diferente:1

  • Onde morar — a Lei das Áreas de Grupo (1950) separou todos os sul-africanos em zonas residenciais por raça.
  • O que dizer — a Lei de Supressão do Comunismo (1950) permitia tratar como comunista qualquer pessoa ou grupo que criticasse o apartheid; o próprio Partido Comunista foi banido no mesmo ano. Em 1953, outra emenda penal transformou em infração criticar uma lei ou apoiar campanha contra ela.
  • Como trabalhar — uma lei de 1953 tirou do trabalhador africano o direito a sindicato e a negociação coletiva; a de Minas e Usinas (1956) o barrou dos postos qualificados nas minas.

A peça mais ambiciosa veio depois. Uma comissão oficial, a Tomlinson, propôs a política dos bantustões, transformada em lei em 1959. A população negra seria distribuída em “lares nacionais” por grupo étnico — zulu, xhosa, sotho, tswana, tsonga, venda —, com autonomia interna; defesa, segurança, relações exteriores e orçamento continuavam com a África do Sul branca.1

O efeito jurídico era radical: todo africano que vivesse na África do Sul branca virava residente temporário, sem direitos civis nem direito de possuir bens. Desempregados e “agitadores” eram despachados para o bantustão de origem. Para Chanaiwa, o objetivo era “dividir para reinar”: reacender rivalidades étnicas e fragmentar o nacionalismo africano. Na prática, os bantustões reproduziam as velhas reservas — superpovoamento, erosão, desemprego.1

LembrePor que o bantustão não pode ser lido como uma forma de independência concedida aos africanos?

Porque o centro guardava tudo o que define um Estado soberano — defesa, segurança, política externa e orçamento — e porque o efeito real era tirar do africano os direitos dentro da África do Sul, rebaixando-o a residente temporário no país em que trabalhava. A “autonomia” servia para justificar a exclusão e dividir o movimento nacional por etnia. Tanto que a comunidade internacional, seguindo a OUA, se recusou a reconhecer os bantustões.

A resistência mudou de método

A oposição ao regime não foi uma só, e suas mudanças de estratégia são parte do conteúdo que mais aparece em prova.

Petição, depois massa

Os primeiros dirigentes do Congresso Nacional Africano (CNA) vinham da elite cristã formada nas missões. Agiam por resoluções, delegações e telegramas, e pediam igualdade de direitos para os “homens civilizados” de qualquer cor. Chanaiwa aponta o limite dessa geração: tratava o colonialismo como tragédia moral, sem enxergar o sistema econômico por trás dele.1

Albert Luthuli, retrato de 1967 · Unknown author Unknown author · 1967-07-21
Albert Luthuli em 1967. O chefe Luthuli foi o porta-voz mais popular do CNA nos anos 1950 e recebeu o Nobel da Paz. Na década, o congresso endureceu o tom sem abandonar os métodos do entreguerras.
Albert Luthuli, retrato de 1967 · 1967 · Wikimedia Commons · CC0

Em 1943, Anton Lembede fundou a Liga da Juventude do CNA, com jovens que cobravam sufrágio universal e desconfiavam da aliança com brancos liberais. Em 1949, o CNA formou com indianos, mestiços e brancos liberais a Aliança dos Congressos; em 1952, uma campanha nacional de protestos terminou com 8.500 presos. Em 1955, o Congresso do Povo aprovou a Carta da Liberdade, projeto de uma África do Sul unida e não racista.1

O governo respondeu com o Processo por Traição: 156 dirigentes presos em 1956, num julgamento que se arrastou até 1961. Em 1953, numa convenção do CNA, Nelson Mandela advertira que não havia, para os negros sul-africanos, “nenhum caminho totalmente traçado rumo à liberdade”.1

Sharpeville: o fim da via pacífica

Em abril de 1959, um grupo rompeu com o CNA e fundou o Congresso Pan-Africano (PAC), presidido por Robert Sobukwe. O PAC recusava uma frente multirracial dirigida por brancos e via a África do Sul como país africano.1

Robert Sobukwe à frente de uma marcha contra o apartheid, antes de abril de 1960 · Unknown author Unknown author · before April 1960
Robert Sobukwe, de mão erguida, à frente de uma marcha contra o apartheid; a foto é datada apenas como anterior a abril de 1960. Na campanha de março daquele ano, ele pediu que os homens saíssem sem o passe e, se presos, não pagassem fiança nem multa.
Robert Sobukwe à frente de uma marcha contra o apartheid, antes de abril de 1960 · 1960 · Wikimedia Commons · Public domain

Em março de 1960, o PAC lançou uma campanha contra as leis do passe, o documento que controlava a circulação dos africanos: os homens deviam sair sem ele e se entregar à prisão. Em Sharpeville, policiais armados de fuzis abriram fogo contra uma multidão desarmada de 10 mil a 20 mil pessoas. Morreram 72; outras 186 ficaram feridas, entre elas 40 mulheres e 8 crianças. O governo atribuiu os protestos a um complô comunista e baniu o CNA e o PAC.1

Armas, prisão e exílio

Na ilegalidade, Mandela, Walter Sisulu e outros criaram o Umkhonto we Sizwe, “Ponta de Lança da Nação”, movimento clandestino armado ligado ao CNA; o PAC formou o seu, o Poqo. A polícia invadiu o quartel-general clandestino em Rivonia, perto de Joanesburgo, em 1963, e os dirigentes foram julgados. Mandela recebeu prisão perpétua e passaria mais de um quarto de século encarcerado.132 Os movimentos instalaram suas bases fora do país, e a luta armada na região começou por volta de 1964.1

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Em 1959, a criação do Congresso Pan-Africano (PAC), separado do Congresso Nacional Africano (CNA), expressou uma divergência dentro da oposição ao apartheid. Essa divergência dizia respeito principalmente:
  1. Incorreta. Os dois movimentos combatiam os bantustões. A política foi denunciada como forma de dividir o nacionalismo africano por etnia.

  2. Incorreta. Em 1959 o CNA ainda seguia a via não violenta; seu braço armado só surgiu depois de Sharpeville e do banimento de 1960.

  3. Correta. É o núcleo da ruptura: o CNA formara a Aliança dos Congressos com indianos, mestiços e brancos liberais; Sobukwe e o PAC queriam o fim da supremacia branca sob direção africana e o pan-africanismo.

  4. Incorreta. A população negra não votava, e o PAC combatia o regime que o Partido Nacional instalara em 1948.

  5. Incorreta. A saída do Commonwealth, em 1961, foi decisão do governo branco, e não ponto de divergência entre os movimentos negros.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Consciência Negra e Soweto

Com CNA e PAC na clandestinidade, a resistência dentro do país mudou de rosto. Steve Biko, estudante de medicina em Natal, decepcionado com a união estudantil multirracial, fundou em julho de 1969 a Organização dos Estudantes Sul-Africanos (SASO), para que os estudantes negros agissem “por si mesmos”. O movimento da Consciência Negra difundiu Nkrumah, Fanon, Malcolm X, Amílcar Cabral e a negritude de Senghor e Césaire, e aproximou estudantes e operários.1

Policiais apontam armas contra manifestantes em Soweto, 16 de junho de 1976 · Unknown author Unknown author · June 16, 1976
Policiais apontam armas contra manifestantes em Soweto, em 16 de junho de 1976, em reprodução de jornal norte-americano do mesmo dia. A revolta estudantil abriu meses de protestos e greves nas cidades do país.
Policiais apontam armas contra manifestantes em Soweto, 16 de junho de 1976 · 1976 · Wikimedia Commons · Public domain

Entre junho e dezembro de 1976, manifestações e greves sacudiram as cidades, sobretudo Soweto, onde, pela conta do capítulo, 23 pessoas foram mortas e 200 feridas pela polícia. Biko foi preso e morreu na prisão, torturado pela polícia, em 12 de setembro de 1977. Um mês depois, o governo dissolveu a SASO e outras 16 organizações e fechou o jornal The World.1

As mulheres na linha de frente
Ali Mazrui lembra que mulheres participaram da desobediência civil desde que Gandhi a iniciou em Durban, em 1906, e estiveram entre os mortos de Sharpeville e de Soweto. Winnie Mandela sustentou a resistência com o marido preso; a deputada Helen Suzman combateu o apartheid por 36 anos no Parlamento; e movimentos de mulheres, como o Black Sash, combateram o racismo.2

Quem sustentava e quem isolava o regime

O apartheid não era assunto só interno. A África do Sul administrava a Namíbia — antiga colônia alemã posta em 1920 sob mandato da Sociedade das Nações — e aplicava ali as mesmas leis. A Assembleia Geral da ONU declarou a ocupação ilegal em 1966, e a Corte Internacional de Justiça deu razão à ONU em 1971; Pretória ignorou ambas.1

Na Guerra Fria, o regime contou com apoio diplomático e material de Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Alemanha Ocidental; os movimentos de libertação, com a OUA, os países não alinhados, a URSS, a China e os países escandinavos. Quando Angola e Moçambique se tornaram independentes, em 1975, Pretória perdeu seus territórios-tampão e passou a armar a UNITA e a guerrilha antigovernamental moçambicana para desestabilizar os vizinhos.1

Do outro lado, a pressão africana foi metódica. O grupo africano na ONU, formado em 1958, levou os Estados Unidos a votar pela condenação da África do Sul em vez de se abster. Depois de Sharpeville, o Conselho de Segurança aprovou, em 1º de abril de 1960, uma resolução exigindo o abandono do apartheid. Em 1963, a recém-criada OUA decidiu romper relações diplomáticas e comerciais com Pretória e fechar portos e aeroportos aos sul-africanos. ONU, UNESCO e OIT criaram comitês antiapartheid. Mazrui resume: graças aos Estados africanos, ficou impossível para a África do Sul alegar que o apartheid era assunto interno.432

LembrePor que nem todos os países africanos aderiram ao boicote decidido pela OUA em 1963?

Segundo o capítulo sobre pan-africanismo, alguns vizinhos dependiam economicamente da África do Sul por laços herdados da colonização — pense nos milhares de migrantes que trabalhavam nas minas sul-africanas. Esses Estados se declaravam neutros e apoiavam os movimentos de libertação em segredo. A dependência que o sistema migrante criara acabava protegendo o regime.

Sanções e o debate sobre o capitalismo

Em 1981, uma conferência da ONU com a OUA, em Paris, reuniu 122 governos e pediu sanções obrigatórias; o Conselho de Segurança não as pôs em vigor.3 Mesmo assim, empresas como IBM, General Motors, Barclays, Coca-Cola e Kodak retiraram investimentos, sob pressão da opinião pública ocidental.2

Mazrui propõe duas ideias úteis para pensar esse período. A primeira separa o boicote expressivo, que é um julgamento moral e levanta o ânimo dos oprimidos, do instrumental, que pretende forçar mudança política — e que, para ele, levaria o regime a se liberalizar, não a se democratizar. A segunda é que a aliança entre capitalismo e apartheid estava se desfazendo: um país com mercado consumidor negro, mão de obra qualificada e estabilidade daria mais lucro do que um país em revolta. A vitória contra o apartheid, avisava ele, não seria necessariamente uma vitória contra o capitalismo.2

Como terminou — e o que o livro não viu

Escrevendo nos anos 1980, Mazrui previa que o regime só cairia por uma luta armada organizada dentro do país. Chanaiwa fecha seu capítulo nas eleições brancas de 1989, quando o consenso branco começava a se partir à direita e à esquerda.21

O que veio depois aparece apenas na cronologia anexada ao volume, sem análise. Ela registra uma sequência de atos legais e eleitorais: em 2 de fevereiro de 1990, a legalização do CNA, do PAC e do Partido Comunista; em 11 de fevereiro, a libertação de Mandela; em 1991, o anúncio da eliminação oficial do apartheid; em março de 1992, a aprovação de um referendo pelo fim do regime; em 1993, o Nobel da Paz dividido entre Mandela e Frederik de Klerk e a primeira Constituição pós-apartheid; e, em 1994, as primeiras eleições do novo regime, vencidas pelo CNA por ampla maioria. Mandela foi proclamado presidente em 9 de maio de 1994.5

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Historiadores africanos que escreveram nos anos 1980 sobre a África do Sul destacaram que, antes de 1948, leis já reservavam terras, empregos qualificados e direitos sindicais aos brancos. Essa constatação permite concluir que o apartheid:
  1. Correta. É a leitura de Chanaiwa: a lei dos anos 1930 já confinava africanos em reservas e os excluía de sindicatos; o apartheid organizou isso num sistema completo, das zonas residenciais aos bantustões.

  2. Incorreta. Não havia igualdade formal: os africanos não eram reconhecidos como empregados nas leis trabalhistas e estavam confinados a reservas desde antes.

  3. Incorreta. Os capítulos da UNESCO enfatizam justamente o oposto: o monopólio branco sobre terra, minas e empregos estava no centro do sistema.

  4. Incorreta. O apartheid foi implantado por um partido eleito pelos brancos sul-africanos, majoritariamente africâneres, que inclusive defendia a república e a saída do Commonwealth.

  5. Incorreta. Mazrui registra que IBM, General Motors, Barclays, Coca-Cola e Kodak retiraram investimentos, e argumenta que o capitalismo passava a lucrar mais com o fim do regime.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • 1948 não inventou a segregação — as leis de terras e de relações de trabalho dos anos 1930 já excluíam os africanos. O apartheid sistematizou e endureceu o que existia, acrescentando a classificação residencial, a criminalização da crítica e os bantustões.
  • Raça e economia andavam juntas — para Chanaiwa, o centro do sistema era o monopólio branco sobre terra, minas, empregos e serviços. Ler o apartheid só como preconceito apaga o fazendeiro, o operário e a mineradora que lucravam com ele.
  • Bantustão não era independência — a autonomia era interna; defesa, segurança, política externa e orçamento ficavam com Pretória. O efeito foi transformar o africano em estrangeiro no próprio país.
  • A resistência teve muitos rostos — CNA, PAC, sindicatos, igrejas africanas independentes, Consciência Negra, movimentos de mulheres. Mandela é o mais conhecido, mas Luthuli, Sobukwe, Sisulu e Biko são igualmente cobrados.
  • O Ocidente não foi neutro — Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Alemanha Ocidental apoiaram diplomática e materialmente os governos brancos da região durante boa parte da Guerra Fria, e o Conselho de Segurança não adotou as sanções obrigatórias pedidas em 1981.
  • Números com autor — os 72 mortos de Sharpeville e os 23 de Soweto são os dados do capítulo de Chanaiwa. Contagens de mortos em repressão policial são frequentemente disputadas, e o artigo apresenta esses números como os da fonte.
Onde este artigo para
O artigo para nas eleições de 1994 e não afirma nada posterior. Ficam de fora, por falta de fonte analítica no volume: como foram as negociações de 1990 a 1994, o papel de De Klerk além do registro do Nobel, a violência do período de transição e a Comissão da Verdade. O volume também diverge sobre a data exata de Sharpeville (o texto põe o início da campanha em 21 de março; a legenda de uma foto, em 28), e por isso o artigo diz apenas “março de 1960”. A Rodésia, Angola e Moçambique só aparecem no que tocam a África do Sul.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

De 1948 a 1994

1948PartidoNacionalvence;apartheidvirapolíticaoficial1950Lei de zonasresidenciaispor raça1955Congresso doPovo aprovaa Carta daLiberdademar 1960Sharpeville:72 mortos;CNA e PACbanidos1963Batida emRivonia;dirigentesdo CNAjulgados1976Revoltaestudantilem Soweto1990CNAlegalizado;Mandelalibertado1994Primeiraseleiçõespós-apartheidQuarenta e seis anos entre a vitória eleitoral do Partido Nacional e a posse de Mandela. Os dois marcos em destaque abrem e fecham o regime.
Repare no intervalo entre Rivonia e 1990: quase três décadas em que os principais dirigentes estiveram presos ou exilados, e a resistência interna foi reconstruída por estudantes.

CNA e PAC: a mesma luta, dois projetos

CNA: a frente multirracialAliança com indianos, mestiços e brancosCarta da Liberdade, de 1955País livre, unido e não racistaLuthuli como porta-vozApós o banimento: Umkhonto we SizwePAC: a África é africanaRompe com o CNA em abril de 1959Recusa direção de brancos, mesmo aliadosFim da supremacia branca e pan-africanismoSobukwe como fundadorCampanha contra o passe, 1960
A divergência não era sobre o fim do apartheid, que ambos queriam, mas sobre quem dirigiria a luta e com quem.

De onde vinham os migrantes

Niassalândiamais de 280 milMoçambique~220 milBasutolândia~210 milBotsuana~60 milZâmbia~40 milSuazilândia~30 milmilhares de trabalhadores migrantes registrados por ano (auge)
Os maiores fornecedores eram territórios vizinhos, não a própria África do Sul. A dependência que isso criou explica por que alguns desses países não puderam aderir ao boicote de 1963.

Mapa mental do assunto

Apartheid1948-1994A máquina legalZonas residenciais por raça (1950)Crítica ao regime = “comunismo”Africano sem sindicato nem greveBantustões (1959)A resistênciaCNA, Carta da Liberdade (1955)PAC e campanha contra o passeLuta armada após 1960Consciência Negra e SowetoO mundoONU condena após SharpevilleOUA rompe relações em 1963Ocidente apoiava o regimeDesinvestimento de empresasErros que a prova cobraA segregação legal é anterior a 1948Não foi só racismo: era economiaBantustão não era independênciaMandela não estava sozinho
O ramo destacado reúne os erros mais comuns. Os dois primeiros tratam o apartheid como surto de preconceito, quando os capítulos o descrevem como sistema econômico e legal.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Antes de 1948leis de terras e de trabalho já excluíam os africanos
Trabalho migrantec. 600 mil por ano no auge; contratos de 12 a 18 meses
1948vitória do Partido Nacional; apartheid vira política oficial
Base do Partido Nacionalfazendeiros e operários brancos, majoritariamente africâneres
Partido UnidoSmuts; burguesia urbana anglófona
1950zonas residenciais por raça; supressão do comunismo
1953 e 1956fim do sindicato africano; barreira a cargos qualificados nas minas
1959lei dos bantustões; africano vira residente temporário
Liga da Juventude do CNA1943, Anton Lembede
1952campanha nacional de protesto; 8.500 presos
1955Carta da Liberdade, no Congresso do Povo
1956-1961Processo por Traição contra 156 dirigentes
1959fundação do PAC por Robert Sobukwe
Março de 1960Sharpeville: 72 mortos e 186 feridos
1º de abril de 1960Conselho de Segurança exige abandono do apartheid
1961África do Sul sai do Commonwealth e vira república
Umkhonto we Sizwemovimento armado clandestino fundado por Mandela, Sisulu e outros
Rivoniabatida em 1963; Mandela condenado à prisão perpétua
1963OUA decide romper relações e boicotar a África do Sul
1969Biko funda a SASO; nasce a Consciência Negra
1976revolta em Soweto
12/9/1977Biko morre na prisão, torturado pela polícia
Apoio ao regimeEUA, Grã-Bretanha, França e Alemanha Ocidental
1981conferência de Paris pede sanções obrigatórias; não aplicadas
1990CNA legalizado; Mandela libertado
1992referendo pelo fim do apartheid
1993Nobel a Mandela e De Klerk; Constituição pós-apartheid
9 de maio de 1994Mandela proclamado presidente após vitória do CNA
Cada linha responde a uma pergunta frequente sobre o regime e sua queda.

Fontes

  1. CHANAIWA, David. “A África Austral”. In: MAZRUI, Ali A.; WONDJI, Christophe (ed.). História Geral da África, VIII: África desde 1935. Brasília: UNESCO, 2010, cap. 10, p. 295-334. Fonte principal deste artigo.
  2. MAZRUI, Ali A. “Introdução” e “‘Procurai primeiramente o reino político...’”. In: História Geral da África, VIII. Brasília: UNESCO, 2010, cap. 1, p. 1-30, e cap. 5, p. 125-150.
  3. KODJO, Edem; CHANAIWA, David. “Pan-africanismo e libertação”. In: História Geral da África, VIII. Brasília: UNESCO, 2010, cap. 25, p. 897-924.
  4. KOUASSI, Edmond Kwam. “A África e a Organização das Nações Unidas”. In: História Geral da África, VIII. Brasília: UNESCO, 2010, cap. 29, p. 1053-1094.
  5. “Posfácio: cronologia da atualidade africana nos anos 1990”. In: História Geral da África, VIII. Brasília: UNESCO, 2010, p. 1133-1142. Única fonte do artigo para 1990-1994.