História Verso
História Geral · Idade Média

Impérios asteca e inca

Um mercado com sessenta mil pessoas por dia, contas guardadas em cordões com nós, estradas de mais de mil léguas. Quase tudo o que se lê sobre mexicas e incas passou pela mão de quem os derrubou — e aprender a ler essas fontes é metade do assunto.

séc. XV-XVI14 min de leitura6 fontes
Tenochtitlan na gravura de Nuremberg, 1524 · Friedrich Peypus (1485–1534), probably after drawing made by one of Cortez' men. · 1524
Tenochtitlan na gravura impressa em Nuremberg, em 1524, com a edição latina das cartas de Cortés: a cidade no meio do lago, as calçadas que a ligavam à terra firme e, no centro, o recinto do templo. É a cidade vista pela primeira vez na Europa — e vista pelo lado de quem a atacou.
Tenochtitlan na gravura de Nuremberg, 1524 · 1524 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Em 1520, Hernán Cortés escreveu ao imperador Carlos V que não conseguiria contar nem a centésima parte do que tinha visto na capital dos mexicas — e que, mesmo assim, o relato pareceria inacreditável. Essa carta é uma das melhores descrições de Tenochtitlan que existem. Foi escrita pelo homem que a estava conquistando. Como estudar dois impérios cuja imagem chegou até nós, quase toda, pela mão de quem os destruiu?

Esse é o problema central do assunto, e ele não se resolve ignorando as fontes espanholas: sem elas, quase nada se sabe. Ele se resolve lendo cada texto com duas perguntas ao lado — o que este autor viu e o que ele queria provar. É o que este artigo faz, fonte por fonte, primeiro no vale do México, depois nos Andes.

De onde vem o que se lê aqui
Cartas, crônicas e cantos escritos na época, mais as notas de quem os publicou — o Internet History Sourcebooks Project, da Universidade Fordham, e edições em domínio público do Project Gutenberg — são a base de tudo aqui. Sem obra de historiador amarrando as peças, o resultado é provisório e será revisto quando houver bibliografia. E há um desequilíbrio que precisa ser dito logo: a maior parte das fontes é espanhola. As vozes indígenas aparecem onde existe tradução livre — e são marcadas como tais.

Uma cidade sobre a água, descrita pelo invasor

Na apresentação do Sourcebook, o ponto de partida é este: em 1519 Cortés saiu de Cuba, desembarcou no México e marchou até a capital.2 A carta do ano seguinte começa pela geografia. A cidade, que ele chama de Temixtitlan, ficava dentro de um lago salgado, a duas léguas da margem, e se ligava à terra por quatro calçadas artificiais. Tinha, diz ele, o tamanho de Sevilha ou de Córdoba. Muitas ruas eram metade terra, metade água, percorridas por canoas; a água doce chegava por um aqueduto de dois canos, um em uso e outro de reserva para a limpeza.1

O que mais impressiona o conquistador é o mercado. Numa praça duas vezes maior que a de Salamanca, “mais de sessenta mil almas” compravam e vendiam todos os dias: comida, ouro, prata, plumas, ervas medicinais, cerâmica, fio de algodão tingido. Cada mercadoria tinha rua própria; vendia-se por contagem e por medida, não por peso. Dez ou doze juízes resolviam as disputas ali mesmo, e fiscais circulavam conferindo as medidas — e quebravam as falsas.1

Note o tom. Cortés escreve que as maneiras daquela gente eram tão corretas quanto as da Espanha, “considerando que são bárbaros, sem conhecimento de Deus”.1 A admiração é real, e o preconceito também; os dois cabem na mesma frase. E a carta tem um destinatário: o rei que precisava aprovar o que Cortés fazia. Logo depois de descrever as calçadas, ele conta que mandou construir quatro bergantins, por medo de ficar preso na ilha se os moradores retirassem as pontes.1

Página de tributo do Códice Mendoza · autoria não identificada · 2009-06-23 22:23:04
Página de tributo do Códice Mendoza. À esquerda, os glifos das cidades que pagavam; ao centro, o que deviam — colares de pedras verdes, maços de plumas, cem cargas de cacau, vinte peles de felino. As anotações em espanhol mostram que esta cópia foi feita depois da conquista.
Página de tributo do Códice Mendoza · 2009 · Wikimedia Commons · Public domain

O que sustentava Tenochtitlan: o tributo

A riqueza da capital vinha de fora dela. Cortés descreve um domínio que, pelo que pôde apurar, tinha a extensão da própria Espanha, com mensageiros obedecidos a duzentas léguas. Em cada província havia fortalezas com guarnição, governadores e cobradores de tributo, e as contas do que cada uma devia eram guardadas em papel, com “caracteres e figuras”. Cada província pagava com o que produzia.1

Dois detalhes da mesma carta ajudam a entender que tipo de império era esse. Os senhores das províncias passavam parte do ano na capital e mantinham os filhos mais velhos a serviço de Moctezuma. E havia províncias “no meio de terras com as quais ele estava em guerra”.1 Não era um território contínuo e pacificado: era uma rede de cidades obrigadas a pagar, cercada de vizinhos inimigos.

A religião aparece na carta pelo mesmo filtro. Cortés descreve o grande templo — um recinto onde caberia uma vila de quinhentas famílias, com cerca de quarenta torres — e os sacrifícios humanos. Em seguida conta que derrubou as imagens dos deuses escadaria abaixo e pôs no lugar as de Nossa Senhora e dos santos.1 A descrição do sacrifício e a justificativa da destruição chegam juntas, no mesmo parágrafo, escritas pela mesma mão.

Nem todo indígena era mexica

Há uma voz que complica a imagem do império visto de dentro. Os Cantares Mexicanos, um manuscrito com cantos em nauatle escritos em alfabeto latino nos séculos 16 e 17, foram em parte editados por Daniel Brinton em 1887.3 Um deles, segundo Brinton, foi composto por um prisioneiro de Huexotzinco, cidade em guerra frequente com os mexicas, preso com seus companheiros em Tlatelolco. O editor o data de por volta de 1511 e diz que o canto “respira ódio aos captores”:

“Só flores tristes, cantos tristes há aqui no México, em Tlatelolco; só isso aqui se conhece.”
Cantar de Huexotzinco, em Ancient Nahuatl Poetry, ed. Daniel G. Brinton (1887). Tradução nossa a partir da versão inglesa do editor.

O mesmo canto anuncia que Tenochtitlan um dia ficará deserta.3 A atribuição e a data são hipóteses de um editor do século 19, e devem ser lidas como tais. Mas o canto lembra algo que a carta de Cortés também deixa escapar: os povos do vale do México não eram um bloco, e muitos viviam sob o tributo mexica contra a vontade.

A mesma coleção guarda outro registro, de outro lugar social. Um cantar atribuído a Nezahualcoyotl, rei de Texcoco morto em 1472 aos oitenta anos, segundo Brinton, é uma meditação sobre a morte: “por isso choro, eu, Nezahualcoyotl, porque hei de ir, hei de me perder na morte”.3 O próprio editor avisa que não convém perguntar demais se os sessenta cantos atribuídos ao rei eram de fato dele.3

LembreQue dois fatos, um da carta de Cortés e outro dos cantares, mostram que o domínio mexica não era aceito por todos?

Cortés diz que algumas províncias do domínio de Moctezuma ficavam no meio de terras com que ele estava em guerra, e que os filhos dos senhores ficavam a serviço do soberano. O cantar de Huexotzinco, segundo Brinton, foi composto por um prisioneiro de guerra em Tlatelolco e expressa ódio aos captores.

O encontro, contado pelos dois lados

Os relatos em nauatle reunidos pelo antropólogo mexicano Miguel León-Portilla — alguns, diz o editor do Sourcebook, escritos pouco depois da conquista — narram a chegada de Cortés à capital.2 Neles, Moctezuma recebe o capitão como quem devolve um trono: “vieste sentar-te no teu trono”, os reis anteriores apenas o guardaram para ti. A tradutora é La Malinche, que verte a fala para o espanhol.2

A carta de Cortés traz uma cena parecida por outro caminho: ali, Moctezuma diz que os antepassados dos mexicas tinham vindo de fora, que talvez tivessem caído em erro, e que seguiriam o que o recém-chegado ensinasse.1 Repare: as duas versões foram escritas depois dos fatos, e as duas põem na boca de Moctezuma palavras de entrega. Coincidência de memória, ou história contada depois da derrota? As fontes deste artigo não permitem decidir — e a pergunta vale mais que uma resposta apressada.

O relato nauatle traz também um episódio que o trecho da carta de Cortés lido aqui não menciona. Durante a festa de Huitzilopochtli, no pátio do templo, os espanhóis atacaram os dançarinos e cantores, que estavam desarmados, e os mataram; segundo o texto, a matança durou três horas. Moctezuma, já prisioneiro, protesta:

“Senhores nossos, basta! O que estais fazendo? Esta gente não traz escudo nem maça. Senhores nossos, estão completamente desarmados!”
Relato nauatle em M. León-Portilla (ed.), The Broken Spears (1962), via Internet Modern History Sourcebook. Tradução nossa a partir da versão inglesa.

O relato termina dizendo que, no dia seguinte, os mexicas atacaram “com todas as forças” — “e esse foi o começo da guerra”.2 O que veio depois, a queda da cidade e a construção do domínio espanhol, é assunto do artigo sobre a colonização.

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Na carta de 1520 ao imperador, Hernán Cortés elogia o mercado de Tenochtitlan, seus juízes e fiscais, e afirma que os modos dos moradores eram tão corretos quanto os da Espanha, “considerando que são bárbaros, sem conhecimento de Deus”. Na mesma carta, conta que derrubou as imagens do templo principal. Ao usar esse documento, o historiador deve considerar que ele:
  1. Incorreta. Ser testemunha não torna o autor neutro. Cortés escrevia ao rei que precisava aprovar suas ações, e a carta mistura descrição e justificativa.

  2. Correta. É a leitura que o texto sustenta: a mesma frase elogia e chama de bárbaros, e a descrição do sacrifício vem colada à justificativa da destruição das imagens.

  3. Incorreta. A carta registra protestos de Moctezuma e dos moradores contra a retirada das imagens, e o relato nauatle descreve a guerra que começou depois do massacre no templo.

  4. Incorreta. Descartar a fonte seria perder a melhor descrição do mercado e do tributo que existe. O caminho é lê-la criticamente, não jogá-la fora.

  5. Incorreta. Nada nas fontes lidas sustenta isso. Cortés compara a cidade a Sevilha e Córdoba; o exagero possível é uma hipótese, não uma conclusão autorizada pelo texto.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Nos Andes, um Estado que contava com nós

Para os incas, a fonte mais rica deste artigo é Pedro de Cieza de León, que o editor do Sourcebook apresenta como conquistador. Cieza se diz incrédulo diante do que lhe contavam sobre os quipus, cordões com nós com que os incas faziam contas. Os nós contavam de um a dez, de dez a cem, de cem a mil; cada ramal guardava a conta de uma coisa; em cada capital de província havia contadores, os quipucamayos. A precisão era tal, diz ele, que “nem um par de sandálias se podia esconder”.5

O que o convenceu foi um senhor andino. Em Xauxa, Cieza pediu a Guacarapora que lhe mostrasse uma conta. O senhor mandou buscar os quipus e lhe apresentou, sem faltar nada, tudo o que a sua gente tinha entregue aos espanhóis desde que Francisco Pizarro entrara no vale: ouro, prata, roupa, milho, gado.5 O instrumento de governo inca virou instrumento de registro da conquista — mantido por um indígena, em código que o espanhol não sabia ler.

O contador-mor dos incas, desenho de Guaman Poma de Ayala, c. 1615 · Felipe Guaman Poma de Ayala · circa 1615
O contador-mor do Estado inca, em desenho do autor andino Felipe Guaman Poma de Ayala, de por volta de 1615. A legenda escreve “Tavantin suio”; o contador segura um quipu e, no canto, há um tabuleiro de cálculo.
O contador-mor dos incas, desenho de Guaman Poma de Ayala, c. 1615 · 1615 · Wikimedia Commons · Public domain

Cieza descreve o resto do aparelho com a mesma mistura de espanto e método. Todo ano, os chefes de aldeia levavam ao Cuzco quipus com os nascimentos e as mortes; assim o governo sabia quem podia pagar tributo e quantos homens podia chamar para a guerra. Havia depósitos em todas as províncias, abertos em ano de fome e reabastecidos em ano de fartura.4 As estradas tinham cerca de quinze pés de largura, e havia caminho com mais de mil e cem léguas; cada província construía o trecho que lhe cabia. A cada meia légua havia uma casinha com dois corredores, e a notícia viajava de posto em posto, mais depressa, garante Cieza, do que viajaria a cavalo.5

Um chasqui, mensageiro do correio inca, por Guaman Poma de Ayala, c. 1615 · Felipe Huaman Puma de Ayala · circa 1615
Um chasqui, mensageiro do correio a pé, desenhado por Guaman Poma de Ayala. Sopra uma concha para avisar o posto seguinte e leva um quipu pendurado na bolsa.
Um chasqui, mensageiro do correio inca, por Guaman Poma de Ayala, c. 1615 · 1615 · Wikimedia Commons · Public domain

Ordem para quem? O outro lado do elogio

O mesmo Cieza registra o custo dessa ordem. Os incas transferiam populações inteiras: os mitimaes eram gente tirada da própria terra e assentada em outra. Uma parte servia para vigiar províncias recém-conquistadas; outra guarnecia fronteiras; outra povoava vales férteis vazios. O objetivo, diz ele, era que nenhum povo pudesse se rebelar sem ser denunciado — e havia espiões para isso. Revoltas eram punidas, e “alguns” incas castigavam “sem temperança e com grande crueldade”.5

A língua também foi imposta. Sob penas graves, todos deviam aprender a língua do Cuzco, ensinada às crianças desde o peito da mãe; em poucos anos, diz Cieza, ela era falada em mais de mil e duzentas léguas, sem que os povos deixassem as suas próprias.5 E Cieza atribui o correio e os mitimaes a um governante específico, Inca Yupanqui, “segundo publicam os cantares dos índios”.5

E então o soldado faz uma comparação que não se espera de um conquistador:

“Não é pequena dor considerar que, sendo aqueles incas gentios e idólatras, tivessem tão boa ordem para governar e conservar terras tão vastas, e nós, sendo cristãos, tenhamos destruído tantos reinos.”
Pedro de Cieza de León, Segunda parte de la Crónica del Perú, cap. XXII. Tradução nossa do original espanhol.

A história oficial dos incas — e quem a encomendou

A cronologia dos reis incas vem, em grande parte, de Pedro Sarmiento de Gamboa. Segundo Clements Markham, que a traduziu em 1907, a obra foi preparada em 1572 por ordem do vice-rei Francisco de Toledo. Os descendentes dos incas no Cuzco foram chamados a depor sob juramento; o livro pronto foi lido a eles, capítulo por capítulo, na sua língua, e eles sugeriram correções que foram aceitas.6

Markham aponta também o que chama de “mancha” da obra: Toledo queria provar que o rei da Espanha era o soberano legítimo do Peru porque os incas teriam sido usurpadores e tiranos — e acrescentou ao texto passagens para difamá-los.6 O resultado é um livro com duas camadas. Uma conserva a memória das linhagens incas. A outra serve ao vice-rei — e conta, por exemplo, que a “tirania” durou de 565 a 1533, ou que Pachacuti viveu 125 anos e reinou 103.6

Mesmo assim, é nesse livro que sobrevive uma voz inca. Sarmiento conta que Pachacuti, ao morrer, cantou em voz baixa, na própria língua, versos que ele registra em castelhano:

“Nasci como flor do campo, como flor fui cuidado na juventude, cheguei à idade plena, envelheci, e agora estou seco e morro.”
Canto atribuído a Pachacuti Inca Yupanqui, em Pedro Sarmiento de Gamboa, História dos Incas (1572). Tradução nossa a partir da versão inglesa de Clements Markham.

Na frase seguinte, Sarmiento diz que o inca entregou “a alma ao demônio”.6 O canto e o insulto estão a uma linha de distância.

Quipu inca, Museu Larco, Lima · Claus Ableiter nur hochgeladen aus enWiki · 2007-10-29
Quipu inca do Museu Larco, em Lima. Cordões com nós presos a um cordão principal — o mesmo instrumento que Guacarapora usou para mostrar a Cieza tudo o que os espanhóis tinham levado.
Quipu inca, Museu Larco, Lima · 2007 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

O império já estava em crise antes de Pizarro

Sarmiento registra um dado que muda a imagem de uma conquista fácil. Uma grande peste atingiu o Cuzco e matou os governadores da cidade; o inca Huayna Capac adoeceu em Quito, de febre, “embora outros digam que foi varíola ou sarampo”, e morreu — em 1524, segundo Sarmiento. O herdeiro que ele indicara morreu da mesma peste.6

Sem sucessão clara, dois filhos do inca, Huascar e Atahualpa, entraram em guerra. Quando os espanhóis chegaram, Atahualpa já tinha o irmão prisioneiro. Sarmiento conta que, preso por Pizarro em Cajamarca e temendo que o irmão fosse reconhecido como senhor legítimo, Atahualpa mandou matá-lo, em 1533.6 O Estado que Cieza admira chegou ao encontro com os europeus dividido e atingido por doença.

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Em 1572, Pedro Sarmiento de Gamboa escreveu uma história dos incas por ordem do vice-rei Francisco de Toledo, com base em depoimentos de descendentes dos incas, que ouviram e corrigiram o texto. Segundo o tradutor Clements Markham, Toledo queria provar que os incas eram usurpadores e acrescentou passagens para difamá-los. A partir disso, conclui-se que a obra:
  1. Incorreta. O livro conserva a memória das linhagens incas, recolhida de testemunhas que corrigiram o texto. Ter intenção não anula a informação; exige separá-la.

  2. Incorreta. A aprovação foi parcial: o vice-rei acrescentou depois passagens para difamar os incas, e o livro servia a um argumento colonial.

  3. Incorreta. A acusação de tirania é justamente a tese que Toledo queria provar. Repetir a conclusão do texto é aceitar o argumento do vice-rei sem crítica.

  4. Incorreta. É o contrário: segundo Markham, Toledo usou a obra como resposta a Las Casas, defendendo o direito do rei da Espanha sobre o Peru.

  5. Correta. É a leitura que o próprio tradutor propõe. Números como os 125 anos de vida de Pachacuti, ou a “tirania” de 565 a 1533, mostram que nem tudo pode ser aceito ao pé da letra.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • “Asteca” ou mexica? — nos cantares em nauatle, o povo de Tenochtitlan se chama mexica. “Asteca” é o nome que se consagrou depois; o artigo usa os dois, com preferência pelo primeiro.
  • Quase tudo vem do vencedor — carta de conquistador, crônica de soldado, história encomendada por vice-rei. As vozes indígenas existem, mas são poucas, traduzidas e, às vezes, filtradas por editores europeus. Isso não invalida as fontes; obriga a lê-las com cuidado.
  • Sacrifício humano — Cortés o descreve, e não há motivo para negar que existisse. Mas a descrição vem colada à justificativa da destruição dos templos — é preciso separar o registro do uso que o autor faz dele.
  • O império “sem pobres” — a imagem vem de Cieza, que a usa para acusar os espanhóis. O mesmo autor registra deslocamento forçado de populações, espiões, língua imposta sob pena e castigos cruéis.
  • “Recebidos como deuses” — as falas de entrega atribuídas a Moctezuma aparecem em textos escritos depois da derrota, de um lado e de outro. Sarmiento diz que Atahualpa chegou a ser levado a crer que os espanhóis eram deuses — e que, ao ver que não eram, preparou seus guerreiros para resistir. Tratar esses relatos como prova de credulidade indígena é ir além do que as fontes permitem.
Onde este artigo para
Este artigo trabalha com poucas fontes, quase todas espanholas, e isso deixa lacunas grandes. Não há aqui arqueologia, nem datas de fundação de Tenochtitlan ou do Cuzco — nenhuma fonte lida as fornece, e a data do sumário não é afirmada. Não se trata da Tríplice Aliança, da organização das mulheres e da família, do calendário ou da religião andina (Cieza tem capítulos sobre o templo do Sol que não foram usados). Também ficam de fora dois autores indígenas e mestiços essenciais, o Inca Garcilaso de la Vega e Guaman Poma de Ayala(este aparece só nos desenhos), além da obra de frei Bernardino de Sahagún: não há texto deles nas fontes de livre uso consultadas. A população dos dois impérios não é estimada aqui. São ausências de fonte, não de importância: entram quando houver texto que as sustente.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 11evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Do canto de Nezahualcoyotl à história de Sarmiento

1472MorreNezahualcoyotl,rei de Texcoco(Brinton)c. 1511Canto docativo deHuexotzinco(data deBrinton)1519Cortésdesembarca noMéxico1520Segunda cartade Cortés aoimperador1524Morre HuaynaCapac, segundoSarmiento1533Atahualpamanda matarHuascar(Sarmiento)1572Sarmientoentrega ahistória aovice-reiToledoDatas tiradas das fontes e das notas dos editores. As duas datas incas são as de Sarmiento; o artigo não tem como conferi-las em outra fonte.
Os marcos destacados são a chegada de Cortés, o fim da guerra entre os irmãos incas e o livro de Sarmiento — o momento em que a memória inca foi escrita a serviço do vice-rei.

Quem fala por esses impérios

Escrito por espanhóisCortés: carta ao imperador, no meio da conquistaCieza: soldado que admira e lamentaSarmiento: história encomendada para provar tiraniaNotas e anotações em espanhol nos códicesVozes indígenas que sobreviveramRelatos nauatles da conquista, reunidos por León-PortillaCantares em nauatle, escritos no alfabeto latinoO canto de morte de Pachacuti, vertido ao castelhanoTestemunhas incas que corrigiram Sarmiento capítulo a capítulo
A coluna da direita é menor porque as fontes indígenas que sobreviveram são menos numerosas — e quase todas chegaram por tradução.

Mapa mental do assunto

Mexicas e incaspelas fontes que sobraramTenochtitlanCidade no lago, calçadas e canaisMercado com juízes e fiscaisTributo anotado em figurasOs AndesQuipus: contas e censoEstradas, depósitos, correio a péMitimaes e língua do CuzcoQuem escreveCortés quer convencer o reiSarmiento serve ao vice-reiCieza admira e se culpaErros que a prova cobraPovos “primitivos” sem EstadoTodos os indígenas eram mexicasFonte espanhola como retrato neutro
O ramo destacado reúne três leituras apressadas que as próprias fontes desmentem.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Tenochtitlan (Cortés, 1520)cidade no lago, quatro calçadas, canais, aqueduto
Mercadomais de 60 mil pessoas por dia; juízes e fiscais de medidas
Tributo mexicafortalezas, cobradores, contas em figuras; províncias em guerra
Cantar de Huexotzincoprisioneiro em Tlatelolco, c. 1511 (Brinton)
Relato nauatlemassacre na festa de Huitzilopochtli; começo da guerra
Quipuscontas e censo anual; quipucamayos nas províncias
Guacaraporaregistrou em quipu tudo o que foi entregue aos espanhóis
Estradas e correiomais de mil léguas; postos a cada meia légua
Mitimaestransferência de populações para controle e povoamento
Língua do Cuzcoobrigatória, sem apagar as línguas locais
Sarmiento (1572)história encomendada por Toledo para provar “tirania”
Antes de Pizarropeste, morte de Huayna Capac, guerra Huascar × Atahualpa
Cada linha remete a uma fonte lida no artigo.

Fontes

  1. HALSALL, Paul (ed.). Hernán Cortés: from Second Letter to Charles V, 1520, a partir de O. J. Thatcher (ed.), The Library of Original Sources (1907), texto modernizado por J. S. Arkenberg. Internet Modern History Sourcebook, Fordham University.
  2. HALSALL, Paul (ed.). Aztec Account of the Conquest of Mexico, trechos de M. León-Portilla (ed.), The Broken Spears (1962). Internet Modern History Sourcebook.
  3. BRINTON, Daniel G. (ed.). Ancient Nahuatl Poetry (1887) — cantares XIII e XXIII, com introdução e notas do editor. Project Gutenberg, e-book 12219.
  4. HALSALL, Paul (ed.). Pedro de Cieza de León: Chronicles of the Incas, trad. C. R. Markham (1883), texto modernizado por J. S. Arkenberg. Internet Modern History Sourcebook.
  5. CIEZA DE LEÓN, Pedro de. Segunda parte de la Crónica del Perú, que trata del señorío de los Incas Yupanquis, ed. M. Jiménez de la Espada (Madri, 1880), caps. XII, XV, XXI, XXII e XXIV. Project Gutenberg, e-book 25255.
  6. SARMIENTO DE GAMBOA, Pedro. History of the Incas (1572), trad. e introdução de Clements Markham (Hakluyt Society, 1907). Project Gutenberg, e-book 20218.