Colonização das Américas
Colombo prometeu aos reis “todo o ouro de que precisarem” e um forte para manter uma ilha inteira em sujeição. Um século depois, Potosí rendia ao rei um milhão de pesos por ano só em impostos. Entre uma coisa e outra, alguém teve de trabalhar — e a Coroa teve de decidir quem mandava em quem.

Folha de rosto das Leis Novas das Índias, impressas em 1543 · 1543 · Wikimedia Commons · Public domain
Em março de 1493, de volta da primeira viagem, Colombo escreveu que deixara na Hispaniola um forte e alguns homens, e que isso bastava para manter a ilha inteira em sujeição. Prometeu aos reis ouro, especiarias, algodão e “quantos homens” quisessem para a marinha. Em 1590, o jesuíta José de Acosta calculava que o rei recebia, só em impostos sobre a prata de um morro nos Andes, cerca de um milhão de pesos por ano. O que aconteceu entre a promessa e o milhão?
Toda colônia precisou responder a três perguntas: quem trabalha, quem manda e quanto rende. Este artigo segue essas perguntas, e não a ordem das conquistas — e termina comparando as respostas espanholas com as dos primeiros documentos ingleses.
Tudo o que segue foi tirado de documentos do próprio período — duas cartas de Colombo, a denúncia de Las Casas, a lei de 1542, a crônica de Acosta, duas cartas de fundação inglesas — e das notas de quem os publicou: o Internet History Sourcebooks Project (Universidade Fordham) e o Avalon Project (Yale). Sem um historiador fazendo a síntese, a leitura aqui é provisória e pode mudar quando entrar bibliografia. Quase todos os autores são europeus; os indígenas falam por intermédio deles.
Da posse ao plano: o ouro com carimbo
A carta de 1493 mostra a lógica do começo. Colombo diz ter tomado posse de muitas ilhas “sem resistência”, por proclamação e com bandeiras. Admite ter levado índios à força da primeira ilha para que aprendessem a língua. Na Hispaniola, mandou construir o forte de Navidad e garantiu que os moradores não poderiam fazer mal aos que ficaram, porque andavam nus, não tinham armas e eram medrosos.1 A mesma carta registra que o rei da ilha o chamava de irmão.1

A construção do forte de Navidad, na Hispaniola, em xilogravura da edição de Basileia da carta de Colombo · 1493 · Wikimedia Commons · Public domain
Pouco depois, numa carta sem data que o Sourcebook situa provavelmente em 1494, Colombo propõe aos reis um plano de colonização. Dois mil colonos queriam ir; deviam morar em três ou quatro vilas, cada uma com alcaide, notário e igreja. Ninguém buscaria ouro sem licença; todo ouro achado seria registrado, fundido e marcado com o sinal da vila, e ouro sem marca seria confiscado. Um por cento iria para as igrejas. Os navios só poderiam descarregar num ou dois portos da ilha e, na volta, todos no porto de Cádiz, com o ouro numa arca de duas chaves.2
É um sistema inteiro em uma página: povoamento, igreja, fiscalização, parte do rei e porto único. A ideia de que o comércio da colônia passa só pelo porto autorizado da metrópole, que a trilha do Brasil estuda como exclusivo colonial, já está no plano do primeiro almirante.
Quem trabalhava: a repartição de gente
A resposta mais dura vem de Bartolomé de las Casas, frade dominicano depois feito bispo, que publicou em Sevilha, em 1552, a Brevíssima relação da destruição das Índias.3 Ele descreve a repartição: terminadas as guerras, os espanhóis dividiram entre si os jovens, as mulheres e as crianças — trinta para um, quarenta para outro, cem ou duzentos para os mais próximos do governador —, sob a condição de ensinar-lhes a fé católica. Os homens iam para as minas de ouro; as mulheres, para a lavoura; separados, morriam de fome e trabalho, e as crianças não nasciam ou não sobreviviam.3
Las Casas também registra que a Hispaniola não era um lugar sem governo: tinha cinco reinos. No de Xaraguá, a rainha Anacaona, que segundo ele tinha ajudado os espanhóis, viu os seus nobres reunidos pelo governador serem queimados dentro de uma casa de palha; ela foi enforcada.3

O massacre de Xaraguá, gravura de Theodor de Bry para a edição latina de Las Casas, Frankfurt, 1598 · 1598 · Wikimedia Commons · Public domain
Por Las Casas chega também a fala de um cacique. Hatuey tinha fugido da Hispaniola para Cuba, aonde os espanhóis passaram em 1511. Segundo o frade, ele reuniu o seu povo, mostrou uma caixa de ouro e pedras e disse que aquele era o deus dos espanhóis, insaciável; propôs jogá-lo no rio. Capturado, foi condenado à fogueira. Um frade lhe prometeu o céu se aceitasse a fé, e Hatuey perguntou se os espanhóis também iam para lá:
“Respondeu sem pensar mais que preferia ir para o inferno a ir para o céu, para não morar no mesmo lugar que gente tão sanguinária.”
Bartolomé de las Casas, Brevíssima relação da destruição das Índias (1552). Tradução nossa a partir da versão inglesa de 1689.
Duas cautelas acompanham essa fonte. A primeira são os números: Las Casas diz que dos três milhões de habitantes da Hispaniola restavam uns trezentos, e que mais de doze milhões — talvez cinquenta — morreram em quarenta anos.3 São cifras de denúncia, e este artigo não tem fonte para conferi-las. A segunda é o olhar do próprio autor: ao defender os indígenas, ele os descreve como gente “terna e efeminada”, “incapaz de trabalho pesado”, mansa e sem malícia.3 O defensor também os via de cima, e a resistência de Hatuey e dos que pegaram em armas cabe mal nesse retrato.
LembrePor que a obra de Las Casas é uma fonte indispensável e, ao mesmo tempo, exige cuidado?
É indispensável porque o autor foi testemunha de parte do que conta, descreve a repartição de indígenas entre colonos e guarda falas como a de Hatuey. Exige cuidado porque é texto de denúncia: os números (três milhões na Hispaniola, doze ou cinquenta milhões de mortos) não podem ser conferidos aqui, e a imagem do indígena frágil e passivo é do próprio Las Casas.
Quem mandava: a Coroa contra os seus colonos
Dez anos antes da publicação de Las Casas, a Coroa já tinha legislado. As Leis Novas de 1542 mandam que, por nenhum motivo — nem guerra, nem rebelião —, um índio seja feito escravo, “e queremos que sejam tratados como vassalos nossos da Coroa de Castela, pois o são”. Ninguém poderia usá-los contra a vontade; os escravizados sem título legítimo deviam ser libertados; carregá-los como animais de carga ficava proibido ou limitado.4
A lei atacava o centro do poder dos colonos: as encomiendas, os grupos de índios entregues a um espanhol. Funcionários, religiosos e quem tivesse índios em excesso os perderiam para a Coroa, e nenhuma encomienda nova seria dada — com a morte do titular, os índios voltariam ao rei.4 O editor do Sourcebook resume o desfecho: a resistência dos colonos foi tal que parte das leis teve de ser revogada no México e no Peru, onde o vice-rei foi morto ao tentar aplicá-las, e a encomienda acabou mantida.4
Quanto rendia: Potosí
A resposta mais famosa à terceira pergunta está num morro. Segundo José de Acosta, as minas de Potosí não tinham sido exploradas pelos incas. Quem achou a primeira veia foi um índio, Gualpa, que subia o morro atrás de veados. Por causa de uma briga entre ele e um vizinho, a notícia chegou a um espanhol, e o primeiro registro das minas foi feito em 21 de abril de 1545. Num lugar frio e estéril, onde nada nascia, formou-se em pouco tempo a maior povoação do reino.5

O Cerro de Potosí na crônica de Cieza de León, 1553 · 2025 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
Acosta tirou os números dos livros reais. Até 1585, tinham sido registrados e taxados 111 milhões de pesos; o rei recebia, um ano por outro, cerca de um milhão só do quinto — o imposto de um quinto sobre a prata. E Acosta avisa que a conta é incompleta: um terço, talvez metade, da prata circulava sem registro.5 A frota em que ele voltou à Espanha, em 1587, trazia onze milhões, somadas as do Peru e do México.5
O mesmo autor desce à mina. Os trabalhadores ficavam em escuridão permanente, revezando dia e noite, quebravam a pedra a golpes de barra e subiam com cerca de duas arrobas às costas por escadas de couro, de três em três, o da frente com uma vela amarrada ao polegar.5 Acosta lê tudo isso como obra da Providência, que deu aos reis da Espanha a riqueza para defender a fé contra os hereges. E faz uma comparação que diz muito: os romanos obrigavam os espanhóis a trabalhar nas minas da Espanha; agora, a Espanha deixa as suas sem lavrar e traz a riqueza das Índias.5
E os ingleses?
Os primeiros documentos ingleses respondem às mesmas perguntas de outro jeito — mas nem tanto. A Primeira Carta da Virgínia, de 10 de abril de 1606, autoriza duas companhias a fundar colônias em terras “não possuídas por nenhum príncipe ou povo cristão” e justifica a empresa por levar a religião cristã a “infiéis e selvagens”. Também autoriza a busca de minas de ouro, prata e cobre, desde que o rei receba um quinto do ouro e da prata.6
Catorze anos depois, no cabo Cod, os passageiros do Mayflower assinaram em 11 de novembro de 1620 um pacto em que se uniam num “corpo civil político” para fazer leis justas e iguais para o bem da colônia, prometendo obedecê-las.6 A Coroa espanhola legislava de longe sobre os colonos; ali, os próprios colonos se davam regras. É uma diferença real — mas a carta de 1606 mostra que o sonho do ouro e o direito de tomar terra de não cristãos também estavam no projeto inglês.
- Indígenas não foram passivos — a carta de Colombo os chama de medrosos, e Las Casas de mansos. Mas o mesmo Las Casas conta que os povos da Hispaniola pegaram em armas e que Hatuey resistiu até ser capturado.
- Lei não é prática — as Leis Novas proibiram a escravidão indígena em 1542, mas foram revogadas em parte diante da revolta dos colonos, e a encomienda continuou.
- Os números de Las Casas — milhões de mortos é afirmação de denúncia, sem confirmação neste artigo. A destruição está documentada; a cifra exata, não.
- Imagem também é argumento — as gravuras de massacre que ilustram Las Casas foram feitas na Europa, décadas depois, para outra edição e outro público. Ilustram o texto; não são registro de quem viu.
- “Povoamento” contra “exploração” — o contraste entre colônias inglesas e espanholas é esquema escolar útil, mas os documentos mostram ouro, quinto e missão religiosa também no projeto inglês de 1606.
Este artigo trabalha com poucas fontes e deixa lacunas grandes. Não há aqui estimativa da população indígena antes e depois da conquista — os números de Las Casas não podem ser conferidos com o que foi lido. Não se trata da mita andina, que nenhuma fonte lida descreve; do debate de Valladolid; da sociedade colonial (criollos, mestiços, castas); das missões jesuíticas; nem das colônias francesas e holandesas. A conquista do México e do Peru aparece só pelo encontro, no artigo sobre mexicas e incas. O Brasil tem trilha própria. Quando houver documento que trate desses pontos, eles entram; antes disso, ficam declarados como vazio.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Da carta de Colombo ao Mayflower
Duas coroas, as mesmas perguntas
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Carta de Colombo (1493) | forte de Navidad; índios levados à força; promessa de ouro |
| Plano de Colombo (c. 1494) | vilas, ouro marcado, parte do rei, porto único em Cádiz |
| Repartição (Las Casas) | índios divididos entre colonos; minas e lavoura |
| Hispaniola | cinco reinos; Anacaona enforcada em Xaraguá |
| Hatuey (Cuba, 1511) | ouro como “deus dos espanhóis”; prefere o inferno |
| Números de Las Casas | 12 a 50 milhões de mortos: denúncia, sem confirmação |
| Leis Novas (1542) | fim da escravidão indígena; encomiendas limitadas |
| Reação dos colonos | vice-rei morto no Peru; leis revogadas em parte |
| Potosí (1545) | descoberto por Gualpa; minas não exploradas pelos incas |
| Rendimento | 1 milhão/ano de quinto; 111 milhões até 1585; muita prata sem registro |
| Virgínia (1606) | quinto do ouro e da prata; fé a “infiéis e selvagens” |
| Mayflower (1620) | colonos formam “corpo civil político” |
Fontes
- HALSALL, Paul (ed.). Christopher Columbus: Letter to Lord Raphael Sanchez, 14 March 1493, a partir de P. L. Ford (ed.), Writings of Christopher Columbus. Internet Medieval Sourcebook, Fordham University.
- HALSALL, Paul (ed.). Columbus' letter to the King and Queen of Spain, 1494 (sem data; o Sourcebook não identifica a edição impressa). Internet Medieval Sourcebook.
- LAS CASAS, Bartolomé de. A Brief Account of the Destruction of the Indies — tradução inglesa de 1689 da Brevísima relación (Sevilha, 1552). Project Gutenberg, e-book 20321.
- HALSALL, Paul (ed.). The New Laws of the Indies, 1542, ed. Henry Stevens (1893), com introdução do editor do Sourcebook. Internet Modern History Sourcebook.
- ACOSTA, José de. Historia natural y moral de las Indias (1590), livro IV, caps. VI a VIII, reimpressão de 1894. Project Gutenberg, e-book 70219.
- The First Charter of Virginia; April 10, 1606 e Mayflower Compact: 1620, a partir de F. N. Thorpe (ed.), The Federal and State Constitutions (1909). The Avalon Project, Yale Law School.