As grandes navegações
Noventa anos antes de Vasco da Gama, uma frota chinesa ancorou em Calicute, fechou negócio com um aperto de mãos e deixou uma pedra gravada. O Índico já era um mar cheio quando os portugueses chegaram — e foi a força, mais que a descoberta, que mudou as coisas ali.

Calicute, “o mais célebre empório da Índia”, no atlas de Braun e Hogenberg, 1572 · 1572 · Wikimedia Commons · Public domain
Quando a frota de Vasco da Gama ancorou diante de Calicute, em 1498, um dos homens mandados a terra foi levado a dois mercadores de Túnis que falavam castelhano. A primeira coisa que ouviu foi: “Que o diabo te carregue! O que te trouxe aqui?” Noventa anos antes, o mesmo porto tinha recebido uma frota chinesa. Se o caminho já era conhecido, o que exatamente os europeus “descobriram”?
Este artigo não começa nos portos de partida — Lisboa, Palos, Sevilha — e sim no de chegada. Calicute, na costa sudoeste da Índia, é o ponto onde duas expansões marítimas se cruzam no tempo: a chinesa, que chegou primeiro, e a portuguesa, que chegou armada. Comparar as duas mostra o que havia de realmente novo nas navegações europeias.
Diários de bordo, um tratado, cartas de privilégio e o livro de um intérprete chinês: são documentos de época, lidos com as notas dos seus editores no Internet History Sourcebooks Project (Fordham) e no Avalon Project (Yale). Faltou aqui a mão de um historiador que juntasse tudo numa síntese — por isso as conclusões são provisórias e devem ser revistas quando houver bibliografia. As causas da expansão portuguesa ficam no artigo próprio da trilha do Brasil.
Calicute em 1407: a frota que chegou primeiro
Ma Huan era intérprete de “escritas estrangeiras”. Em 1413, conta ele no prefácio, o imperador mandou o eunuco Zheng He, enviado principal, comandar os “navios do tesouro” rumo aos países do Oceano Ocidental, para ler os éditos imperiais e distribuir presentes; Ma Huan foi junto. O posfácio do livro acrescenta um detalhe que importa: ele e seu colega Guo Chongli eram muçulmanos, e por isso foram escolhidos — sabiam as línguas dos portos que a frota visitaria, de Champa até Áden e Meca, “mais de vinte países”.1
Sobre Calicute, Ma Huan registra que em 1407 Zheng He levou ao rei um édito, um título e um selo de prata, e mandou erguer uma pedra com esta inscrição:
“Este país dista da China mais de cem mil li; seu povo vive em fartura e sob os mesmos bons costumes. Gravamos esta pedra aqui para mostrar a todas as gerações.”
Inscrição de Zheng He em Calicute, 1407, registrada por Ma Huan no Yingya Shenglan (prefácio de 1416). Tradução nossa do original chinês.
O resto da descrição é de quem observa um mercado sofisticado. O rei, diz Ma Huan, venerava o boi e o elefante — ele o chama de “budista” —, mas seus dois principais ministros eram muçulmanos, e os dois lados tinham feito um pacto: um não comia carne de vaca, o outro não comia porco. Quando os navios chineses chegavam, esses ministros, os mercadores locais e os corretores marcavam um dia para fixar os preços. Fechado o valor, as partes apertavam as mãos, “e, caro ou barato, ninguém volta atrás”. Os preços das pérolas e pedras levavam de um a três meses para ser acertados — e os contadores calculavam com os dedos das mãos e dos pés, sem ábaco, “sem errar um fio”.1

Girafa levada como tributo à corte Ming, pintura atribuída a Shen Du, 1414 · 1414 · Wikimedia Commons · Public domain
Tributo, presentes e força: a frota chinesa por dentro
Ma Huan não descreve uma viagem de exploração. Descreve uma rede. Em Malaca, conta ele, o lugar nem era um reino: o chefe local pagava quarenta taéis de ouro por ano ao Sião. Em 1409 Zheng He lhe deu selo, roupas e uma pedra, e a cidade passou a ser reino — “depois disso, o Sião não ousou mais atacá-la”. Ali os chineses montavam um armazém cercado de paliçada, com quatro portas e torre de tambores, onde as frotas espalhadas pelos vários países se reuniam, embalavam as mercadorias e esperavam o vento sul para voltar.1
A rede tinha mão armada. Em Palembang, em 1407, um pirata chinês chamado Chen Zuyi atacava os navios de passagem; Zheng He o capturou vivo e o levou à corte, onde foi executado, e pôs no lugar um aliado.1 E tinha uma linguagem de superioridade: o prefácio de Ma Jing, de 1444, diz que o objetivo dos imperadores não era exibir riqueza aos distantes, mas fazer com que todos sob o céu reconhecessem e honrassem o seu soberano.1 O rei de Ormuz, segundo Ma Huan, mandava emissários à China nos navios de volta, com leões, girafas, cavalos e pérolas; o de Áden enviava cintos de ouro e uma coroa cravejada.1
LembrePor que o livro de Ma Huan derruba a ideia de que o oceano Índico era um espaço “à espera” dos europeus?
Porque descreve, décadas antes de Vasco da Gama, portos com regras de comércio estabelecidas — corretores, contratos, impostos sobre a pimenta —, governantes de religiões diferentes convivendo por acordo, e uma frota chinesa que circulava de Malaca a Áden com intérpretes, armazéns e diplomacia.
Calicute em 1498: a frota que chegou procurando cristãos
Segundo o editor do Sourcebook, a frota de Vasco da Gama saiu de Portugal em 8 de julho de 1497, contornou o cabo da Boa Esperança quatro meses depois e chegou a Calicute em 20 de maio de 1498.2 Ao mercador de Túnis que perguntou o que os trazia tão longe, o enviado respondeu: viemos procurar “cristãos e especiarias”.2
A procura por cristãos produziu um engano revelador. Levado a um templo, o grupo viu uma imagem que os locais disseram ser de “Nossa Senhora”, rezou ali e recebeu água benta. O diário nota que os santos pintados nas paredes tinham dentes saindo da boca e quatro ou cinco braços — e mesmo assim conclui que a cidade era habitada por cristãos.2 O editor do Sourcebook esclarece: os primeiros viajantes confundiram os hindus com cristãos.2 Ma Huan, noventa anos antes, tinha chamado a mesma religião de budismo. Cada estrangeiro leu Calicute com as palavras que trazia de casa.
O resto da visita mostra quem tinha força no porto. Os presentes que Gama mandou ao rei — panos, chapéus, coral, bacias, açúcar, azeite e mel — foram recebidos com riso: o mais pobre mercador de Meca, disseram, dava mais. O rei perguntou se ele tinha vindo descobrir “pedras ou homens”, e por que, se era homens, não trouxera nada. A carta do rei de Portugal em árabe foi lida por quatro muçulmanos. Depois, os portugueses foram retidos por dias e só voltaram aos navios ao aceitar desembarcar mercadoria, “como era costume da terra”.2
O que mudou: a chegada com canhão
O editor do Sourcebook resume o que veio em seguida: Gama voltou em 1502 e bombardeou Calicute.2 O relato de Hans Mayr, que viajava na frota de Francisco de Almeida, mostra o método na costa da África Oriental, em 1505. Em Quíloa, cidade de casas de pedra de vários andares e mesquitas abobadadas, o rei se recusou a ir ao navio e ofereceu o tributo combinado com Gama. Os portugueses desembarcaram, a cidade foi saqueada e a melhor casa virou fortaleza, com as vizinhas derrubadas em volta.3
Mombaça resistiu. A cidade foi incendiada, saqueada por dois dias, e Mayr estima os mortos em cerca de 1.500. Três navios de Cambaia, na Índia, foram atingidos no ataque.3 O relato guarda a carta do rei de Mombaça ao rei de Melinde, uma das raras vozes africanas da época nesta seleção:
“Passou pela cidade um grande senhor, queimando-a e devastando-a. Veio com tal força e tal crueldade que não poupou homem nem mulher, velho nem moço, nem a menor das crianças.”
Carta do rei de Mombaça ao rei de Melinde, 1505, em Hans Mayr, via Internet Modern History Sourcebook. Tradução nossa a partir da versão inglesa.

Áden, Mombaça, Quíloa e Sofala, no atlas de Braun e Hogenberg, c. 1572 · 1572 · Wikimedia Commons · Public domain
A comparação com Ma Huan precisa ser honesta: a frota chinesa também usava força e também falava a língua do tributo. A diferença que as fontes mostram está em outro lugar. Os chineses tinham armazém em Malaca; os portugueses transformaram a melhor casa de Quíloa em fortaleza e dividiram o saque — cada homem ficava com um vigésimo do que achasse.3 O objetivo não era entrar no mercado, e sim controlá-lo.
Castela vai para o outro lado
Enquanto Portugal contornava a África, Castela apostou na direção oposta. O diário de Cristóvão Colombo começa lembrando a tomada de Granada, último reino muçulmano da Península, em janeiro de 1492, e a expulsão dos judeus. No mesmo mês, diz ele, os reis decidiram mandá-lo às “Índias”, ao príncipe chamado Grão-Cã, não pelo caminho de terra, mas pelo oeste.4 Os privilégios assinados pelos reis prometiam que, se descobrisse e conquistasse ilhas e terra firme, ele seria almirante, vice-rei e governador delas — títulos que passariam aos seus herdeiros.5
O diário mostra um capitão que mentia à tripulação: anotava, para os marinheiros, menos léguas do que percorria, para que não se assustassem com a distância.4 Em 12 de outubro, a frota chegou a uma ilha “chamada na língua dos índios Guanahani”, e Colombo tomou posse dela diante de um escrivão. Sobre os moradores, escreveu que seriam “bons servidores” e, dois dias depois, que poderia conquistá-los todos “com cinquenta homens”. E seguiu adiante, atrás de ouro e do Cipango.4
O texto do Sourcebook alterna a primeira e a terceira pessoa — “o Almirante diz”, e logo depois “aqui seguem as palavras exatas do Almirante”. É sinal de que se trata de um resumo feito por outra mão, que às vezes copia Colombo e às vezes o resume. A introdução do Sourcebook não identifica o resumidor, e este artigo também não o faz.
Tordesilhas: dividir o que ainda não se conhecia
Dois anos depois, Castela e Portugal assinaram em Tordesilhas, em 7 de junho de 1494, um tratado para encerrar a disputa sobre as terras achadas no oceano. A regra é uma linha de polo a polo a 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde: o que estivesse a leste seria de Portugal; o que estivesse a oeste, de Castela.6
O texto revela quão pouco se sabia. Em dez meses, cada lado mandaria caravelas com pilotos e astrólogos, misturados entre os navios, para medir juntos onde a linha caía; se ela cortasse alguma terra, seriam erguidas torres ou marcos ao longo dela. Navios castelhanos poderiam atravessar livremente os mares portugueses rumo ao seu lado.6 Os dois reinos dividiam o mundo — e combinavam, no mesmo documento, que ainda precisavam descobrir como medir a divisão. O que essa linha significou para o Brasil é assunto da trilha própria.
Magalhães: o caminho do oeste chega à Ásia
O editor do Sourcebook apresenta Fernão de Magalhães como nobre português que, depois de servir na Índia e no Marrocos e de uma desfeita do rei D. Manuel, ofereceu seu projeto ao rei da Espanha.7 O relato de um piloto genovês da frota conta a viagem: saída de Sevilha em agosto de 1519, escala no Rio de Janeiro em dezembro, um motim no inverno do sul — reprimido com um capitão morto a punhaladas e outro decapitado e esquartejado — e a travessia do estreito entre 21 de outubro e 26 de novembro de 1520.7

Maris Pacifici, mapa do oceano Pacífico de Abraham Ortelius, 1589 · 1589 · Wikimedia Commons · Public domain
Nas ilhas que hoje são as Filipinas, Magalhães exigiu que os chefes vizinhos se submetessem a um rei que tinha aceitado o batismo. Os moradores de Mactan responderam que, das três cabras, três porcos e três cargas de arroz exigidas, mandariam duas de cada. Magalhães atacou com cinquenta ou sessenta homens, encontrou três ou quatro mil guerreiros e morreu ali em 28 de abril de 1521.7 Os sobreviventes chegaram às Molucas, as ilhas do cravo, onde o rei local que lhes vendeu a carga jurou sobre o Corão que não os trairia. E o navio que tentou voltar pelo Pacífico acabou recebendo uma notícia: os portugueses já estavam construindo uma fortaleza nas Molucas.7
Pelos dois caminhos, o resultado foi o mesmo: os europeus chegavam à Ásia e encontravam reis, mercadores e regras que já estavam lá. O editor do Sourcebook faz uma ressalva que vale para a prova: a viagem não “provou” que a Terra era redonda — a maioria das pessoas instruídas já sabia disso.7
- “Descobrimento” de quem? — o caminho marítimo até a Índia era novo para os portugueses, não para o Índico. Em Calicute havia mercadores de Túnis e de Meca, e a frota chinesa tinha passado por ali noventa anos antes.
- Zheng He não era pacífico por natureza — a frota chinesa capturou um pirata, protegeu Malaca contra o Sião e falava a língua da superioridade imperial. A diferença em relação aos portugueses está no saque e na fortaleza, não na ausência de força.
- Terra redonda — nem Colombo nem Magalhães provaram que a Terra era esférica: as pessoas instruídas já sabiam, como lembra o editor do Sourcebook.
- A violência tem registro — o saque de Quíloa e Mombaça está no relato de um homem da própria frota portuguesa, e a carta do rei de Mombaça o confirma pelo outro lado.
As fontes lidas deixam lacunas grandes. Não há aqui o número de viagens de Zheng He, o tamanho dos seus navios nem o motivo do fim das expedições chinesas — Ma Huan não trata disso, e o artigo não afirma o que não leu. Faltam também a navegação árabe, guzerate e malaia vista por dentro, a viagem de Bartolomeu Dias, as bulas papais anteriores a Tordesilhas e a técnica náutica (caravela, astrolábio). As causas da expansão portuguesa e a viagem de Cabral estão nos artigos da trilha do Brasil. Cada um desses temas cai na prova; ficam de fora porque os documentos usados aqui não tratam deles.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Um século no mesmo mar
Duas frotas no mesmo porto
Mapa mental do assunto
Fontes
- MA HUAN. Yingya Shenglan [瀛涯勝覽, “Visão geral das costas do oceano”], com prefácios de Ma Huan (1416) e Ma Jing (1444) e posfácio. Texto chinês, Project Gutenberg, e-book 23981. Trechos traduzidos diretamente para este artigo.
- HALSALL, Paul (ed.). Vasco da Gama: Round Africa to India, 1497-1498, a partir de O. J. Thatcher (ed.), The Library of Original Sources (1907). Internet Modern History Sourcebook, Fordham University.
- HALSALL, Paul (ed.). Hans Mayr: The Voyage and Acts of Dom Francisco, 1505, a partir de G. S. P. Freeman-Grenville, The East African Coast: Selected Documents (1974). Internet Modern History Sourcebook.
- HALSALL, Paul (ed.). Christopher Columbus: Extracts from Journal (1492). Internet Medieval Sourcebook.
- Privileges and Prerogatives Granted by Their Catholic Majesties to Christopher Columbus (1492). The Avalon Project, Lillian Goldman Law Library, Yale Law School.
- Treaty between Spain and Portugal concluded at Tordesillas; June 7, 1494, trad. F. G. Davenport, European Treaties Bearing on the History of the United States (1917). The Avalon Project, Yale Law School.
- HALSALL, Paul (ed.). Ferdinand Magellan's Voyage Round the World, 1519-1522 — relato de um piloto genovês, a partir de O. J. Thatcher (ed.), The Library of Original Sources (1907). Internet Modern History Sourcebook.