História Verso
História Geral · Idade Moderna

A Revolução Científica

Um cônego polonês que guardou o próprio livro por quase quarenta anos, um cardeal que confiava nos próprios olhos, um astrônomo de setenta anos ajoelhado diante da Inquisição e um ministro chinês pedindo que os livros europeus fossem traduzidos e julgados. A Revolução Científica lida em quem a escreveu e em quem a contestou.

1543–168714 min de leitura15 fontes
Galileu diante da Inquisição romana, por Cristiano Banti, 1857 · Cristiano Banti · 1857
Galileu diante do tribunal romano, pintado por Cristiano Banti em 1857, mais de dois séculos depois da sentença. O pintor o pôs de pé, altivo, com aparência de meia-idade. O texto da abjuração descreve outra cena: um homem de setenta anos, de joelhos, com as mãos sobre os Evangelhos. A pintura mostra o símbolo que o processo virou, não o que aconteceu.
Galileu diante da Inquisição romana, por Cristiano Banti, 1857 · 1857 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Em 1615, um cardeal escreveu que qualquer pessoa sente a Terra parada sob os pés e vê a Lua e as estrelas se moverem — e que por isso ninguém precisava de sábio para corrigir esse “erro”. Se a experiência diária dava razão a ele, o que foi preciso para convencer a Europa do contrário?

A pergunta tira a Revolução Científica do lugar-comum de “a razão venceu a superstição”. Os adversários de Copérnico e de Galileu não negavam a observação: apoiavam-se nela. O que os documentos do período mostram é uma disputa sobre quem tinha autoridade para dizer o que é verdade sobre a natureza — os autores antigos, a Escritura lida pelos Padres da Igreja, os sentidos de qualquer pessoa, ou um cálculo que contrariava os sentidos.

De onde vem este artigo
Tudo o que segue sai de textos escritos na época — dedicatória, cartas, sentença, tratados — e dos comentários que os editores do projeto de fontes históricas da Universidade Fordham (Internet History Sourcebooks) puseram junto deles. Falta aqui a camada que uma obra de síntese daria: o balanço dos historiadores. Leia o texto como mais provisório que o de um artigo construído sobre essa bibliografia — cada documento defende uma posição, e só a comparação entre eles corrige o viés.

O navio que sai do porto

Comece pela imagem que atravessa toda a disputa. No primeiro livro de As revoluções dos corpos celestes, publicado em 1543, o cônego polonês Nicolau Copérnico lembra um verso antigo: um barco deixa o porto, e quem está a bordo vê as terras e as cidades se afastarem. Num barco que navega calmo, tudo do lado de fora parece se mover, e o barqueiro julga estar parado. Por que não supor o mesmo da Terra, perguntava ele — que o giro diário pertence a ela, e só a aparência do giro pertence ao céu?2

O argumento não era observação nova. Era uma troca de ponto de vista. E Copérnico sabia o tamanho do problema que criava.

Um livro guardado “quatro vezes nove anos”

A dedicatória ao papa Paulo III é um documento de cautela. Copérnico conta ter hesitado muito antes de publicar uma tese que pareceria absurda a quem confiava no juízo de muitos séculos — a Terra fixa no centro do céu. Pensou em seguir o costume dos pitagóricos, que transmitiam seus segredos só de boca, a parentes e amigos. À frente dos que o convenceram estavam dois homens da Igreja, o cardeal de Cápua e o bispo de Culm, que o pressionaram a soltar um livro guardado não por nove anos, mas “já caminhando para quatro vezes nove”.1

O motivo que ele declara para ter buscado outra explicação é técnico, não filosófico: os matemáticos não se entendiam. Uns usavam círculos concêntricos, outros excêntricos e epiciclos, e o resultado parecia um corpo montado com mãos, pés e cabeça de origens diferentes — um monstro, e não um homem. Lendo os antigos, Copérnico encontrou em Cícero e em Plutarco autores que já tinham posto a Terra em movimento, e se sentiu autorizado a testar a hipótese. Testada, ela deixava todas as órbitas tão amarradas entre si que não se podia mexer numa parte sem desarrumar o conjunto.1

Dois detalhes do texto desmontam a ideia de um cientista contra a Igreja. O primeiro: ele oferece o livro como útil à própria Igreja, porque a reforma do calendário discutida em Roma no tempo de Leão X tinha parado por falta de medidas confiáveis do ano e dos movimentos do Sol e da Lua. O segundo: o desprezo dele não é pela fé, é por quem torce uma passagem da Escritura para atacar matemática sem saber matemática. O exemplo que dá é o de Lactâncio, “escritor famoso, mas mau matemático”, que zombava de quem dizia a Terra redonda.1

A nota que acompanha a dedicatória na edição usada pelo Sourcebook informa que Copérnico nasceu em 1473 em Thorn, de pai polonês e mãe alemã, e morreu em 1543 em Frauenburg. Outro editor, O. J. Thatcher, acrescenta o ponto que mais importa para entender o que veio depois: o conhecimento da época não bastava para provar a teoria, e o grande argumento a favor dela era a simplicidade diante do sistema de epiciclos.12

O sistema de Copérnico no manuscrito de As revoluções dos corpos celestes · Nicolaus Copernicus · 1520-1541
O diagrama no manuscrito de Copérnico. No centro, Sol; a partir dele, as órbitas numeradas de fora para dentro — a quinta é a da Terra, “com a Lua”; a mais externa, a esfera imóvel das estrelas fixas. Nenhum epiciclo: a ordem única que ele opunha ao “monstro” dos sistemas anteriores.
O sistema de Copérnico no manuscrito de As revoluções dos corpos celestes · 1520 · Wikimedia Commons · Public domain
LembrePor que Copérnico achava que sua hipótese era melhor, se não podia prová-la por observação?

Porque ela punha ordem no conjunto. Os sistemas anteriores precisavam de recursos diferentes para cada planeta; com a Terra em movimento, as órbitas ficavam presas umas às outras numa estrutura única. A força da tese era a coerência e a simplicidade, e não uma observação nova — o que deixava aberto o flanco que Bellarmino exploraria.

Hipótese ou realidade? A resposta de 1615

Setenta e dois anos depois, a questão deixou de ser de calendário. Em 12 de abril de 1615, o cardeal Roberto Bellarmino respondeu a um frade carmelita, Paolo Foscarini, que publicara um texto defendendo que a Terra móvel não contrariava a Bíblia. A carta separa com precisão duas coisas.3

Dizer que, supondo a Terra em movimento, as aparências do céu se explicam melhor que com excêntricos e epiciclos, era “falar bem”: não havia perigo nisso, e bastava aos matemáticos. Afirmar que o Sol está de fato parado no centro era outra coisa — “muito perigosa”, porque irritava filósofos e teólogos e tornava falsa a Escritura. O Concílio de Trento proibia interpretar a Bíblia contra o acordo comum dos Padres, e todos eles liam ao pé da letra que o Sol corre em volta da Terra.3

O terceiro ponto da carta é o mais interessante, porque deixa uma porta aberta. Se houvesse uma demonstração verdadeira de que a Terra gira em volta do Sol, escreve Bellarmino, seria preciso reler com cuidado as passagens contrárias e admitir que não as entendíamos. Mas ele não acreditava que houvesse, e ninguém lhe mostrara uma. Na dúvida, valia a leitura dos Padres. E então ele responde, quase palavra por palavra, ao navio de Copérnico: quem sai da praia sabe que é o barco que anda e corrige a impressão; com a Terra e o Sol, ninguém precisa corrigir nada, porque cada um experimenta que a Terra está parada.3

No ano seguinte, a Congregação do Índice agiu sem citar o nome de Galileu. O decreto de 1616 chama de falsa e contrária à Escritura a “doutrina pitagórica” do movimento da Terra, manda suspender até ser corrigido o livro de Copérnico e proíbe o de Foscarini.3 Repare na gradação: o livro de 1543 não foi queimado; foi posto em quarentena até que voltasse a falar como hipótese.

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Em carta de 1615, o cardeal Bellarmino considerou aceitável dizer que, supondo a Terra em movimento, os fenômenos celestes eram mais bem explicados, mas julgou perigoso afirmar que o Sol estava realmente imóvel no centro. Admitiu ainda que, diante de uma demonstração verdadeira, as passagens bíblicas contrárias deveriam ser reinterpretadas. A posição do cardeal indica que:
  1. Incorreta. Bellarmino diz o oposto: o cálculo com a Terra em movimento, tratado como hipótese, “basta aos matemáticos” e não traz perigo.

  2. Incorreta. O cardeal afirma que nenhuma demonstração lhe fora mostrada, e o próprio editor de Copérnico reconhece que o conhecimento da época não bastava para provar a teoria. A recusa se apoiava nisso, e não só em política.

  3. Incorreta. A carta prevê a revisão: com uma demonstração verdadeira, seria preciso admitir que as passagens contrárias não tinham sido entendidas.

  4. Correta. É o centro da carta: aceitar a Terra móvel como ferramenta de cálculo e recusá-la como verdade física, enquanto a interpretação dos Padres continuasse sendo o critério na falta de prova.

  5. Incorreta. O cardeal não defende a tese; considera-a perigosa se afirmada como real. E o decreto de 1616 é da Congregação do Índice, que, segundo a nota da fonte, ele próprio dirigia em nome de Paulo V.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

A defesa de Galileu: o que a Bíblia não quer ensinar

Galileu Galilei respondeu a esse tipo de objeção numa longa carta à grã-duquesa Cristina, da Toscana. Segundo o resumo que antecede o texto na coletânea de Hammerton, ela ampliava uma carta anterior a um monge beneditino que precisara defender Copérnico à mesa do grão-duque.4

O argumento central inverte a ordem de Bellarmino. As Escrituras não podem mentir, concede Galileu, mas muitas vezes falam de modo acomodado à capacidade de gente simples — senão seria preciso dar a Deus mãos, pés e arrependimento. Logo, nas questões naturais, deve-se começar pelos experimentos e pelas demonstrações, e não pela Escritura. Para resumir a ideia, ele cita a frase de um eclesiástico de alto posto: “a intenção do Espírito Santo é ensinar-nos como se vai ao céu, e não como vai o céu”.4

Galileu também tinha o que Copérnico não tivera: coisas vistas. A nota de Hammerton atribui a ele, em Pádua, a construção de um telescópio, e diz que em 1610 ele descobriu quatro luas de Júpiter. No Diálogo sobre os sistemas do mundo, publicado em 1632, o personagem que fala por ele enfrenta as objeções clássicas: se Vênus só refletisse luz, deveria ter fases como a Lua; se Marte girasse em volta do Sol, deveria parecer muito maior quando mais perto. E responde que as duas coisas acontecem — Vênus muda de forma “exatamente como a Lua”.5 Na carta à grã-duquesa, a consequência vinha dita sem rodeios: para suprimir a tese de Copérnico, seria preciso proibir a astronomia inteira e proibir os homens de olhar para o céu.4

22 de junho de 1633

O Diálogo levou Galileu ao tribunal da Inquisição em Roma. A sentença reproduzida no Sourcebook retoma a denúncia de 1615: ele sustentava como verdadeira a “falsa doutrina” do Sol imóvel no centro, ensinava-a a discípulos e trocava cartas sobre ela com matemáticos alemães. Os qualificadores teológicos tinham declarado a imobilidade do Sol “formalmente herética”, por contrariar a Escritura, e o movimento da Terra, no mínimo “errôneo na fé”.6

Galileu foi julgado “veementemente suspeito de heresia”. A pena: o livro proibido por edito público, prisão no Santo Ofício enquanto o tribunal quisesse, e a obrigação de recitar os sete salmos penitenciais uma vez por semana durante três anos. Antes disso, a condição para ser absolvido — abjurar. O texto da abjuração, assinado no convento della Minerva no mesmo dia, mostra um homem de setenta anos, de joelhos, jurando que sempre acreditou no que a Igreja ensina, amaldiçoando o “erro” e prometendo denunciar ao Santo Ofício qualquer suspeito de heresia que conhecesse.6

Um documento com ressalva
O próprio editor do Sourcebook avisa que não localizou a fonte impressa da tradução inglesa da sentença e da abjuração, e que a página traz no título a data errada, 1630, corrigida por ele para 1633. Os trechos usados aqui conferem nas duas versões que a página reproduz, mas a ressalva vale.

O efeito ultrapassou a Itália. A introdução de Hammerton ao Discurso do método registra que René Descartes terminou em 1633 um tratado de física, O mundo, e decidiu não publicá-lo em vida “em vista do destino de Galileu”.8 A sentença censurou um livro e ensinou outros autores a se calar.

LembreQue diferença havia entre a posição de Bellarmino em 1615 e a sentença de 1633?

Bellarmino tolerava a Terra em movimento como hipótese de cálculo e deixava em aberto uma revisão caso surgisse prova. A sentença de 1633 trata a mesma tese como heresia e pune Galileu por tê-la defendido como verdadeira depois de advertido. O espaço do “supondo que” foi fechado.

Duas receitas para chegar à certeza

Enquanto o céu era disputado em Roma, dois autores tentavam responder a uma pergunta anterior: como se chega a uma verdade segura, qualquer que seja o assunto? As respostas apontam em direções opostas.

O inglês Francis Bacon, no Novum Organum (1620, segundo a ficha do editor), acusa a lógica de seu tempo de servir mais para fixar erros do que para descobrir verdades. O caminho da moda saltava dos sentidos direto aos princípios mais gerais e depois descia deles. O caminho certo, “ainda não tentado”, sobe dos casos particulares por degraus, até chegar às leis gerais por último. O intelecto, diz ele, não precisa de asas, e sim de pesos que o impeçam de saltar. E o objetivo é prático: saber e poder humanos coincidem, porque a natureza só é comandada quando é obedecida.7

O francês René Descartes, no Discurso do método(1637), parte da desconfiança oposta: os sentidos às vezes enganam, e o que se pensa acordado pode aparecer em sonho sem ser verdade. Decide então tratar como falso tudo o que admita a menor dúvida — e descobre que, enquanto duvida, alguém está pensando. Daí a primeira certeza, “penso, logo existo”. O método que propõe tem quatro regras: só aceitar o que se apresenta clara e distintamente, dividir cada dificuldade em partes, avançar do mais simples ao mais complexo e revisar tudo para nada omitir. O modelo era a matemática.8

Bacon confia na observação acumulada e desconfia do raciocínio que corre à frente; Descartes desconfia dos sentidos e confia no raciocínio ordenado. Os dois rompem com a autoridade dos livros antigos — Descartes conta ter abandonado o estudo das letras para buscar só a ciência que achasse em si mesmo ou no “grande livro do mundo”.8

O sangue também gira

A mesma mudança aparece no corpo humano. William Harvey, médico inglês formado em Pádua, publicou em 1628, em Frankfurt, o tratado sobre o movimento do coração e do sangue.10 O argumento decisivo é uma conta. Suponha que o ventrículo esquerdo lance na aorta meia onça de sangue a cada batida; em meia hora o coração bate mais de mil vezes. Multiplicando, passa pelo coração mais sangue do que o corpo inteiro contém — e mais do que a comida poderia produzir. A única saída é que o sangue volte das artérias para as veias e daí ao coração: um movimento, nas palavras dele, “como que em círculo”.10

Vale notar o tom: Harvey diz temer não só a inveja de alguns, mas ter a humanidade inteira contra si, porque o costume e o respeito pela antiguidade tinham raízes fundas. Logo na abertura do capítulo aparece o nome de Galeno, o médico antigo cuja autoridade outros invocavam.10

Braço com a veia apertada, gravura do tratado de William Harvey (1628) · Unknown author Unknown author · Unknown date
Gravura do tratado de Harvey: um braço com a veia apertada por uma faixa. Abaixo do aperto a veia incha, porque o sangue não consegue voltar ao coração — o experimento que qualquer leitor podia repetir em si mesmo.
Braço com a veia apertada, gravura do tratado de William Harvey (1628) · 0 · Wikimedia Commons · Public domain

Newton e a pedra que cai na América

A obra que fecha o período é o Philosophiae Naturalis Principia Mathematica de Isaac Newton, publicado inteiro em 1687. O resumo de Hammerton destaca o princípio que a caracteriza: toda partícula de matéria atrai toda outra com uma força inversamente proporcional ao quadrado da distância. Newton o deduziu do movimento da Lua e das leis de Kepler, e mostrou que um corpo sob essa força só pode descrever órbitas como a elipse, a parábola ou a hipérbole.9

O mais revolucionário, porém, está nas “regras do raciocínio em filosofia” que Newton fixa no livro. A segunda manda atribuir as mesmas causas aos mesmos efeitos, e os exemplos que ele dá são a respiração do homem e a do animal, a luz do fogo da cozinha e a do Sol, e a queda das pedras na Europa e na América. A terceira estende a todos os corpos o que se observa em todos os que se pode testar.9 Não há mais uma física para a Terra e outra para o céu: a força que puxa a pedra é a que segura a Lua. Era isso que separava a síntese de Newton da hipótese de Copérnico.

Folha de rosto dos Principia de Isaac Newton, primeira edição, 1687 · The original uploader was Zhaladshar at English Wikisource . · 1687
Folha de rosto da primeira edição dos Principia, 1687. No pé, a licença de impressão assinada por Samuel Pepys como presidente da Royal Society: a sociedade que Wallis vira nascer em reuniões semanais dava agora o aval ao livro.
Folha de rosto dos Principia de Isaac Newton, primeira edição, 1687 · 1687 · Wikimedia Commons · Public domain

A história da maçã, aliás, tem autor conhecido, e não é Newton. O editor de Hammerton atribui o episódio a Voltaire, que divulgou Newton na França. Nas Cartas inglesas, Voltaire conta que Newton, retirado perto de Cambridge em 1666 por causa da peste, viu frutas caírem de uma árvore e se perguntou se a força que as derrubava não chegaria até a Lua.12 O mesmo Voltaire descreve o choque de um francês que chega a Londres: em Paris, o universo era cheio de turbilhões de matéria sutil, como queria Descartes; em Londres, era vazio, e tudo se explicava por atração. Quando um acadêmico francês comparou Descartes a Newton, conta ele, parte da Royal Society se ofendeu só porque Descartes era francês.12 A ciência nova também era disputa de prestígio entre reinos.

Onde a ciência se reunia

O doutor John Wallis, um dos participantes, deixou dois relatos sobre a origem da Royal Society. Por volta de 1645, com as universidades desorganizadas pela guerra civil inglesa, um grupo passou a se reunir semanalmente em Londres, com regras, multa para faltosos e contribuição para pagar os experimentos. Ficavam proibidos os assuntos de teologia e de Estado. Discutia-se a circulação do sangue, a hipótese de Copérnico, os satélites de Júpiter, as fases de Vênus, o peso do ar, a queda dos corpos. Em 1648–1649 parte do grupo foi para Oxford e passou a se reunir na casa de um boticário, pela facilidade de examinar drogas. No início de 1662, por favor do rei restaurado, o grupo foi incorporado com o nome de Royal Society.11

Wallis faz questão de uma ressalva: eles não desprezavam Aristóteles, que consideravam um grande investigador da natureza — apenas não achavam que ele tivesse esgotado o assunto.11 A ruptura, contada por quem a viveu, é menos uma guerra contra os antigos do que a recusa de que eles tivessem a última palavra.

A mesma ciência, vista de Pequim

Os documentos europeus contam a Revolução Científica como assunto interno da Europa. Dois textos do Sourcebook mostram que ela já circulava em outro império, e com outra lógica.

Em 1617, o alto funcionário chinês Xu Guangqi — tutor dos filhos da casa imperial, que se declarava crente nos livros publicados pelos jesuítas — enviou ao imperador um memorial em defesa de missionários europeus acusados pelo Ministério dos Ritos, que chamara “absurdos” os discursos deles sobre astronomia. Xu se incluiu entre os acusados: também ele estudara matemática com aqueles estrangeiros. E lembrou um precedente chinês — o primeiro imperador da dinastia mandara traduzir os livros astronômicos dos muçulmanos.13

O que ele propôs não foi aceitar a ciência europeia, e sim examiná-la: reunir os missionários e ministros chineses para traduzir as obras trazidas do Ocidente — astronomia, matemática, medicina, agricultura e irrigação —, e deixar os ministros do palácio decidirem, em assembleia, o que era correto. Se fossem contrárias aos clássicos, que os estrangeiros fossem expulsos e ele punido junto.13 O critério de verdade, ali, continuava sendo chinês.

Matteo Ricci e Xu Guangqi, gravura do livro de Athanasius Kircher sobre a China (ed. francesa de 1670) · Kircher, Athanasius, 1602-1680. · 2013-03-05 17:28:15
Matteo Ricci e Xu Guangqi lado a lado, em gravura do livro do jesuíta Athanasius Kircher sobre a China (edição francesa de 1670). Não há instrumento científico na cena: ao fundo, um crucifixo, uma imagem da Virgem e o monograma dos jesuítas, e a legenda latina chama Xu de “propagador da lei cristã”. É a parceria como a missão queria mostrá-la.
Matteo Ricci e Xu Guangqi, gravura do livro de Athanasius Kircher sobre a China (ed. francesa de 1670) · 2013 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

Cerca de sessenta anos depois, na corte do imperador manchu, o jesuíta Du Halde descreve o outro lado da troca. Os missionários presentearam o imperador Kangxi com lunetas, uma câmara escura instalada no muro do jardim, a lanterna mágica, bombas d’água, termômetros e um tambor que reproduzia o arco-íris com um prisma. O texto é franco sobre o motivo: os jesuítas perceberam que a proteção do imperador era necessária ao avanço do Evangelho, e não omitiram nada que pudesse excitar sua curiosidade.14 A ciência europeia entrou na China como presente de corte e instrumento de missão.

O relato termina dizendo que os chineses, antes orgulhosos, passaram a ver os europeus como seus mestres.14 É a frase de um missionário que precisava justificar a missão para leitores europeus — e o memorial de Xu, com sua proposta de julgar os livros estrangeiros pelos critérios do império, é o melhor antídoto contra ela.

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Em 1617, o ministro Xu Guangqi pediu ao imperador que as obras trazidas pelos missionários europeus sobre astronomia, matemática, medicina e agricultura fossem traduzidas e julgadas por ministros do palácio, que decidiriam se eram corretas; se contrariassem os clássicos, os estrangeiros deveriam ser expulsos. Por volta de 1680, um jesuíta escreveu que os presentes científicos dados ao imperador Kangxi fizeram os chineses ver os europeus como mestres. O confronto entre os dois documentos permite afirmar que:
  1. Incorreta. O memorial de Xu mostra o contrário: havia um Ministério dos Ritos que julgava a astronomia estrangeira e um precedente de tradução de livros astronômicos muçulmanos.

  2. Correta. É a leitura que os dois textos sustentam juntos: Xu propõe exame e decisão chinesa, e Du Halde admite que os presentes serviam para ganhar a proteção do imperador ao Evangelho.

  3. Incorreta. Xu escreveu em defesa dos missionários, e o relato de Du Halde mostra jesuítas ativos na corte décadas depois.

  4. Incorreta. Os dois documentos tratam de missionários católicos na corte imperial. Nenhum menciona comerciantes ou universidades.

  5. Incorreta. Du Halde descreve o contrário: o imperador buscava os missionários para explicar fenômenos e encomendava máquinas.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • Base documental, não historiográfica — o artigo foi escrito a partir de documentos de época e notas de editor do Sourcebook de Fordham. Mostra o que os envolvidos escreveram, não o balanço que os historiadores fazem do período — inclusive a discussão sobre se houve de fato uma “revolução”, que o editor apenas indica em textos externos.
  • Ciência contra religião é simplificação — Copérnico era cônego, foi pressionado a publicar por um cardeal e um bispo e dedicou o livro ao papa. Galileu argumentou com santo Agostinho. O conflito era sobre quem interpretava o quê, e não entre crentes e descrentes.
  • A data da sentença — a página do Sourcebook leva “1630” no título; o próprio editor corrige para 1633, que é a data escrita no texto da abjuração (22 de junho de 1633). Ele avisa também que não achou a fonte impressa da tradução.
  • A gravitação não é proporcional à distância — o quadro-resumo do editor do Sourcebook enuncia mal a lei de Newton. O resumo dos Principia usado aqui dá a forma correta: a força diminui com o quadrado da distância.
  • A maçã é de Voltaire — a cena da fruta caindo vem das Cartas inglesas, escritas por um admirador francês de Newton, e não de um texto do próprio Newton.
  • Missionário não é observador neutro — Du Halde escreve para justificar a missão jesuíta. A frase sobre os chineses verem os europeus como mestres é a opinião dele, não um fato registrado.
Onde este artigo para
Ficam de fora personagens que o Sourcebook não traz em documento próprio nesta seção: Kepler e Tycho Brahe (só links externos e uma linha da ficha do editor), Vesálio (só imagens externas) e Giordano Bruno, que aparece numa única linha da ficha, como queimado em 1600, sem documento. O telescópio de Galileu em detalhe, a Academia de Ciências francesa e o debate dos historiadores sobre a própria ideia de “revolução” também não têm base nos textos lidos.

Há também uma lacuna de recorte. A dívida da ciência europeia com a astronomia e a matemática do mundo islâmico e da Índia é tratada no artigo sobre o Iluminismo. O Sourcebook não traz documentos sobre a ciência do Império Otomano, da Índia mogol ou das Américas neste período; sem documento lido, essa comparação não é feita aqui.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

De uma hipótese a uma lei, em 144 anos

1543CopérnicopublicaAsrevoluçõese morre1610Galileuvê quatroluas deJúpiter1615Carta deBellarminoaFoscarini1616O Índicesuspendeo livrodeCopérnico1617XuGuangqidefendeosjesuítasem Pequim1628Harveypublica acirculaçãodo sangue1633SentençaeabjuraçãodeGalileu1637Descartespublica oDiscursodo método1662A RoyalSociety éincorporadapelo rei1687NewtonpublicaosPrincipiaDatas tiradas dos próprios documentos ou das notas de editor que os acompanham no Sourcebook. Em destaque, os três marcos que organizam o artigo: a hipótese publicada, a hipótese condenada e a síntese.
Repare no intervalo entre 1616 e 1633: em menos de vinte anos, a Terra móvel deixou de ser hipótese tolerada e virou heresia. E repare que 1617, o memorial de Xu Guangqi, cai no meio da disputa romana.

Dois caminhos para a certeza

Bacon: subir dos fatosComeçar pelos casos particularesMontar tabelas de observaçõesSubir às leis gerais por degrausDesconfiar da mente apressadaSaber serve para agir sobre a naturezaDescartes: descer da certezaDuvidar de tudo o que admite dúvidaPrimeira certeza: penso, logo existoDividir cada problema em partesIr do simples ao complexo, em ordemModelo: a matemática
A coluna em destaque é a que mais confunde em prova: Descartes desconfia dos sentidos e confia na razão ordenada. O que os dois têm em comum é recusar a autoridade dos livros antigos como ponto de partida.

Mapa mental do assunto

Revolução CientíficaEuropa e China, 1543–1687O céuCopérnico: Terra em movimento (1543)Galileu: fases de Vênus, luas de JúpiterNewton: gravitação universal (1687)Quem decide a verdadeBellarmino: os Padres e os sentidosGalileu: experimento e demonstraçãoSentença de 1633: heresiaComo se conheceBacon: indução, dos fatos às leisDescartes: dúvida e deduçãoHarvey: medir o sangue que passaPara além da EuropaXu Guangqi pede tradução e exameJesuítas usam ciência na corte manchuCiência como moeda de missão
O ramo destacado é o que a narrativa escolar costuma omitir: a ciência europeia já circulava na China, mediada pela corte imperial e pelos jesuítas.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Copérnico (1543)Terra em movimento; argumento da simplicidade, sem prova observacional
Dedicatóriaao papa Paulo III; livro útil à reforma do calendário
Bellarmino (1615)aceitável como hipótese, perigoso como realidade; na dúvida, os Padres
Índice (1616)Copérnico suspenso até correção; Foscarini proibido
Galileufases de Vênus, luas de Júpiter (1610); começar pelos experimentos
Sentença (1633)22 de junho: suspeita veemente de heresia, abjuração, Diálogo proibido
Bacon (1620)indução: dos casos particulares às leis gerais
Descartes (1637)dúvida metódica, “penso, logo existo”, quatro regras
Harvey (1628)a conta do sangue prova a circulação
Royal Societyreuniões desde c. 1645; incorporada em 1662; sem teologia nem política
Newton (1687)gravitação pelo inverso do quadrado; mesma física na Terra e no céu
ChinaXu Guangqi (1617) pede exame; jesuítas na corte de Kangxi (c. 1680)
Cada linha remete a um documento lido. As citações estão no corpo do artigo.

Fontes

  1. COPÉRNICO, Nicolau. Dedicatória de As revoluções dos corpos celestes ao papa Paulo III (1543), versão inglesa em C. W. Eliot (ed.), Prefaces and Prologues to Famous Books (Harvard Classics, vol. 39), com nota biográfica do editor. Internet Modern History Sourcebook, Fordham University. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1536copernicus-rev-ded.asp
  2. COPÉRNICO, Nicolau. As revoluções dos corpos celestes (1543), livro I, excertos, em O. J. Thatcher (ed.), The Library of Original Sources, vol. 5 (1907). Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1543copernicus2.asp
  3. BELLARMINO, Roberto. Carta a Paolo Foscarini (12 de abril de 1615), com o decreto da Congregação do Índice de 1616, conforme reunidos por S. S. Hertz. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1615bellarmine-letter.asp
  4. GALILEI, Galileu. “The Authority of Scripture” (carta à grã-duquesa Cristina, versão condensada), em J. A. Hammerton (ed.), The World’s Greatest Books, vol. 13. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/17CGalileo-authorityofscripture.asp
  5. GALILEI, Galileu. Diálogo sobre os sistemas do mundo (1632), excertos, em J. A. Hammerton (ed.), The World’s Greatest Books, vol. 13. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1612galileo-2worlds-excerpts.asp
  6. TRIBUNAL DO SANTO OFÍCIO. Sentença contra Galileu e abjuração de Galileu (Roma, 22 de junho de 1633), trad. inglesa de origem impressa não identificada pelo editor. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1630galileo.asp
  7. BACON, Francis. Novum Organum (1620), Primeiro e Segundo Livro de Aforismos, excertos. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/bacon-aphor.asp
  8. DESCARTES, René. Discurso do método (1637), excertos condensados em J. A. Hammerton (ed.), The World’s Greatest Books, vol. 13. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1637descartes-method-excerpts.asp
  9. NEWTON, Isaac. Princípios matemáticos da filosofia natural (1687): “Regras do raciocínio em filosofia”, trad. inglesa de A. Motte (1729); e excertos com introdução em J. A. Hammerton (ed.), The World’s Greatest Books, vol. 15. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/newton-princ.asp e /1687Newton-principia-excerpts.asp
  10. HARVEY, William. Sobre o movimento do coração e do sangue nos animais (1628), trad. inglesa de R. Willis, com nota introdutória dos Harvard Classics, vol. 38. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1628harvey-blood.asp e /harvey-blood.asp
  11. WALLIS, John. Relatos sobre a origem da Royal Society (1678 e 1700), em C. W. Colby (ed.), Selections from the Sources of English History (1920). Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1662royalsociety.asp
  12. VOLTAIRE. Cartas inglesas, cartas XIV e XV, sobre Descartes e Newton (Harvard Classics, vol. 34). Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1778voltaire-newton.asp
  13. XU GUANGQI. Memorial ao imperador em defesa dos missionários europeus (1617), em Chinese Repository, vol. 9 (1850). Internet Modern History Sourcebook / East Asian Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1617hsukuang.asp
  14. DU HALDE, J.-B. Relato sobre a ciência ensinada ao imperador Kangxi (c. 1680), em E. M. Tappan (ed.), The World’s Story, vol. 1 (1914). Internet Modern History Sourcebook / East Asian Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1680halde1.asp
  15. HALSALL, Paul (ed.). Internet Modern History Sourcebook, seção “Scientific Revolution”, “Crib Sheet: The Scientific Revolution in the 17th Century” e notas aos documentos. Fordham University. Fonte de todas as notas de editor citadas.